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No topo do mundo

1 de maio de 2011

Estudo mostra que o real tem a maior valorização entre as principais moedas mundiais. Enquanto consumidor aproveita para viajar e comprar importados, setor produtivo lamenta perda de competitividade de seus produtos.

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Foto: Fotomontage/AP/DW

A moeda brasileira vive um momento único em sua história. De 2003 até janeiro deste ano, ela teve uma valorização de 45% sobre o dólar – a maior entre as principais moedas do mundo, segundo estudo feito pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI). Em segundo lugar estão o peso colombiano e o dólar australiano, ambos com 35% de valorização. O peso chileno, o franco suíço, o dólar canadense e o iene japonês empatam em terceiro, com 29% de ganho sobre a moeda norte-americana.

Outro levantamento, realizado pela Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), mostra que o poder de compra do real com relação ao dólar praticamente dobrou desde 1994, quando a atual moeda brasileira foi criada. À época, real e dólar tinham paridade cambial. Hoje, a cotação é de 1,57 real para cada dólar.

A supervalorização do real vem aquecendo o mercado de importados no Brasil e o turismo para o exterior. Com maior poder de compra, o brasileiro não tem resistido a passagens mais baratas e aos inúmeros pacotes lançados por agências de viagens. Apenas em março, segundo o Banco Central (BC), os gastos no exterior chegaram a 1 bilhão de dólares – valor 47,1% superior ao registrado no mesmo mês do ano passado.

A grande preocupação parte do setor produtivo nacional, que reclama da falta de competitividade de vários produtos dentro e fora do país. Entre as importações que registraram aumento está a de maquinários. Com o dólar em baixa, equipamentos de ponta vindos dos Estados Unidos e da Alemanha chegam com preços melhores que os produzidos no Brasil.

A indústria de transformação vem perdendo, com isso, espaço dentro de seu próprio território. O saldo comercial deste setor saiu de 30 bilhões de dólares positivos em 2005 para 35 bilhões de dólares negativos no ano passado.

"Temos registro de empresas que se transferiram para a China, Argentina, Uruguai, onde encontram ambiente econômico mais favorável", afirma José Augusto Fernandes, diretor-executivo da CNI.

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Real foi a moeda que mais ganhou valor diante do dólar, segundo a CNI

Estabilidade econômica

São muitas as razões que explicam a supervalorização do real frente a outras moedas. Uma das principais, segundo economistas, é a confiabilidade que a economia brasileira vem transmitindo para o mercado mundial. Para Vander Lucas, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília, o Brasil vem mostrando estar saindo da crise mais rapidamente do que as demais economias, e com impactos menos negativos.

"Estes sinais que a economia brasileira vem dando para o mundo, como a taxa de crescimento entre as cinco maiores, faz com que o país seja visto como um porto seguro. Por isso o fluxo de dólar em nossa economia está acima do normal", avalia Vander.

O valor recorde das reservas internacionais brasileiras também assegura crédito ao país. No mês passado elas somaram 317,1 bilhões de dólares, segundo o BC.

Outro fator importante para atrair investidores estrangeiros é a alta taxa básica de juros em vigência no Brasil. Atualmente em 11,5%, é considerada uma das maiores do mundo.

Observadores apontam ainda a grande apreciação do valor das commodities – como soja, milho, açúcar e minério de ferro, dos quais o Brasil é grande exportador – como fator importante da valorização do real. A crescente demanda por esses produtos vem pressionando seu preço no mercado mundial e garantindo o superávit da balança comercial brasileira.

Ações de governo

Na tentativa de conter o avanço do real sobre o dólar, e às voltas com a ameaça de inflação, o governo brasileiro anunciou algumas medidas para conter a supervalorização da moeda nacional. No início de abril, a equipe econômica da presidente Dilma Rousseff anunciou o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para pessoas físicas e jurídicas que contratarem empréstimos no exterior e também para compras com cartão de crédito fora do país.

Consideradas paliativas por muitos economistas, as regras, segundo o governo brasileiro, já começaram a surtir efeito: no início de abril, a saída de dólares do país superou a entrada em 14 milhões. Durante um encontro com empresários norte-americanos em Nova York na semana passada, o ministro brasileiro da Fazenda, Guido Mantega, explicou que qualquer medida tomada no intuito de frear a valorização do real leva tempo, especialmente porque o dólar continua fraco.

A expectativa, segundo Mantega, é de que a moeda norte-americana volte a ganhar força no segundo semestre, quando a economia dos EUA apresentar importantes sinais positivos de sua recuperação, com redução do desemprego e aumento dos investimentos. Até lá, o brasileiro continuará enchendo o carrinho de compras de produtos importados. E lotando os voos internacionais.

Autora: Mariana Santos
Revisão: Alexandre Schossler