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PolíticaArgentina

A arriscada aposta da Argentina na vacina russa contra covid

Oliver Pieper | Mikhail Bushuev
29 de janeiro de 2021

País sul-americano apoia campanha de vacinação quase que exclusivamente no imunizante Sputnik V. Estratégia, porém, gera críticas e apreensões que vão além de questões saúde.

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Presidente argentino, Alberto Fernández, recebe vacina contra covid-19
Presidente Alberto Fernández foi primeiro líder latino-americano a se vacinar contra covid-19Foto: The press service of the President of Argentina/dpa/picture alliance

O Airbus 330 von Aerolineas Argentinas que no Natal aterrissou no Aeroporto Ezeiza, de Buenos Aires, não era um voo como outro qualquer. Dezenas de equipes de televisão transmitiam ao vivo. Aeromoças estavam em prantos de tanta emoção.

Todos os 20 pilotos, copilotos e técnicos da tripulação portavam, orgulhosos, máscaras protetoras azul-escuro com o nome do projeto que desperta esperança em muitos argentinos e desconfiança em alguns: "Operação Moscou, dezembro 2020".

A bordo encontravam-se 300 mil doses da vacina russa Sputnik V, outras 300 mil chegaram duas semanas mais tarde, e nesta quinta-feira (28/01) aterrissou o terceiro avião com 220 mil doses. Depois da própria Rússia, a Argentina é segundo maior país a apostar, até o fim de março, todas as suas cartas no imunizante russo.

Trata-se da vacina que, apesar de numerosos cientistas terem lhe atestado alto grau de eficácia, não passou pela importante e final terceira fase de testes clínicos. Mas, o que restava ao país?

Xepa do supermercado das vacinas?

A situação argentina é análoga à da maioria das nações do Sul global: no supermercado internacional das vacinas, os países ricos, como Estados Unidos, Israel ou os europeus, esvaziaram as prateleiras do alto onde estavam os produtos da BioNtech-Pfizer e Moderna.

A Argentina só podia ficar olhando de mãos abanando os fura-filas endinheirados, e agora tem que se contentar com a prateleira de baixo, onde, com intenções não totalmente altruístas, a Rússia e a China colocaram seus presumíveis artigos classe B.

"A Sputnik V é uma vacina com efeitos colaterais que não constam da bula", afirma Josefina Edelstein, jornalista e uma das principais peritas em saúde do país sul-americano. "E não estou me referindo aos efeitos colaterais clínicos, mas aos políticos, também geopolíticos, e às controvérsias sociais que essa vacina desencadeia."

Uma semana atrás, o presidente argentino Alberto Fernández foi o primeiro chefe de Estado latino-americano a se vacinar contra o vírus Sars-Cov-2. Depois da injeção, ele brincou que estava com vontade de tomar uma vodca e perguntou à enfermeira se era um efeito colateral.

Polindo a imagem internacional de Moscou

A oposição, que já há meses critica o líder esquerdista por sua gestão da crise sanitária, no entanto, teme um outro efeito: a Argentina ficar dependente de um autocrata como Vladimir Putin.

De fato, para a Rússia, a Sputnik V é mais do que uma vacina. Afinal, apesar do estranho fato de que até agora ele próprio não se submeteu à vacinação, Putin trata a publicidade do imunizante como assunto de chefia.

Com o nome "Sputnik", o país associa verbalmente a droga às últimas grandes conquistas da ciência da União Soviética, no século 20. Com esse novo produto medicinal, Moscou quer polir sua imagem arranhada pelos episódios envolvendo a Síria, Ucrânia, ou o oposicionista Alexei Navalny. E retomar o lugar no mundo que o país considera ser o seu.

As ambições globais do Kremlin são razão de irritação na Argentina. "O governo municipal de Buenos Aires critica severamente a Sputnik V e se manifesta contra as vacinações", observa Edelstein. E isso significa confrontar a estratégia de vacinação do próprio presidente.

Para a Argentina – mesmo antes do coronavírus, um dos países mais nervosos do mundo, devido a décadas de crises econômicas – a vacina não oferece nenhuma proteção contra os violentos choques políticos entre o governo e a oposição.

Não era melhor ter um plano B?

"A Argentina não tinha de nenhuma estratégia eficiente para se abastecer com diferentes imunizantes; as doses da AstraZeneca só vêm em março", explica o cientista político e consultor de empresas Sergio Berensztein. 

As negociações com a Pfizer teriam fracassado por o país se recusar aceitar as cláusulas referentes às responsabilidades contratuais. "E no entanto estávamos entre os países da terceira fase de testes da Pfizer. Muitos cidadãos participaram e todos pensavam que o contrato agora fosse só uma questão de formalidade. Mas a Argentina não recebeu uma única dose de vacina."

Mesmo que o governo argentino tenha pouca culpa pelo fracasso das negociações com a gigante farmacêutica americana, Berensztein critica duramente o presidente Fernández. "A comunicação do governo sobre a vacinação foi simplesmente deficiente."

Promessas não cumpridas

O governo federal argentino cometeu o mesmo erro que outros Estados: fazer promessas impossíveis de cumprir posteriormente. Sobretudo no tocante às datas de vacinação, Fernández e seu ministro da Saúde, Ginés González García, tiveram que retroceder várias vezes.

Atualmente, Berensztein não crê mais que ainda vá haver vacinações no ano corrente. "A verdade é que seria muito esquisito e difícil de explicar se um governo argentino fizesse um bom trabalho justamente na crise do coronavírus", opina o cientista político. "Todos os governos daqui se destacam por sempre fracassar, mesmo nas coisas mais simples, como, por exemplo, finalmente reduzir a inflação. Por que ele deveria fazer boa política justo num tema tão complexo?"

Aliás, em vez de 220 mil doses, a aeronave de Moscou que pousou nesta quinta-feira em Buenos Aires deveria ter transportado 600 mil. E as autoridades russas antecipam que, devido à grande demanda e aos gargalos de fornecimento, haverá atrasos de até três semanas nos próximos lotes de vacinas para a América Latina.