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Volta do J.P. Morgan "garante confiança ao mercado angolano"

28 de outubro de 2025

Maior banco do mundo, J.P. Morgan, vai voltar ao mercado angolano após quase dez anos. Segundo economista, reaproximação com instituição financeira norte-americana deve atrair atenção de investidores internacionais.

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JP Morgan
Angola não tinha relações diretas de contas correspondentes bancárias entre bancos dos Estados Unidos e instituições financeiras angolanas desde 2016 Foto: Emmanuel Dunand/AFP/GettyImages

O Standard Bank de Angola obteve aprovação para abrir uma conta correspondente com o J.P. Morgan, em dólares e em euros, marcando o regresso de bancos norte-americanos ao sistema financeiro angolano. Segundo o banco angolano, o processo foi finalizado este mês, depois de uma análise "rigorosa e detalhada de 'due diligence", iniciada em 2023, com o objetivo de reabrir uma relação direta de correspondência com bancos norte-americanos.

Angola não tinha relações diretas de contas correspondentes bancárias entre bancos dos Estados Unidos e instituições financeiras angolanas desde 2016. Nesse ano, grandes bancos norte-americanos, como o Citibank e o próprio J.P. Morgan, encerraram as suas contas correspondentes com bancos angolanos devido a preocupações com riscos de branqueamento de capitais, corrupção e falta  de transparência no setor financeiro.

Como resultado, Angola perdeu o acesso direto a dólares, forçando o Banco Nacional de Angola (BNA) a realizar leilões de divisas e a limitar as transações em moeda norte-americana, o que agravou a crise cambial já marcada pela escassez de divisas e depreciação do Kwanza. Desde então, os bancos angolanos têm recorrido a instituições correspondentes sediadas na Europa, África e Ásia como alternativa.

Em entrevista à DW, o economista Wilson Chimoco explica que a reaproximação com a instituição norte-americana irá facilitar e conferir celeridade à execução de operações em rede estrangeira, e pode também "transformar Angola na porta de entrada para o desenvolvimento em África".

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DW África: O que mudou no sistema financeiro e regulatório angolano desde 2016 para que o J.P. Morgan voltasse a confiar no mercado e reabrir uma conta correspondente com o Standard Bank?

Wilson Chimoco: Este regresso do J.P. Morgan a Angola pode ser explicado por pelo menos três grandes eventos. O primeiro tem a ver com a solicitação de equivalência bancária por parte do Banco Nacional da Angola (BNA), que é o regulador do sistema financeiro em Angola, junto da União Europeia (UE). Esta decisão tem vindo a contribuir para a definição e introdução de medidas muito mais robustas e rigorosas naquilo que é a gestão prudencial das instituições bancárias em Angola. Fundamentalmente, com questões de abrigamento de capitais, com maior transparência e maior rigor no reporte das atividades que eles desenvolvem em Angola.

O segundo fator está relacionado com a definição de duas grandes leis. Quando o  Fundo Monetário Internacional (FMI) veio à Angola, entre 2018 e 2021, foram aprovadas as duas grandes leis. A lei contra o financiamento do terrorismo e do branqueamento de capitais, e a lei das pessoas politicamente expostas. Estas duas leis têm vindo a contribuir então para uma maior capacidade dos bancos comerciais em identificarem potenciais operações suspeitas que estejam relacionadas com atividades ilícitas e facilmente são reportadas junto do Banco Nacional Angola, que também tem vindo a fazer um esforço na divulgação destas mesmas operações.

A terceira grande razão, penso que é a posição agora de maior exposição do Corredor do Lobito,que tem atraído a atenção de vários investidores internacionais - e os próprios Estados Unidos da América estão entre os grandes players que estão interessados.

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DW África: Que impacto concreto essa reaproximação com bancos norte-americanos pode ter?

WC: No mercado cambial, penso que esta reaproximação vai, primeiro, permitir que os bancos comerciais tenham agora a oportunidade de executar operações em rede estrangeira com maior facilidade e em dólares particularmente. Até então, com o afastamento que se assistiu, boa parte das operações, mesmo em dólares, eram liquidadas em euros. Tínhamos aqui a correspondência bancária junto do mercado europeu, mas não com o mercado norte-americano. Isto claramente vai garantir uma maior confiança no mercado bancário angolano, mas também vai dar uma maior celeridade na execução destas mesmas operações.

DW África: Como esta parceria pode redefinir o papel de Angola nas redes financeiras regionais e globais, num contexto de crescente interesse internacional pelo mercado africano?

WC:  Penso que a decisão de J.P. Morgan em regressar a Angola vai certamente despertar a atenção de um conjunto de investidores internacionais que terão cuidado de analisar com maior profundidade aquilo que são as potencialidades para o desenvolvimento do sistema financeiro angolano de uma forma particular, e da África de uma forma geral.Isso porque temos assistido com alguma expectativa ao desenvolvimento do Corredor do Lobito, temos assistido à implementação da Zona de Livre Comércio em África. Essas são oportunidades que, se mais bem aproveitadas, e com um maior aporte financeiro e regulamentar de operadores internacionais, poderão então transformar a Angola numa porta aberta de entrada para África e para o desenvolvimento. E também, claro, de economias mais para dentro do continente.

DW África: Quais são os riscos e desafios que persistem para garantir a sustentabilidade desta relação, considerando o histórico de corrupção e a falta de transparência no setor bancário angolano?

WC:  Garantir-se uma sustentabilidade nesta relação exige, da parte de Angola, a implementação de cada vez mais medidas muito robustas de identificação e prevenção de práticas de corrupção e branqueamento de capitais, de financiamento ao terrorismo. Tem-se assistido a um esforço muito considerável - tanto da autoridade financeira do país, refiro-me ao Banco Nacional de Angola, à Comissão de Mercado de Capitais e à Agência de Seguros de Angola - para definir-se um conjunto de medidas que facilmente consigam detectar e prevenir atividades poucos lícitas.

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Tainã Mansani Jornalista multimédia