A imprensa sob fogo no primeiro ano de Bolsonaro | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 24.12.2019
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Brasil

A imprensa sob fogo no primeiro ano de Bolsonaro

Presidente tentou minar a credibilidade da imprensa ou atacou jornalistas em média uma vez a cada três dias em 2019. Especialistas alertam sobre risco à democracia e apontam alternativas para fazer frente aos ataques.

Weltwirtschaftsforum Davos Jair Bolsonaro (Alan Santos/Presidência da República do Brasil)

Ao longo do ano, diversos repórteres que publicaram reportagens críticas ao governo se tornaram alvos de ataques virtuais promovidos por robôs e apoiadores do presidente.

Um dos pilares das democracias avançadas é uma imprensa livre e plural, que fiscalize os poderes constituídos e aponte malfeitos. Sem ela, florescem o arbítrio e o autoritarismo. No entanto, as ações e falas do presidente Jair Bolsonaro em seu primeiro ano de governo escancaram uma visão de que o jornalismo crítico deve ser combatido.

Em março, Bolsonaro divulgou em suas redes sociais uma matéria falsa questionando a credibilidade de uma repórter do jornal O Estado de S. Paulo que cobria o caso de Fabrício Queiroz. Em agosto, afirmou a repórteres: "Se o excesso jornalístico desse cadeia, todos vocês estariam presos agora”. Em outubro, insatisfeito com uma reportagem da Rede Globo, disse que poderia dificultar a renovação da concessão da emissora, que vence em 2022, último ano de seu mandato.

Em novembro, o presidente foi além das meras palavras e ordenou a exclusão do jornal Folha de S.Paulo de uma licitação do governo para a assinatura digital de veículos de imprensa — e depois recuou sob receio de sofrer contestação judicial. Em confronto com a Folha, ele também afirmou não consumir produtos de empresas que veiculavam publicidade no jornal e que companhias que anunciassem nele deveriam "prestar atenção”.

Ao longo do ano, diversos repórteres que publicaram reportagens críticas ao governo também se tornaram alvos de ataques virtuais promovidos por trolls, robôs e apoiadores do presidente.

A tentativa de Bolsonaro de minar a imprensa e atacar jornalistas foi uma constante de janeiro a novembro, com em média um episódio a cada três dias, segundo levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas. Foram 100 menções com o objetivo de reduzir a credibilidade da imprensa, como chamar reportagens de "fake news", e 11 ataques a jornalistas, incluindo falas e manifestações por escrito.

Riscos à liberdade de imprensa e à democracia

"É o pior ano para o relacionamento entre o presidente da República e a imprensa no Brasil da ditadura para cá”, afirma à DW Brasil o jornalista Eugênio Bucci, professor da Universidade de São Paulo (USP).

Ele afirma que a liberdade de imprensa é um dos indicadores mais sensíveis da qualidade da democracia em um país. "E ela só é sólida se as autoridades a protegem, os jornalistas a exercem e o público confia. Se o governo deixa de proteger e convida o público a repudiar os jornalistas, como esse governo faz, a liberdade de imprensa está enfraquecida”, diz.

Ao contrário dos que afirmam haver somente caos no governo Bolsonaro, ele vê um método no seu trato com a imprensa, cujo objetivo seria separar a política da verdade factual e fazer avançar um projeto "obscurantista” para o país. 

"O presidente e alguns de seus ministros parecem simplesmente desastrados e despreparados, mas na camada mais profunda desses movimentos há um vetor: enfraquecer as liberdades de expressão e de imprensa, que são os únicos canais pelos quais uma sociedade pode se proteger da mentira. O governo age para quebrar a relação entre a sociedade e a verdade factual, e no limite quer colocar a sociedade sob o jugo do fanatismo obscurantista de extrema direita”, afirma.

Esse padrão de comportamento provoca consequências que vão além da relação entre a imprensa e o presidente, e pode se espalhar para a sociedade e incentivar episódios de violência país afora, alerta Emmanuel Colombié, diretor do escritório para a América Latina da organização Repórteres Sem Fronteiras.

"Isso favorece ataques diretos, linchamentos digitais e tentativas de assassinato de jornalistas, porque os apoiadores do presidente, vendo os ataques dele, consideram isso como um encorajamento para também atacar e desacreditar os jornalistas”, diz.

Outro efeito colateral dessa postura do presidente e de seus apoiadores, diz Colombié, é a autocensura de repórteres que sofrem ataques virtuais e presenciais e optam por parar de investigar assuntos que incomodam os poderes estabelecidos.

Colombié afirma ver semelhanças entre o cenário brasileiro e o que vem ocorrendo em outros países, tanto de tradição democrática, como os Estados Unidos, como hoje de perfil mais autoritário, como Venezuela e Turquia. Em todos eles, diz, há presidentes adotando uma postura agressiva contra a imprensa "para tentar reduzir os espaços democráticos”.

Como jornalistas e empresas de mídia devem reagir

Para o diretor da Repórteres Sem Fronteiras, o enfrentamento com a imprensa "irá piorar” nos próximos anos do governo Bolsonaro. Ele afirma que os jornalistas devem continuar denunciando os abusos do governo, mas que precisam tomar o cuidado de não "cair na armadilha” do presidente, que tenta controlar a agenda midiática fazendo ataques diários à imprensa e se colocando como vítima do sistema.

"A dificuldade é sair um pouco das brigas do dia a dia, do Twitter, e continuar fazendo o trabalho sério de denunciar o que precisa ser denunciado, respeitando os códigos do jornalismo para evitar serem questionados em sua credibilidade”, afirma. Ele também sugere que organizações da sociedade civil se articulem para denunciar a situação e pressionar por mudanças.

Bucci avalia que os jornalistas brasileiros estão cumprindo seu papel durante o governo Bolsonaro, mas cobra dos diretores das redações e das empresas de mídia uma postura mais "afirmativa”.

"Os dirigentes do jornalismo precisam parar para refletir e caracterizar com mais precisão o que representa um governo que faz o que esse governo está fazendo, e avaliar a hipótese de caracterizá-lo como um governo que se situa fora do campo democrático, e que, portanto, não pode ter o tratamento que teria um governo que respeita o campo democrático”, diz.

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