Vítimas de Brumadinho são lembradas no Vaticano | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 26.10.2019

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Brasil

Vítimas de Brumadinho são lembradas no Vaticano

Em meio à luta de familiares por justiça, homenagem aos 270 mortos na tragédia da Vale ocorre paralelamente ao Sínodo para a Amazônia. Em Mariana, Samarco ganha licença para retomar atividades quatro anos após desastre.

Fotos das vítimas tomam o chão da igreja Transpontina, ao redor de um cartaz que pede justiça para Brumadinho

Fotos das vítimas tomam o chão da igreja Transpontina, ao redor de um cartaz que pede "justiça para Brumadinho"

Enquanto Marcela Rodrigues distribui 270 fotos pelo piso da igreja Transpontina, no Vaticano, outros voluntários acendem velas e empurram os bancos para trás. É preciso mais espaço para abrigar as imagens impressas em folha A4 das vítimas do desastre de Brumadinho, soterradas nove meses atrás, após o rompimento da barragem da Vale, em 25 de janeiro.

Uma reprodução de duas ultrassonografias de bebês mortos na barriga das mães também são acomodadas no local. Escrito em inglês, um cartaz pede justiça para o desastre na cidade mineira.

"Estamos lutando para que o que aconteceu em Brumadinho não se repita, para que não existam mais essas mortes desnecessárias", afirma Marcela durante a homenagem neste sábado (26/10). A jovem, que perdeu o pai Denílson na tragédia, conta que muitos sobreviventes e pessoas no município estão enfrentando problemas psicológicos.

O grupo que veio do Brasil percorrerá ao todo sete países. Eles já estiveram na Alemanha, onde a empresa TÜV Süd, que emitiu o certificado de segurança da estrutura que rompeu, é sediada. Em Munique, os familiares apresentaram uma denúncia contra a companhia alemã e um diretor da empresa no país, sob acusações de homicídio culposo, negligência e corrupção.

Do Vaticano, o grupo irá a Bruxelas. Na capital da União Europeia, parentes e advogados que representam as vítimas têm uma série de reuniões marcadas com parlamentares.

"Iremos defender a proposta de uma lei europeia para devida diligência em relação a direitos humanos e meio ambiente de todas as empresas europeias em toda a cadeia de valor", detalha Danilo Chammas, advogado que acompanha o grupo.

A lei obrigaria as empresas a averiguarem a origem das matérias-primas e produtos que compram de outros países e, em caso de uma análise malfeita ou insatisfatória, as compradoras seriam responsabilizadas legalmente.

"Ou seja, elas seriam responsabilizadas pelas violações aos direitos humanos, aos danos ao meio ambiente que as empresas das quais compraram causaram nos países onde atuam", esclarece Chammas.

França e Holanda são os países europeus que mais importaram minério de ferro do Brasil até setembro, segundo dados do Ministério da Economia. A Vale, maior exportadora dessa matéria-prima no mundo, praticamente vende ao exterior toda a sua produção.

Segundo Chammas, uma proposta de lei semelhante à que será levada ao Parlamento Europeu foi aprovada na França. Campanhas para a criação de regras similares estão em andamento na Alemanha e na Suíça.

"Nós estamos aqui para demonstrar também que empresas europeias estão diretamente implicadas em tragédias como a de Brumadinho", argumenta o advogado.

Exposição mostra fotos e relatos de comunidades que sofreram impactos da mineração em países amazônicos

Exposição mostra fotos e relatos de comunidades que sofreram impactos da mineração em países amazônicos

Mineração vira assunto da Igreja

A homenagem aos mortos em Brumadinho foi uma atividade paralela ao Sínodo para a Amazônia, que ocorre no Vaticano sob o comando do papa Francisco. Na mesma igreja onde ocorreu o tributo, a Transpontina, uma exposição apresenta fotos e relatos de comunidades que sofreram impactos da mineração em países amazônicos. 

Dentro da Igreja Católica, uma rede chamada "Igreja e Mineração" acompanha comunidades atingidas por projetos em toda a Amazônia. E recentemente, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) criou um grupo de trabalho devido à "urgência do tema", afirma Dom Sebastião Lima Duarte, um de seus integrantes.

"Aqui no sínodo também estamos discutindo o desinvestimento. Ou seja, as entidades da Igreja que aplicaram recursos em empresas ou ações ligadas à mineração devem 'desinvestir' esse dinheiro", diz o bispo brasileiro.

Uma das principais pautas na reunião liderada pelo pontífice é o conceito de ecologia integral. "O papa sempre fala que tudo está interligado, que a gente tem que se preocupar com o meio ambiente e com as pessoas que vivem no ambiente, e impedir que os grandes projetos destruam o meio ambiente e a vida das pessoas", pontua Dom Sebastião.

A situação em Minas Gerais

Na noite em que a tragédia de Brumadinho completou nove meses, nesta sexta-feira, a Câmara de Atividades Minerárias (CMI) do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) deu licença para a retomada das atividades da Samarco no Complexo de Germano, em Mariana, outra cidade mineira atingida por um desastre. Em novembro de 2015, a barragem de Fundão se rompeu e despejou toneladas de rejeitos na bacia do Rio Doce, matando 19 pessoas.

Em Brumadinho, por sua vez, continuam as buscas por 18 corpos ainda não localizados. "São 275 dias do pior crime da mineração, e nenhum culpado na prisão. Lutaremos por justiça até o fim", afirma Josiane Melo, uma das fundadoras da Associação dos Familiares de Vítimas de Brumadinho (Avrum).

Josi, como é conhecida, era engenheira civil da Vale e perdeu a irmã Eliane, que estava grávida de cinco meses. A foto dela e uma imagem do ultrassom do bebê estavam entre os 270 rostos que cobriram o piso da igreja Transpontina durante a homenagem emocionada no Vaticano.

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