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Africanos realojados: Entre a alegria e a desilusão

16 de janeiro de 2019

Depois de muitos anos de espera, começaram a ser realojados os primeiros moradores do degradado Bairro da Jamaica, no Seixal, sul de Portugal. Mas as novas casas, algumas em "péssimas condições", não agradam a todos.

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Fernando e Julieta Luvunga preparam-se para mudar de casa com os filhos e os netos Foto: DW/J. Carlos

Os primeiros 187 moradores do degradado bairro de Vale de Chícharos, conhecido por Bairro da Jamaica, na margem sul de Lisboa, já vivem em vários locais do concelho em 64 novas casas atribuídas pela Câmara Municipal do Seixal, fruto da parceria com a Santa Casa da Misericórdia e o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana.

Este é o início de um processo que decorrerá até 2022, visando o realojamento de 234 famílias recenseadas, constituídas na sua maioria por imigrantes oriundos dos países africanos de língua portuguesa, que ocuparam o bairro ilegalmente na década de 90.

João Domingos Francisco, conhecido por "tio João", está satisfeito com a nova casa de dois quartos, que partilha com a filha de 19 anos. "Se hoje me apareceu esta oportunidade, tenho de a agarrar", conta o imigrante angolano, que viveu mais de 20 anos em condições precárias no Bairro da Jamaica.

Africanos realojados: Entre a alegria e a desilusão

João Francisco acredita que, com a nova casa, o seu estilo de vida vai melhorar bastante. Ele faz parte das primeiras famílias do lote 10, no bairro de Vale de Chícharos, que receberam casa nova. O ato simbólico de entrega das chaves foi a 21 de dezembro e contou com a presença do primeiro-ministro português, António Costa.

O objetivo é a integração destas famílias na malha urbana do concelho, evitando a criação de novos bairros sociais, reafirmou o presidente da Câmara Municipal do Seixal, Joaquim Santos. "Estamos já a trabalhar para apresentar uma nova proposta ao Governo para outro núcleo com dimensão no concelho, que é Santa Marta de Corroios, com cerca de 150 famílias", revelou.

Muitas reclamações

Esta primeira fase de realojamento "correu muito bem", diz Dirce Noronha, da comissão de moradores. Mas têm surgido muitas reclamações devido às condições de algumas casas, apesar disso ter sido antes ponderado com os responsáveis da autarquia.

"Há casas mesmo em péssimas condições. Uma vez que não sabiam para onde é que iam antes, não tinham visto a casa, as pessoas ficaram um bocadinho surpreendidas com as muitas casas em péssimas condições, com problemas de humidade, com móveis degradados", conta Dirce Noronha. "E há pessoas com problemas de locomoção, pessoas com problemas de saúde que estão nesses prédios que não ajudam muito", acrescenta.

Portugal Nachbarschaft "Jamaika" in Seixal
Clarinda Otília recebeu uma casa com problemas de humidadeFoto: DW/J. Carlos

Uma das descontentes é Clarinda Otília, que tem no seu agregado a mãe de mais de 80 anos de idade. Esta moradora, natural de São Tomé e Príncipe, tem sérios problemas de saúde e recebeu uma casa numa cave, com problemas de humidade.

"A casa não tem condições adequadas. Está tudo cheio de água a escorrer pela janela. E é um sítio muito isolado, que só dá tristeza", lamenta Clarinda Otília, que tem dormido em casa de uma amiga ou em casa da irmã. "Se dormir aqui, durmo no sofá. Aquilo não é quarto para ninguém", diz a inquilina, que pede à autarquia uma habitação mais digna.

Segundo a presidente da Associação para o Desenvolvimento Social de Vale de Chícharos (ADSVC), Dirce Noronha, os problemas foram apresentados por carta à Câmara Municipal do Seixal e serão analisados numa reunião, para corrigir e evitar, no futuro, as falhas ocorridas nesta primeira fase de realojamento. "A Câmara também falhou nesse sentido. Falhou a inspeção das casas antes de elas serem ocupadas pelas pessoas", critica.

Portugal Nachbarschaft "Jamaika" in Seixal
Processo de demolição teve início em dezembroFoto: DW/J. Carlos

"Lugar não chega para os filhos que tenho"

Enquanto decorre a demolição do lote 10, cujos trabalhos iniciados em dezembro de 2018 estão agora suspensos por ordem judicial, é com esperança que a família Coxi aguarda pela próxima ação de realojamento. Fernando e Julieta Luvunga, mais os filhos e netos, que ocupam um espaço no prédio 13, serão os próximos beneficiários.

"As casas serão compradas e com uma garantia que daqui a três meses poderemos ter uma casa condigna, da nossa preferência. Isso é que nós esperamos", afirma Fernando Luvunga. Um motivo de alegria também para a esposa. "Fico contente porque o sítio onde vivemos é muito apertado. A minha filha dorme com o miúdo no sofá. E o outro miúdo, que está fora, às vezes vem e fica também no outro sofá. O lugar não chega para estes filhos que eu tenho."

Agora, a família Coxi tem a certeza que o Bairro da Jamaica, habitado na sua maioria por africanos, vai deixar de existir quando todos os moradores forem realojados até 2022, de acordo com as previsões.