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Nuno Nabiam desiste da corrida presidencial e apoia Sissoco?

8 de outubro de 2025

Nuno Nabiam desiste da corrida presidencial e apoia Embaló. Analista Bacar Camará critica a viragem e alerta para incoerência política e impacto negativo junto do eleitorado guineense. Bacar nota uma ambição pessoal.

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Guiné-Bissau | Nuno Gomes Nabiam, presidente da APU-PDGB
Nabiam desiste da presidência: estratégia ou incoerência?Foto: Iancuba Dansó/DW

O antigo primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Nuno Gomes Nabiam, surpreendeu ao anunciar a desistência da candidatura à Presidência da República e o alegado apoio à recandidatura de Umaro Sissoco Embaló, após ter sido um dos seus principais críticos.

O analista político Bacar Camará considera esta mudança uma estratégia de sobrevivência política, típica de um sistema marcado por interesses pessoais e alianças voláteis. Mané alerta para a incoerência de Nabiam e acredita que esta decisão poderá comprometer definitivamente a sua carreira política.

Apesar disso, admite que o apoio poderá ter algum impacto junto do eleitorado, ainda influenciado por fatores étnicos e religiosos na democracia guineense.

DW África: Temos conhecimento de que Nuno Gomes Nabiam, até aqui, foi uma das vozes mais críticas contra o regime de Umaro Sissoco Embaló, desistiu de concorrer à Presidência da República para alegadamente apoiar a candidatura de Sissoco? Como é que podemos enquadrar esta decisão de Nabiam?

Bacar Camará (BC): Não estou surpreendido. Aliás, quem conhece a realidade política guineense não deve ficar surpreendido. Quando os partidos deixam de ser portadores de ideologias consistentes e passam a ser meros instrumentos de ambição pessoal, a mudança de campo deixa de representar uma rutura ideológica e passa a ser uma simples estratégia de carreira.

O cenário político da Guiné-Bissau é frequentemente marcado por este fenómeno, que nós chamamos de migração partidária. É lamentável ver figuras proeminentes que, outrora, defendiam determinados valores e princípios ideológicos, abraçarem a corrente oposta com toda a naturalidade.

Recentemente, essas mesmas figuras opuseram-se fortemente ao regime, com acusações gravíssimas, e agora mudam de camisola. Do meu ponto de vista, trata-se de uma incoerência tremenda, gritante, que revela falta de convicção política. Por outro lado, mostra também a incapacidade dessas figuras de apresentarem estratégias de sobrevivência política ou projetos credíveis para o país.

DW África: E como é que o povo deve interpretar esta mudança? Como enquadrar as denúncias graves que Nabiam fez recentemente contra o próprio Sissoco Embaló?

Bildkombo | Nuno Gomes Nabiam e Umaro Sissoco Embalo
Viragem política de Nabiam: Apoio a Embaló gera críticas e dúvidas sobre coerênciaFoto: Ludovic Marin/AFP/Braima Darame/DW

BC: Espero que pague por isso. Acredito que o eleitorado vai repudiar estas figuras. Refiro-me concretamente ao Nuno Gomes, que tem demonstrado uma postura de incoerência gritante. Recentemente fez acusações graves contra Sissoco Embaló e agora anuncia apoio à sua recandidatura. Espero sinceramente que o eleitorado faça justiça.

Esta atitude revela claramente que Nuno está na política para resolver problemas pessoais, e não os do país. É esse o padrão dominante na política guineense: cada um joga com o seu interesse particular. Isso alimenta a instabilidade, fragiliza as instituições e cria um ambiente propício ao controlo de recursos por interesses privados.

A deslealdade política é crescente. Alianças são formadas e dissolvidas momentaneamente, com base em cálculos de poder, sobrevivência e, em alguns casos, na simples necessidade de garantir bens materiais. É isso que tem alimentado a nossa crise política.

DW África: Mas politicamente, este apoio é uma mais-valia para Embaló ou poderá condicionar o seu apoio junto do eleitorado? Terá algum impacto?

BC:Obviamente que terá algum impacto. Pode não ser significativo, porque o nosso eleitorado ainda tem dificuldades em interpretar a democracia na sua essência. Muitas vezes, fazem interpretações simplistas, baseadas em ligações étnicas ou religiosas. Este tipo de preconceito ainda prevalece na nossa democracia.

Nesse sentido, o apoio de Nabiam pode dar alguma vantagem ao Presidente Embaló. Mas, por outro lado, esta decisão poderá marcar o fim da carreira política de Nuno Gomes Nabiam.

Recordemos que, inicialmente, ele apoiou Embaló para tomar posse. Depois foi o primeiro-ministro com mais tempo em funções, foi demitido, revoltou-se contra Embaló e agora volta a apoiá-lo. Esta incoerência pode comprometer definitivamente a sua carreira política.

DW África: Acredita que esta decisão poderá ser o fim da carreira política de Nabiam?

BC: Espero que sim. Nuno Gomes teve oportunidades reais de chegar à Presidência, especialmente com o apoio de Kumba Ialá. Na altura, era uma oportunidade clara para se afirmar. Mas a incoerência que tem demonstrado ao longo da sua carreira foi penalizante. Nunca se conseguiu afirmar como um ator relevante na cena política guineense.

Por vezes, limitou-se a posicionar-se como um político venal, disponível para qualquer aliança. Lembro-me, por exemplo, quando decidiu apoiar Embaló para chegar ao poder, numa altura em que havia um contencioso judicial. Esteve ao lado de uma cambada, como se costuma dizer.

Perante esta nova situação, Nuno Gomes volta à chamada "via verde" da expressão política. Mas desta vez, considero que é ainda mais grave do que as atitudes anteriores. Espero que pague por isso, porque, apesar das limitações do eleitorado na interpretação da democracia, já se começa a perceber quem luta pelos interesses nacionais e quem apenas defende os seus próprios interesses.

Não vejo como é que Nuno Gomes poderá justificar esta decisão ao eleitorado. Muitas das acusações que hoje pendem sobre Embaló foram feitas por ele próprio. E depois de terminar o mandato como primeiro-ministro, tentou ligar-se a vários casos. Foi ele quem os denunciou.

"A independência só faz sentido se houver compromisso"

Braima Darame - Jornalista DW
Braima Darame Jornalista da DW África