Líbano: Acordo de paz EUA-Irão é vitória para Hezbollah?
20 de junho de 2026
Uma "grande vitória" e um "momento decisivo para o Líbano". Foi assim que Naim Kassem, líder do grupo libanês Hezbollah, descreveu na quarta-feira o memorando de entendimento que interrompeu os combates entre os EUA e o Irão esta semana.
Kassem também agradeceu aos iranianos por terem "incluído a frente libanesa" no acordo e por terem "forçado Israel a cessar a sua agressão".
O Hezbollah foi fundado em 1982 com apoio do Irão e um dos seus principais objetivos era pôr fim à ocupação israelita do sul do Líbano. O movimento possui uma ala militar e outra política e conta com o apoio de grande parte da comunidade muçulmana xiita do país. Atualmente, desempenha um papel importante na sociedade e na política libanesas, sendo frequentemente descrito como um "Estado dentro do Estado", mantendo-se firmemente opositor de Israel.
Desde os comentários de Kassem, os confrontos continuaram no sul do Líbano, com o Hezbollah a atacar soldados israelitas e Israel a prosseguir a destruição de aldeias e o uso de bombas e drones na região. Estava previsto que 60 dias de negociações entre os EUA e o Irão, durante os quais seriam definidos os detalhes do acordo, começassem na sexta-feira na Suíça. Contudo, as conversações foram adiadas na manhã desse dia devido à oposição iraniana à continuação dos combates no Líbano.
Apesar do início conturbado, analistas afirmam que o acordo atualmente em discussão favorece os aliados do Hezbollah em Teerão.
Quão "grande" é esta vitória para o Hezbollah?
"Este memorando de entendimento dá praticamente ao Irão tudo o que queria e a Trump tudo o que ele tinha antes de atacar o Irão, juntamente com Israel, em fevereiro", afirma James M. Dorsey, especialista da S. Rajaratnam School of International Studies. "E certamente, pelo menos numa fase inicial, parece uma vitória para o Hezbollah.”
Mas, segundo Dorsey, ainda está por ver se será realmente assim. O primeiro parágrafo do memorando estabelece que os EUA, o Irão e os seus aliados declararão o fim "imediato e permanente" das operações militares em "todas as frentes", incluindo o Líbano.
O acordo, assinado pelos EUA, pelo Irão e pelo Paquistão, que atuou como mediador, também determina que ambas as partes garantirão "a integridade territorial e a soberania" do Líbano.
Israel ocupa atualmente cerca de 600 quilómetros quadrados no sul do Líbano, justificando essa presença como uma "zona-tampão de segurança" necessária para proteger os habitantes do norte israelita dos foguetes do Hezbollah. Os críticos de Israel classificam a situação como uma invasão e ocupação.
"Os iranianos disseram, na prática, que isto significa duas coisas”, explica Dorsey. "Fim das operações militares e retirada israelita do Líbano. O verdadeiro teste da posição iraniana será saber se Israel será obrigado a respeitar essas condições e se Trump dirá a Israel: ‘Não têm alternativa'."
Caso Israel se retire, isso representaria um ganho importante para o Hezbollah. Muitas comunidades xiitas vivem no sul do Líbano e mais de um milhão de pessoas foram deslocadas pelas operações militares israelitas, que também destruíram aldeias inteiras.
Mais dinheiro para o Hezbollah
O memorando entre os EUA e o Irão também menciona milhares de milhões de dólares destinados à reconstrução iraniana, o descongelamento de fundos iranianos e a autorização para que Teerão continue a vender petróleo.
Diplomatas na região disseram à agência Reuters que, após o desbloqueio dos fundos, o Irão indicou que enviaria mais dinheiro ao Hezbollah.
"Se as receitas petrolíferas do Irão forem retomadas sem restrições sobre o seu destino, a pressão externa destinada a dificultar o financiamento do Hezbollah desaparece", escreveu esta semana o comentador libanês Karim Chebaklo, também membro da administração da autoridade portuária de Beirute.
O governo libanês tem procurado limitar o poder do Hezbollah e desarmá-lo para travar os bombardeamentos israelitas. A ala militar do grupo é amplamente considerada responsável por ter arrastado o Líbano para o conflito atual ao lançar foguetes contra Israel no início de março, após o assassínio do líder iraniano Ali Khamenei.
Segundo Chebaklo, uma das formas de pressão do governo sobre o Hezbollah resultava precisamente das dificuldades financeiras do Irão. Se Teerão recuperar capacidade económica e voltar a financiar o grupo, "a questão do desarmamento ficará ainda mais distante”.
Sem garantias
No entanto, nenhuma dessas possíveis "vitórias" está garantida pelo acordo entre os EUA e o Irão. Nem Israel nem o Hezbollah — as duas forças que combatem no Líbano —, nem o governo libanês, assinaram o memorando.
Para o governo libanês, o acordo cria a impressão de que o Irão, principal patrocinador do Hezbollah, está a determinar a política externa do país. No início deste ano, o Líbano iniciou conversações diretas com Israel sobre um acordo destinado a desarmar o Hezbollah, o que poderia facilitar a paz e uma retirada israelita. Foram os primeiros contactos diretos entre os dois países em mais de 30 anos. O Hezbollah opôs-se firmemente a essas negociações.
Para Israel, o acordo desta semana elimina uma oportunidade de continuar a enfraquecer militarmente o Hezbollah.
Logo após a divulgação dos detalhes do memorando, vários políticos israelitas afirmaram que as tropas não abandonariam o Líbano, apesar da crescente pressão dos EUA, principal aliado e fornecedor militar de Israel. Autoridades israelitas também disseram a jornalistas que estavam envolvidas em negociações tensas com Washington para manter a presença militar no território libanês.
Haverá cessar-fogo ou não?
"O Irão insiste que o Líbano faz parte do acordo e vimos duas vezes nas últimas semanas que, quando Teerão defendeu o Líbano, Trump respondeu agindo contra Israel", observa Dorsey. "E a verdade é que Israel não foi consultado nem esteve à mesa das negociações. Tudo isto faz de Netanyahu o derrotado da situação — embora isso dependa de como os acontecimentos evoluírem politicamente. O veredicto ainda não está dado."
Mais tarde, na sexta-feira, a Reuters noticiou que Hezbollah e Israel tinham concordado com um cessar-fogo a entrar em vigor nessa mesma tarde. Contudo, pouco depois do anúncio, foram registados novos ataques aéreos israelitas no sul do Líbano e um porta-voz militar afirmou que as forças israelitas mantinham "total liberdade operacional" no país.
Apesar das pesadas perdas em combatentes, equipamento e apoio político, o Hezbollah "pode ainda sair fortalecido desta guerra", explicou Anthony Samrani, diretor do jornal L'Orient-Le Jour.
"Imagine um cenário em que os EUA obrigam Israel a retirar-se do sul do Líbano como parte de um acordo final com o Irão. O Hezbollah afirmaria então que 'libertou' o sul e controlaria a sua reconstrução de acordo com os seus próprios interesses."
No entanto, conclui Samrani, o cenário mais provável é "um duplo fardo para o Líbano: uma ocupação israelita e um Hezbollah desafiante. O sul continuará a ser um território de guerra e sofrimento. E, se Beirute e Telavive chegarem eventualmente a um acordo, a principal questão passará a ser a disputa de poder entre o Estado libanês e a milícia do Hezbollah”.
Editado por: R. Casey.