Um ano depois, assassinato de Khashoggi segue impune | Notícias internacionais e análises | DW | 02.10.2019
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Oriente Médio

Um ano depois, assassinato de Khashoggi segue impune

Morte do jornalista saudita completa um ano com questões em aberto. Assassinos não foram condenados, e as principais figuras na investigação até agora escaparam de um julgamento em Riad, questionado internacionalmente.

Khashoggi foi assassinado em 2 de outubro de 2018 no consulado saudita em Istambul

Khashoggi foi assassinado em 2 de outubro de 2018 no consulado saudita em Istambul

Os detalhes arrepiantes do assassinato de Jamal Khashoggi, há exato um ano, e a incriminação de indivíduos próximos à realeza saudita ainda contaminam a imagem de modernizador do príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, e corrompem as relações com aliados ocidentais.

Embora a emissora americana CBS tenha citado no sábado (28/09) que Salman assumiu, como líder saudita, a "responsabilidade total" pelo crime, ele negou ter ordenado o atentado contra Khashoggi, o que foi descrito como "desonesto" por autoridades do país.

Investigadores da ONU sustentam que o assassinato do jornalista dissidente, dentro do consulado saudita em Istambul, foi "planejado e perpetrado por funcionários do Estado da Arábia Saudita".

As investigações da CIA e das Nações Unidas apontam que um esquadrão de 15 sauditas com status diplomático, incluindo um perito forense carregando uma serra de osso, voou para Istambul para interceptar Khashoggi no momento em que ele entrava no consulado saudita para obter os papéis para seu casamento.

A equipe da ONU teve acesso – mas não pôde verificar – às transcrições das gravações de áudio turcas que sugerem que Khashoggi teria recebido uma injeção com um sedativo, sido sufocado e esquartejado. O corpo do saudita não foi encontrado, e os investigadores afirmam que a cena do crime foi limpa de maneira forensicamente adequada antes de as autoridades turcas terem acesso a ela.

Os senadores dos Estados Unidos informados pela CIA apontaram uma série de telefonemas entre Salman, seu assistente próximo Saud al-Qahtani e um membro do esquadrão que participou do assassinato, o que compromete o príncipe herdeiro.

A relatora da ONU Agnès Callamard afirmou que as evidências de uma organização estatal do crime exigiam uma investigação criminal que incluísse o príncipe Salman.

O julgamento saudita

O processo em curso na Arábia Saudita para julgar os envolvidos tem recebido fortes críticas.

Os promotores sauditas realizam um julgamento fechado que envolve 11 suspeitos, com cinco deles enfrentando pena de morte. Mas figuras importantes como Qahtani foram resguardadas do processo, que não atende aos padrões internacionais, segundo afirmou Callamard em entrevista à DW.

"[O julgamento] é mantido a portas fechadas, e os mentores não foram incluídos nele. Não se sabe por que essas 11 pessoas foram acusadas e mais nenhuma outra, considerando que havia 15 pessoas na equipe do assassinato, mais seu cúmplice em Riad", disse Callamard.

O príncipe herdeiro Salman

O príncipe herdeiro Salman nega ter ordenado o assassinato de Jamal Khashoggi

"O julgamento não inclui Saud al-Qahtani, embora o próprio procurador, em uma declaração pública, o tenha reconhecido como a pessoa que incentivou o esquadrão a sequestrar o senhor Khashoggi", completou.

Os promotores sauditas disseram que o braço direito de Qahtani, Ahmed al-Asiri, supervisionou a operação para repatriar Khashoggi, mas não para matá-lo. Mas o próprio Qahtani desapareceu silenciosamente desde que o rei Salman o demitiu por conta do caso.

Fontes turcas e árabes citadas pela agência de notícias Reuters disseram que Qahtani, durante o assassinato, foi colocado em contato com o consulado via Skype e proferiu insultos contra Khashoggi.

Para Yasmine Farouk, especialista do think tank Fundo Carnegie para a Paz Internacional, a liderança saudita fica numa posição difícil ao sacrificar sua equipe de inteligência pelo cumprimento de suas alegadas ordens.

"Se eles consideram suas próprias pessoas culpadas pela morte de Khashoggi, e foi alguém do palácio que a ordenou, [...] isso pode ter implicações para sua credibilidade dentro do sistema", afirmou Farouk à DW.

Chances de desvelar a verdade?

Embora o pedido de Agnès Callamard para uma investigação criminal internacional ainda não tenha ganhado muita força, o assassinato de Khashoggi continua sendo um elemento vivo na diplomacia internacional e nas relações entre Estados Unidos e Arábia Saudita.

"Esse crime e esse relatório sempre estarão lá na prateleira. Sempre assombrarão a Arábia Saudita e sempre estarão lá para serem usados em tempos de crise com a Arábia Saudita", disse Farouk. "Mas, para além disso, se estamos esperando ações concretas da ONU, isso não vai acontecer por enquanto."

Callamard afirmou que, embora o julgamento saudita tenha falhas, ela acredita que se chegará a uma verdade "definitiva" e "credível". Contudo, "a justiça para Khashoggi deve apresentar outras dimensões".

Isso significa acolher novas evidências de jornalistas, agências de inteligência e governo; dirigir sanções a pessoas com patentes mais altas dentro do Estado; celebrar os valores pelos quais Khashoggi morreu e reforçar a proteção aos jornalistas – desde o assassinato do dissidente saudita, em 2 de outubro do ano passado, 26 jornalistas foram mortos, segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ).

Relações internacionais

Embora tenha havido sinais de um degelo nas relações desde que os aliados ocidentais de Riad se uniram para apoiar a Arábia Saudita contra o que ela chamou de ataques iranianos às suas instalações petrolíferas, as relações continuam espinhosas.

Na quinta-feira passada, uma tentativa saudita de bloquear uma investigação no Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre as atrocidades da guerra no Iêmen foi rejeitada, apesar do forte lobby.

O Congresso dos Estados Unidos aprovou previamente várias medidas denunciando a liderança saudita, mas o presidente Donald Trump vetou a legislação para bloquear as vendas de armas e retirar o apoio à guerra no Iêmen, a fim de manter um parceiro estratégico contra o Irã.

A Alemanha, por sua vez, estendeu o congelamento nas vendas de armas para os sauditas após o assassinato de Khashoggi, mas anunciou que vai reiniciar o treinamento conjunto das forças policiais, ao mesmo tempo que se juntou ao Reino Unido e à França para expressar "total solidariedade" em culpar o Irã pelos ataques recentes.

Para Callamard, o legado de Khashoggi está em sua inspiração a jovens críticos sauditas e em como sua morte manchou a imagem reformista que o príncipe Salman tentou cultivar.

"Sua reputação como rei ou príncipe modernista foi desmascarada e se mostrou o que é: uma concha vazia", afirmou Callamard. "O imperador está nu, e os servos cada vez mais expressarão sua opinião."

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