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PolíticaReino Unido

Como lidar com os oligarcas russos?

Barbara Wesel
15 de fevereiro de 2022

O Reino Unido anunciou sanções contra a Rússia, caso Vladimir Putin avance com uma invasão à Ucrânia. Ao mesmo tempo, os laços monetários entre Londres e Moscovo puxam na direção contrária.

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Foto: Alexey Filippov/picture-alliance/dpa

Se o Presidente Vladimir Putin decidir invadir a Ucrânia, os oligarcas russos "não terão sítio onde se esconder", afirmou a ministra britânica dos Negócios Estrangeiros, Liz Truss, no início do mês.

Truss acrescentou que o Kremlin pagaria um "preço pesado" por uma invasão. O primeiro-ministro Boris Johnson requereu novos poderes para sancionar indivíduos e entidades ligadas ao Kremlin.

Ainda assim, durante anos, os críticos não conseguiram afastar os investidores russos e aliados de Putin da capital britânica. Londres é até apelidada de "Londresgrado", um centro financeiro onde, há muito tempo, os oligarcas russos investem milhares de milhões de libras.

"Ouro de Moscovo"

Um relatório de 2018 da Comissão Especial de Assuntos Externos acerca do dinheiro de oligarcas russos foi prontamente intitulado de "Ouro de Moscovo. Corrupção russa no Reino Unido".

No documento chega-se à conclusão de que, se o Governo ignorar o "papel de Londres na ocultação dos lucros da corrupção ligada ao Kremlin, estará a sinalizar que o Reino Unido não pretende confrontar seriamente o alcance das medidas ofensivas do Presidente Putin".

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"Temos de abordar novamente a questão do dinheiro sujo no Reino Unido", afirmou o presidente da comissão e deputado conservador Tom Tugendhat numa entrevista ao jornal Guardian, em janeiro.

Tugendhat quer voltar a colocar o assunto na agenda da Câmara dos Comuns para denunciar a inação do Governo. Numa entrevista à BBC, o deputado salientou que "o Reino Unido tem a responsabilidade de agir devido ao papel global de Londres no branqueamento de capitais".

Os comentários não agradaram aos colegas de Tugendhat do Partido Conservador. Desde que Boris Johnson tomou posse, em 2019, os conservadores receberam cerca de 2,7 milhões de dólares de doadores russos, segundo dados oficiais.

Alterações à legislação, que teriam permitido uma maior transparência nas compras imobiliárias a fim de dificultar a lavagem de dinheiro, estão congeladas há vários anos.

Ukraine-Konflikt | Russische Militärübung in Gozhsky
O Ocidente está preocupado com uma possível invasão da UcrâniaFoto: BelTA/AP/dpa/picture alliance

A organização anticorrupção Transparência Internacional estima que 2 mil milhões de dólares em bens imóveis terão sido financiados com dinheiro russo duvidoso.

Ben Judah, jornalista que trabalhou no documentário "From Russia With Cash", diz que "é fácil branquear capitais em Londres", e as elites britânicas têm fechado os olhos à corrupção. O documentário mostra como corretores sem escrúpulos compraram propriedades em Londres no valor de milhões, com dinheiro suspeito.

Dois oligarcas influentes

Roman Abramovich usou algum do seu dinheiro para comprar o Chelsea, em 2003, que lhe deu acesso direto à classe alta britânica. Alexander Lebedev, bilionário e ex-agente do KGB, comprou o jornal Evening Standard em 2009 por razões semelhantes.

Os oligarcas russos dão emprego a exércitos de advogados, consultores de relações públicas e pessoal doméstico, enviam os seus filhos para escolas britânicas e divorciam-se nos tribunais britânicos. Pertencem à classe dos super ricos de Londres, que vão às corridas de cavalos de Ascot e participam em eventos de beneficência na capital.

Evgeny Lebedev | russich-britischer Geschäftsmann
Evgeny Lebedev, agora um cidadão britânico, tem amigos na realeza e na políticaFoto: Arthur Edwards/Getty Images

Abramovich foi um dos poucos russos penalizados em 2018 após o ataque com novichok a Sergei Skripal, um antigo espião russo, e à sua filha. Depois do visto britânico de Abramovich ter expirado, não lhe foi imediatamente emitido um novo. Adotou a cidadania israelita e, desde então, tem podido circular livremente no Ocidente.

Mais tarde, travou a construção de um novo estádio para o Chelsea, com o clube a mencionar um "clima de investimento desfavorável".

Enquanto os decisores políticos ocidentais "se concentram numa possível invasão russa da Ucrânia, estão a fechar os olhos a outra invasão: a captura das elites europeias", escreveu Tugendhat num artigo recente para o centro de pesquisa Atlantic Council.

O deputado diz que a influência do Kremlin é visível em todo o lado, citando o caso do antigo primeiro-ministro francês François Fillon, que entrou no conselho de administração da companhia petrolífera estatal russa Zarubezhneft, em junho.

Situações semelhantes incluem a da ex-ministra austríaca dos Negócios Estrangeiros Karin Kneissl, que foi nomeada para o conselho de administração da poderosa petrolífera estatal Rosneft, um conselho de administração presidido pelo antigo chanceler alemão Gerhard Schröder. Isto sem contar com o antigo chanceler austríaco Christian Kern, que faz parte do conselho de supervisão dos caminhos-de-ferro russos.

"Os seus papéis realçam a ameaça sistémica para a Europa", afirmou Tugendhat.

O desafio de afastar os oligarcas

Um relatório para a organização norte-americana "Center for American Progress", próxima da administração de Biden, apelou à criação de um "grupo de trabalho EUA-Reino Unido contra a cleptocracia, para desencadear ações mais fortes por parte do Governo britânico".

No entanto, o estudo advertiu que "desenraizar os oligarcas ligados ao Kremlin será um desafio dada a estreita ligação entre o dinheiro russo e o Partido Conservador do Reino Unido, a imprensa, e a sua indústria imobiliária e financeira". 

A análise reflete a frustração que se sente em Washington por Londres não estar a fazer mais para combater o branqueamento de capitais.

Tensão na Ucrânia: O "jogo de xadrez" de Putin

Numa entrevista à Times Radio, na semana passada, a ministra britânica dos Negócios Estrangeiros anunciou novas leis contra os fluxos de dinheiro russo, com o objetivo de facilitar o congelamento de bens. De imediato, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, alertou que tais medidas prejudicariam o clima de investimento no Reino Unido.

Bill Browder, um antigo financiador anglo-americano, tem exposto a corrupção de alto nível na Rússia. Na sequência do seu trabalho, vários Estados ocidentais adoptaram legislação para confiscar dinheiro associado a violações dos direitos humanos e corrupção estatal.

"O calcanhar de Aquiles do regime de Putin é ir atrás dos oligarcas no Reino Unido que têm ligações ao Presidente russo, confiscando os seus bens", diz.

Segundo Browder, há cerca de 800 mil milhões de dólares de bens russos, garantidos pelo Estado, fora da Rússia, que podem ser alvo de sanções.

Citando um relatório sobre inteligência e segurança em 2020, a deputada liberal democrata britânica Layla Moran, disse que muitos cidadãos russos com ligações próximas a Putin "estão bem integrados no panorama empresarial e social do Reino Unido".

"Até o Governo agir nesta frente, a nossa resposta à agressão russa contra a Ucrânia continuará a não ser eficaz", afirmou.

Este artigo foi traduzido originalmente do alemão.

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