Rafael Marques: ″É o fim político de uma família que tanto mal causou a Angola″ | Angola | DW | 20.01.2020
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Angola

Rafael Marques: "É o fim político de uma família que tanto mal causou a Angola"

Em reação ao "Luanda Leaks", jornalista Rafael Marques pede cooperação internacional para recuperar "bens saqueados" de Angola e diz que, além de Isabel dos Santos, os que a ajudaram também devem ser responsabilizados.

Rafael Marques, o jornalista angolano que mais investigou e denunciou os esquemas de corrupção da família dos Santos, falou à DW África depois da complexa teia de negócios e suspeitas de esquemas de corrupção que envolvem a empresária angolana terem sido reveladas na investigação jornalística "Luanda Leaks" - um trabalho levado a cabo pelo Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação (ICIJ), que integra órgãos de comunicação social de todo o mundo.

Na entrevista, Rafael Marques de Morais pede ainda cooperação internacional para que Angola possa recuperar "parte dos bens que foram saqueados do país" e diz que se está a assistir à queda de um império e ao fim político da família de Isabel dos Santos, que desafia a regressar a Angola para enfrentar a justiça.

DW África: Imagino que esta é uma notícia que esperava há anos?

Rafael Marques de Morais (RMM): É uma notícia que efetivamente esperava há anos, mas que também me deixa triste. Deixa-me triste porque só quando os estrangeiros falam é que os próprios concidadãos ouvem, é que o mundo [ouve]. Enquanto jornalista angolano, muitos destes factos que estão a ser revelados nestes documentos já foram por mim revelados, mas ninguém prestava atenção porque se tratava de um jornalista africano. Só quando os jornalistas europeus e americanos pegaram no assunto é que o assunto tornou-se sério o suficiente para que certos governos e a sociedade de muitos países começassem a prestar atenção. Mas é importante. Mais uma vez, nós próprios, angolanos e africanos de um modo geral, continuamos a ter esta incapacidade crónica de reagirmos ao sentido crítico dos nossos próprios concidadãos, para que possamos olhar para as nossas sociedades e trabalhar de forma solidária para o bem comum.

Kombobild Isabel dos Santos und Sindika Dokolo

Isabel dos Santos e Sindika Dokolo

DW África: Depois de todos estes documentos e provas que revelam indícios de atividade criminal de Isabel dos Santos e da sua família terem vindo a público, a Procuradoria-Geral da República (PGR) de Angola, mas também a PGR em Portugal, já não têm desculpas para não agirem neste caso?

RM: A Procuradoria-Geral de Portugal já não tem desculpas, o Banco de Portugal já não tem desculpas porque já não há "irritantes políticos", como diria o primeiro-ministro António Costa. É do interesse geral, é do interesse internacional, universal, que haja procedimentos criminais por todas essas revelações feitas sobre a forma como Isabel dos Santos saqueou Angola - em conluio e com a participação ativa de vários gestores portugueses, de vários advogados portugueses e outras figuras da sociedade portuguesa que a ajudaram a branquear capitais e a sua imagem enquanto desgraçava o povo angolano.

DW África: Portanto, estas investigações não devem ser dirigidas unicamente a Isabel dos Santos, mas também a bancos, empresas e indivíduos estrangeiros, ou seja, todos os que ajudaram nestes esquemas?

RM: Com certeza. E também os próprios cidadãos angolanos que facilitaram estes esquemas. Por exemplo, nada destes esquemas teria sido possível sem a total colaboração do Banco Nacional de Angola. E nessa altura, quem respondia pelo Banco Nacional de Angola como governador é o atual governador José de Lima Massano,  o indivíduo que mais facilitou essas saídas. E o outro, o ex-governador [que esteve no cargo] até 2017 e que facilitou as últimas transferências de Isabel dos Santos, Valter Filipe, já está a ser julgado por um outro crime envolvendo o irmão de Isabel dos Santos. De modo que é fundamental para que Angola efetivamente consiga recuperar parte dos bens que foram saqueados do país, que haja colaboração internacional e que Portugal, que serviu durante esses anos todos de principal lavandaria para Angola, possa então finalmente investigar Isabel dos Santos. Porque, até então, investigavam todas as outras figuras, exceto Isabel dos Santos.

Ouvir o áudio 05:55

Rafael Marques: "É o fim político de uma família que tanto mal causou a Angola"

DW África: Isabel dos Santos está a perder o estatuto de "intocável" em Portugal. Há portas que estão a fechar-se para ela, para o seu marido [o empresário congolês Sindika Dokolo]. O nome de Isabel dos Santos já foi riscado do Fórum Mundial de Davos, que começa esta semana, grandes bancos estão a esquivar-se de relações económicas com ela e com o marido. Estamos a assistir ao fim de um império?

RM: Inevitavelmente é o fim de um império e o fim político de uma família que tanto mal causou a Angola e aos angolanos por causa da sua ganância desmedida.

DW África: Isabel dos Santos já se está a defender: está a dizer que é uma perseguição, fala em racismo... Na sua opinião, o que é que ela devia fazer? Regressar a Angola e enfrentar as acusações?

RM: Quando Isabel dos Santos trouxe para Angola batalhões de consultores portugueses para ajudarem a saquear o país, ela não se lembrou que esses indivíduos eram brancos. Só se lembrou da cor desses indivíduos agora. Quem trouxe os estrangeiros para Angola para ajudarem a família dos Santos a roubar, foi a própria família dos Santos. Hoje já é racismo. E é tão contraditória e tão mentirosa: ainda há dias dizia que o grande problema é que estava a ser perseguida politicamente por João Lourenço. Agora já é o racismo da Europa e dos Estados Unidos. Estão a acabar as suas desculpas.

Ela deve regressar a Angola e fazer aquilo que ela deva ter feito há muito tempo e já vai tarde: pedir perdão ao povo angolano e sujeitar-se à Justiça, como fazem todos os outros cidadãos. Ela pensou que estaria segura na Europa e que continuaria a contar com o seu estatuto de "intocável" e hoje está a ver que é o contrário por ser mais respeitada e melhor tratada em Angola do que nesses países onde começam a desprezá-la, porque as pessoas já não querem ser associadas com a corrupção e porque também já comeram o suficiente e hoje podem descartar Isabel dos Santos remetendo-a aos órgãos judiciais.

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