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CulturaEmirados Árabes Unidos

A guerra no Irã abalou o "paraíso" de Dubai?

9 de abril de 2026

Após ser promovido por anos como um "porto seguro" por influencers, Dubai sente efeitos da guerra e enfrenta perdas no turismo. Governo tenta limitar danos e recupear confiança de estrangeiros.

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Restaurante vazio em Dubai em 11 de março de 2026.
O turismo contribui com cerca de 12% da renda anual de Dubai — uma receita que foi severamente impactada pela guerraFoto: Fatima Shbair/AP Photo/picture alliance

Uma série de manchetes recentes sugere que a guerra no Irã marca o fim do chamado "paraíso" ou "sonho de Dubai", no qual estrangeiros ostentam um estilo de vida luxuoso, isento de impostos, nos Emirados Árabes Unidos.

"O desmonte de Dubai como porto seguro", apontou a revista americana The New Yorker. "Será este o fim de Dubai?", perguntou um colunista do New York Times.

O Daily Mail, por sua vez, demonstrou um certo deleite com o fato de influencers obcecados por redes sociais, que até então exibiam vidas glamorosas em Dubai, estarem sendo forçados a deixar o país. O tabloide britânico publicou dezenas de matérias sobre "o grande êxodo de Dubai" e sobre como "a fantasia reluzente e isenta de impostos dos influencers está desmoronando".

Parte desse "desmoronamento" envolve a prisão de influenciadores e outras pessoas por divulgarem imagens dos danos causados à cidade por ataques iranianos. A organização de assistência jurídica Detained in Dubai acredita que mais de 100 indivíduos, incluindo europeus, foram presos pelas autoridades dos Emirados sob leis de crimes cibernéticos ou de segurança nacional. Se condenados, podem enfrentar multas elevadas ou até anos de prisão.

Segundo o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos, o Irã lançou mais de 2,2 mil drones e mais de 500 mísseis balísticos contra o país desde o início da guerra, com alguns ataques supostamente atingindo o aeroporto de Dubai, além de prédios residenciais e hotéis na cidade.

Ao mesmo tempo, porém, as autoridades dos Emirados tentaram manter a impressão de segurança e normalidade em Dubai. Líderes visitaram shopping centers, onde empresas foram orientadas a permanecer abertas e operar normalmente.

Alguns veículos de mídia locais e contas influentes nas redes sociais promoveram uma narrativa contrária. Ela insiste que a vida segue normalmente e que Dubai continua segura.

Quem está certo sobre o "sonho de Dubai"?

Não há dúvida de que sérios danos econômicos foram causados a Dubai, o segundo maior emirado dos sete que compõem os Emirados Árabes Unidos.

A maior parte do petróleo dos Emirados — cerca de 96% — é propriedade do emirado de Abu Dhabi, razão pela qual a maior parte da renda de Dubai vem de atividades não petrolíferas, tais como turismo, serviços financeiros, tecnologia, mercado imobiliário e logística.

Dubai tem uma população de cerca de 3,8 milhões de pessoas, mas apenas cerca de 10% são emiradenses nativos. O influxo de imigrantes, como residentes, investidores ou turistas, impulsionou o crescimento econômico de Dubai à medida que a demanda por bens e serviços aumentou junto com a população.

"A população expatriada dos Emirados Árabes Unidos é central para as trajetórias de desenvolvimento econômico do país", apontou uma análise de 2021 do Instituto dos Estados Árabes do Golfo, um think tank sediado em Washington. É por isso que "contrações populacionais impulsionadas pela saída de expatriados tendem a ter um impacto econômico desproporcional".

Não há números disponíveis sobre quantos residentes estrangeiros deixaram Dubai, de forma permanente ou temporária, desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã no fim de fevereiro. Relatos sugerem, no entanto, que dezenas de milhares fugiram.

Famílias retornam ao Aeroporto de Heathrow após evacuação de Dubai
Entre 10% e 15% dos 240 mil britânicos que viviam em Dubai teriam deixado o emirado desde o início da guerra, apontam veículos de mídia do Reino UnidoFoto: Kerry Davies/Daily Mail/dmg media Licensing/picture alliance

O turismo também demonstrou uma redução substancial. Entrevistas com empresas focadas no setor indicam quedas no número de visitantes de até cerca de 80%. Em março, por exemplo, as taxas de ocupação dos hotéis de Dubai despencaram, segundo observou a publicação Arabian Gulf Business Insight.

Também houve perdas em outras áreas. O índice de referência da bolsa de Dubai perdeu 16% de seu valor durante a guerra. Gestores do setor de serviços financeiros pediram que funcionários trabalhassem de casa e alguns até evacuaram empregados. Os preços dos imóveis caíram após atingirem níveis recordes, e observadores do mercado disseram que compradores estavam desistindo de aquisições planejadas.

