A brasileira que salvou judeus do Holocausto | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 11.12.2019
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História

A brasileira que salvou judeus do Holocausto

Como chefe da Seção de Passaportes do consulado em Hamburgo, Aracy Guimarães Rosa conseguiu liberar vistos de judeus para o Brasil durante a Segunda Guerra. Ela ficou conhecida como "o anjo de Hamburgo".

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa

Aracy, que foi casada com o escritor João Guimarães Rosa, em foto de 1936

Tempos de perseguição fazem heróis, muitos deles anônimos. Assim como o industrial alemão Oskar Schindler (1908-1974) – cuja história ficou famosa devido ao filme de Steven Spielberg A Lista de Schindler –, o Brasil também teve sua heroína dos tempos do Holocausto. Trata-se de Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa (1908-2011), que, como chefe da Seção de Passaportes do consulado brasileiro em Hamburgo, na Alemanha, conseguiu liberar vistos para judeus fugirem da perseguição nazista.

No Brasil daquele período, estava em vigor a Circular Secreta 1.127, uma lei que restringia a entrada de judeus no país. Quando despachava com o cônsul geral, Aracy simplesmente ignorava essa legislação, colocando os pedidos de judeus em meio à papelada para que fossem aprovados automaticamente pelo diplomata, sem questioná-la.

Até agora, segundo pesquisas do Arquivo Virtual Arqshoah: Holocausto e Antissemitismo, do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer) da Universidade de São Paulo (USP), sabe-se que Aracy salvou 17 famílias do nazismo. Mas a quantidade pode ser bem maior. De acordo com a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Leer, o número total de judeus salvos pode vir a ser revelado em novos depoimentos de sobreviventes e familiares – algo que ela coleta sistematicamente em seu trabalho de pesquisa.

"Os testemunhos registrados pela nossa equipe indicam que corria a notícia entre os judeus que fugiam das perseguições nazistas de que Aracy facilitava a liberação dos vistos para o Brasil. Uma das táticas adotadas para camuflar suas ações era a de omitir o carimbo da letra J, em vermelho, nos passaportes, marca imposta pelo governo alemão como forma de identificação do judeu, classificado como ‘raça inferior'", afirma a pesquisadora. "Ao misturar tal documentação entre os papéis a serem assinados pelo cônsul, Aracy procurava não deixar vestígios que os comprometessem."

Era um risco, mas não foi o único. "Aracy, em diferentes momentos, assumiu tarefas perigosas, escondendo e transportando judeus à noite em seu carro, como narrado por alguns sobreviventes", relata a pesquisadora.

Diretora do Museu Judaico de São Paulo, a historiadora Roberta Alexandr Sundfeld concorda que devem ser mais os beneficiados pela brasileira. "Como ela não deixou traços de suas atividades – só ficamos sabendo por depoimentos muitos anos depois – é bem possível que haja outros benfeitores."

Uma mulher à frente de seu tempo

Nascida em Rio Negro, no Paraná, Aracy tinha pai português e mãe alemã. Seu primeiro casamento, em 1930, foi com um alemão. Durou apenas cinco anos. Poliglota – dominava português, inglês, francês e alemão –, conseguiu o emprego no consulado brasileiro de Hamburgo.

"Aracy era uma mulher à frente do seu tempo: separada, com um filho para cuidar, mudou-se para a Alemanha em 1934, e foi trabalhar no setor de vistos em uma época em que poucas mulheres trabalhavam. Desafiou as ordens enviadas pelo governo brasileiro e concedeu vistos colocando sua própria carreira em risco. Muitos anos se passaram, ela voltou ao Brasil, e quando indagada sobre o motivo de suas ações, respondeu simplesmente : 'Porque era justo'", comenta Sundfeld.

Aracy (dir.) e João Guimarães Rosa (esq.) com diplomatas na sede do consulado-geral do Brasil em Hamburgo

Aracy (dir.) e João Guimarães Rosa (esq.) com diplomatas na sede do consulado-geral do Brasil em Hamburgo

Foi em Hamburgo que Aracy conheceu o escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), que era cônsul adjunto. Apaixonaram-se e casaram-se. Eles ficaram na Alemanha até 1942. 

"Anotações deixadas por Guimarães Rosa em seu diário escrito durante o período mostram que a questão dos judeus perseguidos pelos nazistas fazia parte das preocupações do casal", aponta  Tucci Carneiro. Em 1956, quando publicou sua obra-prima Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa dedicou-o a ela: "A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro."

"Foi uma mulher bem corajosa. Filha de mãe alemã, ousou peitar o governo Getúlio Vargas viabilizando vistos para refugiados judeus do nazismo", comenta o historiador Reuven Faingold, PhD em História do Povo Judeu pela Universidade Hebraica de Jerusalém e diretor educacional do Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto em São Paulo. "Sabemos que são poucos os brasileiros que afrontaram com tanta determinação e coragem a política acentuadamente antissemita disseminada pelo governo Vargas."

"Anjo de Hamburgo"

Apelidada de O Anjo de Hamburgo, Aracy foi reconhecida em vida pelo Yad Vashem, o memorial do Holocausto em Israel. Em 8 de julho de 1982, teve seu nome incluído no Jardim dos Justos – honraria que coube a apenas mais um brasileiro, o diplomata Luiz Martins de Souza Dantas (1876-1954), que atuava na França durante a Segunda Guerra. Em 1993, ambos também foram lembrados pelo Memorial do Holocausto em Washington.

Passaporte

Segundo pesquisadora, Aracy omitia o carimbo da letra J, em vermelho, nos passaportes, usada para identificar judeus

Nesta quarta-feira (11/12), Aracy ganha mais uma homenagem: ela passa a estampar um selo dos Correios. É a sexta personalidade da série Mulheres Brasileiras que Fizeram História, que já homenageou, entre outras, a farmacêutica e ativista Maria da Penha e a escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977).

"É uma homenagem absolutamente merecida. Aqueles que salvam vidas de inocentes merecem ser reverenciados e divulgados", afirma o rabino David Weitman. "A história não pode esquecê-los."

Tucci carneiro acredita que a iniciativa dos Correios ajudará a tornar a história dela mais conhecida. "Coloca em circulação informações históricas até então restritas a um público menor", avalia.

"Serve também de estímulo ao ato de narrar a ser assumido pelos sobreviventes salvos por Aracy, ou seus familiares, que até então não deram o seu testemunho. O selo é também um ato pedagógico que ensina, através da imagem de Aracy, sobre a importância dos atos de solidariedade em tempos sombrios."

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