Somália e Arábia Saudita reforçam cooperação militar
17 de fevereiro de 2026
A Somália acaba de anunciar um novo capítulo na cooperação militar com a Arábia Saudita. Para tal, os dois países assinaram um acordo que apesar dos detalhes não terem sido revelados, reforça a presença saudita no Corno de África e surge num momento de forte competição entre as potências do Golfo pela influência na região.
O documento foi assinado em Riade pelo ministro da Defesa da Somália, Ahmed Moallim Fiqi e príncipe saudita Khalid Bin Salman. Na rede social X o dirigente somali destacou que o acordo para além da componente militar também abrange várias áreas de interesse comum”.
O acordo surge apenas semanas depois de Israelter anunciado que pretende reconhecer Somalilândia - região separatista do norte, como Estado independente, algo que Mogadíscio rejeita firmemente, considerando tratar‑se de uma ingerência nos seus assuntos internos.
A Somália também já tinha assinado outro pacto de defesa com o Qatar. Objetivo: reforçar a cooperação militar e a formar tropas somalis.
Países do Golfo disputam influência
O acordo com a Arábia Saudita beneficia ambos os lados, diz o analista e antigo editor da BBC Somali Abdullahi Abdi Sheikh. "Para a Arábia Saudita, significa expandir a sua influência até ao Golfo de Áden e à zona do Bab-el-Mandeb, crucial para o comércio mundial. Pelo menos 10% da navegação global passa por ali", explica.
Assim, de acordo com o analista, Riade tenta ampliar a sua presença na Somália, enquanto Mogadíscio procura novas alianças após relações tensas com os Emirados Árabes Unidos.
Nos últimos anos, os Emirados têm vindo a aumentar a sua projeção no Corno de África, através de investimentos bilionários em apoio militar discret, intensificando a rivalidade com a Arábia Saudita pela influência no Mar Vermelho.
Num comentário à agência Reuters durante a cimeira da União Africana (UA), um diplomata africano afirmou que "a Arábia Saudita percebeu que pode estar a perder o Mar Vermelho."
Mas, segundo Abdi Sheikh, o acordo militar também reforça a capacidade da Somália em garantir a sua segurança marítima e combater o terrorismo. "Ajuda a reduzir a influência de países vistos como próximos do reconhecimento israelita da Somalilândia", acrescenta.
Otimismo cauteloso
Mogadíscio acusa os Emirados Árabes Unidos de terem facilitado a iniciativa de Israel e, em janeiro, anulou todos os acordos com Abu Dhabi, incluindo concessões portuárias e parcerias na área da defesa.
O analista descreve o acordo com Riade como "um movimento estratégico contra Israel e os seus aliados." O Presidente somali, Hassan Sheikh Mohamud, já declarou que "nunca permitirá a instalação de uma base israelita na Somalilândia" e prometeu "confrontar" qualquer tentativa nesse sentido.
Já o especialista em segurança Hassan Hilowle Abukar vê o pacto com a Arábia Saudita como uma oportunidade para fortalecer as forças armadas somalis, após décadas de instabilidade e ataques do grupo Al-Shabab. "Há muitos benefícios neste acordo que nos permitirão enfrentar estas e outras questões relacionadas à nossa segurança", disse.
De Mogadíscio chegam também reações positivas da sociedade civil. Mohamed Abdullahi, residente na capital, diz que o acordo chega num momento crítico. "É uma ajuda militar importante e um apoio político vital, sobretudo agora que a nossa soberania está a ser posta à prova após a decisão de Israel sobre a Somalilândia", conclui.