Dois homens sentados frente a frente em um espaço do Mercado Financeiro de Dubai (DFM) durante o período em que a bolsa de valores do emirado registra ganhos
O índice de referência de Dubai recuperou cerca de 7% após o anúncio de um cessar-fogoFoto: Waleed Zein/Anadolu/picture alliance


Assistência governamental

As autoridades locais estão tentando conter danos. Nas últimas duas semanas, os Emirados Árabes Unidos montaram um pacote de medidas no valor de cerca de US$ 272 milhões (1,39 bilhões de reais) como forma de apoio.

O pacote concede três meses adicionais para o pagamento de taxas governamentais, incluindo taxas de vendas de hotéis e impostos turísticos, além de mais tempo para a apresentação de declarações aduaneiras. As autoridades também estão financiando planos para estimular o turismo após o fim da guerra.

Segundo informou o Financial Times em meados de março, elas também querem flexibilizar regras sobre status fiscal e residência para estrangeiros, a fim de convencer aqueles que partiram a retornar.

"Dubai foi um dos primeiros governos regionais a lançar um programa de apoio econômico que vai além de pacotes de resiliência dos bancos centrais", disse Robert Mogielnicki, pesquisador não residente do Instituto dos Estados Árabes do Golfo. "Há um entendimento de que Dubai precisa se adiantar na sua resposta, dada a forte ofensiva contra os Emirados Árabes Unidos e a importância da economia não petrolífera de Dubai."

Homem sentado em um café vazio ao ar livre no centro de Dubai, Emirados Árabes Unidos, no sábado, 7 de março de 2026.
Em Dubai, restaurantes de alto padrão registraram uma queda de 90% no movimento, e donos preveem fechamentos nos próximos mesesFoto: Fatima Shbair/AP Photo/picture alliance

Mogielnicki e outros avaliam que, em termos financeiros, Dubai está longe de acabar.

"A economia de Dubai, duramente atingida, exigirá uma grande recuperação para se aproximar da normalidade", disse Mogielnicki à DW. "Muitos observadores continuam otimistas quanto à resiliência do emirado. Um Dubai bem ajustado à economia política regional do pós-conflito parece bastante plausível."

Karen Young, pesquisadora sênior do centro de política energética global da Universidade Columbia, concorda.

"Minha visão geral é que, sim, Dubai pode se recuperar", disse a especialista em economias dos Estados do Golfo à DW. "Dubai sempre será um polo regional. Representa um ideal de liberdade econômica e luxo, aliado a serviços estatais confiáveis e a uma regularidade nas operações legais e empresariais que poucos na região desfrutam em seus países de origem."

"Na minha avaliação, as forças centrais dos Emirados Árabes Unidos permanecem intactas", confirmou Martin Henkelmann, chefe do Conselho Conjunto Germano-Emiradense para Indústria e Comércio, que apoia empresas alemãs nos Emirados. "Mesmo diante dos desafios atuais, os Emirados estão bem posicionados para se recuperar rapidamente."

Henkelmann aponta para a forma como os Emirados se recuperaram após a pandemia de covid-19. "Mas essa perspectiva positiva depende de uma resolução rápida do conflito", disse ele à DW.

"Sonho de Dubai" – uma pausa, mas não o fim

Um dos primeiros indicadores econômicos de guerra vindos dos Emirados também sustenta esse argumento.

No início de abril, a empresa americana de inteligência financeira S&P Global publicou o índice de gerentes de compras (PMI) de março para os Emirados Árabes Unidos. Para o cálculo, gerentes de compras em empresas são questionados sobre suas expectativas em relação a pedidos e produção.

O PMI de Dubai caiu de 54,6 em fevereiro para 53,2 em março. A boa notícia é que um PMI acima de 50 ainda representa crescimento.

"O setor privado não petrolífero dos Emirados Árabes Unidos sofreu um revés com os impactos da guerra", disse David Owen, economista sênior da S&P Global, em comunicado. "Ainda assim, para muitas empresas, as carteiras de pedidos foram resilientes e a produção cresceu."

Fumaça sobre o aeroporto de Dubai após ataque com drone em 16 de março de 2026.
Em março, o Aeroporto Internacional de Dubai, um dos mais movimentados da região, foi atingindo por um droneFoto: REUTERS

Mas também houve perdas menos tangíveis para Dubai. Elas giram no âmbito da reputação, sendo algumas até emocionais, e incluem imagens de hotéis de luxo em chamas e manchetes sobre prisões de influenciers em um Estado que permanece autoritário. Essas perdas podem ser muito mais difíceis de corrigir.

"Durante anos, a marca dos Emirados Árabes Unidos — e a de Dubai em particular — foi sustentada por sua alegação de ser uma ilha de estabilidade em uma vizinhança perigosa", escreveu o Financial Times.

Por isso, é incerto se indivíduos de alto patrimônio e influenciadores amantes do luxo retornarão em números semelhantes aos de antes, especialmente se tiverem outras opções.

"Expatriados são um público-chave para Dubai", argumentou Mogielnicki. "Portanto, suspeito que haverá esforços concentrados e incentivos fortes para reter, trazer de volta e continuar atraindo expatriados no futuro. Não será fácil, mas é um discurso comercial que Dubai seguirá fazendo."

 

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