A primeira grande bomba do governo Temer | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 23.05.2016
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Brasil

A primeira grande bomba do governo Temer

Gravação mostra que Romero Jucá, homem forte do presidente interino, sugeriu pacto para frear a Lava Jato e eleva desconfiança sobre intenções do governo em relação à operação. Ministro se licencia do cargo.

O ministro do Planejamento, Romero Jucá, é importante para a articulação no Congresso

O ministro do Planejamento, Romero Jucá, é importante para a articulação no Congresso

Onze dias após o seu início, o governo do presidente interino Michel Temer já enfrenta o primeiro grande escândalo. E o pivô é justamente um dos homens fortes do presidente interino: o ministro do Planejamento, Romero Jucá (PMDB-RR), que acabou se licenciando do cargo a partir desta terça-feira (24/05).

Diálogo revelado pelo jornal Folha de S.Paulo a partir de uma gravação sugere que o ministro, que foi um dos principais articuladores do impeachment da presidente Dilma Rousseff, viu o afastamento da petista e a ascensão de Temer como oportunidade de formação de um pacto para frear a Operação Lava Jato e salvar uma parte do establishment político brasileiro que é investigada.

Leia trechos do diálogo entre Romero Jucá e Sérgio Machado

A conversa de Jucá foi travada em março – antes da votação do impeachment na Câmara dos Deputados – com Sérgio Machado, ex-diretor da Transpetro que é investigado pela operação. Segundo a imprensa, a gravação foi feita pelo próprio Machado, que negocia acordo de delação premiada.

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O diálogo ajudou a alimentar ainda mais a desconfiança sobre as intenções do governo Temer e do PMDB em relação à Lava Jato. Em seu discurso de posse, Temer tentou dissipar a desconfiança, afirmando que seu governo daria "toda a proteção" à Lava Jato. O próprio Jucá havia dito em abril que ninguém iria "cometer nenhuma insanidade, nenhum erro".

Só que a montagem da equipe de governo já havia lançado dúvidas. Ao todo, nove ministros de Temer foram citados em investigações ou delações. Políticos como o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) influenciaram nomeações. Jucá, por sua vez, já era uma figura enrolada com a Justiça e representava um risco político antes mesmo da divulgação da gravação. Tramitam contra ele seis inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) – dois deles da Lava Jato.

Mesmo com esse histórico, Jucá fez valer sua influência e seu relacionamento pessoal com Temer para prevalecer na montagem do ministério. No diálogo com Machado, o ministro mostrou uma visão diferente sobre os procuradores da Lava Jato e a continuidade da operação. "(Eles querem) acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura. (...) Eu acho que tem que ter um pacto", disse.

Consequências para Temer

O episódio envolvendo Jucá também ocorre em um momento delicado para Temer, que tenta aprovar reformas econômicas e garantir um bom relacionamento com o Congresso. Considerado um negociador habilidoso, Jucá recebeu o ministério com a missão de encaminhar projetos do governo para melhorar as finanças públicas e aliviar a crise.

Logo após a divulgação, Jucá afirmou que não pretendia pedir demissão. Porém, horas depois, anunciou que está se licenciando do cargo e que vai aguardar um posicionamento do Ministério Público Federal sobre as denúncias contra ele. Resta saber se Temer vai resistir à pressão ou se afastar totalmente de Jucá – isso reduziria os danos à sua imagem num momento em que o PT ainda luta para reconduzir Dilma ao poder.

Para o cientista político Ricardo Ismael, da PUC-Rio, parece inevitável que Jucá acabe sendo afastado definitivamente. "O governo tenta se apoiar em três princípios para se firmar junto à população: defender a legitimidade do impeachment, que a economia precisa ser recuperada e a continuidade da Lava Jato. A gravação compromete esse último. Para um governo que está começando, isso é muito negativo", afirma.

Para o lugar de Jucá estão sendo especulados os nomes de Moreira Franco, atual assessor de Temer, e de Eliseu Padilha, que comanda a Casa Civil, mas há dúvidas se qualquer um dos dois terá a mesma capacidade de articulação política de Jucá para encaminhar projetos ao Congresso.

Efeitos na política

Para o analista político francês Garpard Estrada, o novo episódio explicita que o "impeachment não resolveu nada". "A crise política continua. Fica claro que o problema não era só a corrupção do PT, mas o esgotamento de todo o sistema e a relação entre dinheiro e política. O Executivo de Temer é tão frágil como o de Dilma. Ele está dependente de pessoas como Jucá e precisa lidar com um Congresso fortalecido que quer enterrar a Lava Jato."

A delação de Machado é vista com apreensão em Brasília. Por mais de uma década sua posição na Transpetro contou com a bênção da cúpula do PMDB no Senado, incluindo Jucá e o ex-presidente José Sarney. Seu padrinho mais influente, no entanto, é o presidente da casa, Renan Calheiros. "É possível prever que isso vai atingir Renan", afirma Ismael. De acordo com a imprensa, existe o temor que o episódio de Jucá não seja isolado, e que outras figuras do partido também tenham sido grampeadas pelo ex-diretor.

Justiça

Tal como ocorreu com gravações anteriores envolvendo membros do governo Dilma, Jucá citou em sua conversa a possibilidade de usar um canal com ministros do STF para favorecer investigados. Mas Jucá foi mais ambicioso e disse que o pacto para frear a Lava Jato deveria incluir o STF. "Delimitava onde está", afirmou.

Para Estrada, o diálogo também mostra que existe uma sombra de desconfiança sobre o STF. "Os ministros precisam explicar tudo isso. Não é a primeira vez que algum político sugere usar ministros do STF. A Corte já enfrentou um processo de desgaste no caso envolvendo Cunha, que demorou meses para ser afastado. O processo contra Dilma poderia ter tido um desfecho diferente se eles tivessem agido antes."

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