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Policiais em confronto com manifestantes durante passeata em Kassel
Policiais em confronto com manifestantes durante passeata em KasselFoto: Swen Pförtner/dpa/picture alliance

"Pensadores laterais" da Alemanha: violência e negacionismo

27 de março de 2021

Protestos contra confinamento têm acabado em repetidos confrontos. Militantes do Querdenken prometem lealdade à Constituição e à paz, mas envolvimento com extremistas põe movimento sob a vigilância das autoridades.

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"Querdenken se despede da pausa de inverno", anunciou Michael Ballweg em uma mensagem de vídeo na internet no fim de janeiro. Na postagem, o fundador desse movimento contra a política estatal de restrições contra a pandemia convocava a um desfile de carros em Stuttgart.

Em 2020, a capital do estado de Baden-Württemberg era central do Querdenken ("pensamento lateral") na Alemanha. Desde então, já existem filiais regionais no norte, oeste e sul da república. As manifestações ocorrem por toda parte, mas as maiores passeatas foram no Leste: em Berlim e Leipzig.

Em ambas as vezes, os protestos terminaram em violência, tal como em meados de março em Dresden e uma semana depois em Kassel. Mas as imagens de manifestantes e policiais se espancando não se enquadram na imagem que os membros do Querdenken se atribuem.

Michael Ballweg e seus seguidores sempre enfatizam sua lealdade à Lei Fundamental alemã e à paz. Dançar e cantar faz parte do repertório padrão das manifestações. Mas essa é apenas uma faceta, pois extremistas de direita também são frequentadores assíduos das passeatas. E ninguém se importa.

"Não à ditadura do coronavírus", diz cartaz de militante negacionistaFoto: Sebastian Kahnert/dpa/picture alliance

Estratégia de manifestação

O especialista em democracia Reiner Becker, da Universidade de Marburg, reconhece nisso um padrão recorrente. "É decisão de cada indivíduo participar de uma manifestação", diz ele, colocando a responsabilidade nos indivíduos por suas ações. Além disso, essa é uma estratégia conhecida para sobrecarregar a polícia com a "massa" de manifestantes e descumprir as condições impostas pelos tribunais.

Foi exatamente isso o que aconteceu em 20 de março em Kassel, onde em vez dos 6 mil participantes permitidos, mais do triplo marchou pelas ruas. A maioria não manteve a distância mínima exigida de 1,5 metro, nem usou máscaras. Contramanifestantes também compareceram. À medida que a situação se tornou mais confusa e brutal, a polícia passou a empregar cassetetes, sprays de pimenta e canhões de água, alegando defesa própria. Contudo, fotos e vídeos divulgados na internet mostram policiais batendo em manifestantes.

Ainda assim, Christopher Vogel considera impróprias as críticas genéricas ao comportamento dos policiais. Ele trabalha na equipe móvel de aconselhamento contra racismo e extremismo de direita (MBT, na sigla em alemão) em Kassel, e observou a manifestação no local. As condições que presenciou no local eram "pouco costumeiras" para a polícia, afirma. Alguns manifestantes colocaram suas crianças "na primeira fila, quase como escudos de proteção". Mas também havia confrontos entre ativistas de direita e de esquerda e, em algum lugar entre uns e outros, estavam famílias.

Militante antivacina com criança em manifestação do movimento Querdenken
Militante antivacina com criança em manifestação do movimento QuerdenkenFoto: picture-alliance/dpa/C. Schmidt

"Liberdade do Estado"

Vogel lembra que a situação "não era tão clara em termos de aparência e comportamento dos participantes". A força motriz nesse caso era a iniciativa Cidadãos Livres de Kassel, grupo cuja aparência e retórica são inequivocamente baseadas no modelo Querdenken de Stuttgart. Era difícil para a polícia avaliar como agir, "então, a situação não era mais controlável", avalia Vogel.

Ele considera a substância do movimento "extremamente tênue". Em princípio, os membros do Querdenken estão preocupados apenas com sua liberdade individual. O movimento está pouco relacionado com quaisquer outras demandas sócio-políticas. "Eles só querem a volta à normalidade e serem deixados em paz pelo Estado", afirma Vogel, acrescentando que muitos devem dizer adeus ao engajamento político assim que o coronavírus desaparecer das primeiras páginas.

Essa avaliação confirma os resultados de um estudo publicado em dezembro pelo sociólogo Oliver Nachtwey, da Universidade de Basel. Ele e sua equipe indagaram mais de 1.100 membros do Querdenken sobre seus motivos e atitudes. Quase metade nunca  participara de uma manifestação antes dos protestos contra as restrições da pandemia. "Em termos de estrutura social, é um movimento relativamente velho e relativamente acadêmico", é uma das constatações.

Menos de 10% está abaixo dos 30 anos, a idade média é de quase 50. Quase dois terços dos entrevistados tem pelo menos nível médio completo, mais da metade concluiu a universidade, e 67% se considera de classe média.

Nas eleições federais de 2017, 23% deles votaram no Partido Verde, 18% optaram por A Esquerda e 15% votaram no partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD).

No entanto, isso foi muito antes da pandemia. Na próxima eleição federal, a AfD pode quase dobrar os votos entre os integrantes do Querdenken, até 27%. Enquanto os verdes acabam no nível dos conservadores (CDU / CSU), com 1%.

Bandeiras do Império Alemão em manifestação diante do Portão de Brandemburgo
Adeptos de teorias da conspiração e radicais de direita se unem em protesto negacionista em BerlimFoto: picture alliance / SULUPRESS.DE

"Governo esconde a verdade"

Quase 80% concorda com a afirmação de que "você não pode mais expressar sua opinião sem se meter em problemas". Cerca de 75% acredita que a mídia e os políticos estão em conluio e que o governo esconde a verdade.

O movimento Querdenken é caracterizado por forte aversão a instituições do sistema político, da mídia estabelecida e dos velhos partidos populares. Essa é uma constatação essencial do estudo. Outra constatação: seus seguidores não são "francamente xenófobos ou islamofóbicos" e, em alguns casos, "bastante antiautoritários e inclinados à antroposofia".

Essa autoavaliação parece se encaixar nas imagens de passeatas do movimento, com gente dançando, tocando tambores, cantando de um lado, e extremistas de direita com a bandeira do Reich e slogans antissemitas do outro.

Os limites entre a extrema esquerda e a extrema direita são claramente fluidos dentro do grupo. Até demais, na avaliação das autoridades de segurança do estado de Baden-Württemberg, que exercem vigilância oficialmente sobre o movimento desde dezembro, por suspeitas de extremismo e ameaça à ordem democrática. "Conspirações extremistas, ideológicas e conteúdo antissemita são deliberadamente misturados com críticas legítimas às medidas estatais para conter a pandemia de coronavírus", diz um comunicado oficial justificando a medida.

Marcel Fürstenau
Marcel Fürstenau Autor e repórter de política e história contemporânea, com foco na Alemanha.