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Trauma por massacre persiste quatro anos depois na Ucrânia

Oleksandra Indyukhova
31 de março de 2026

Moradores de Bucha testemunharam "inferno na Terra" em subúrbio de Kiev ocupado por forças russas no início do conflito, que acabou sendo palco de atrocidades em 2022.

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Velas e pessoas em memorial que homenageia vítimas do massacre em Bucha de 2022
Quarto aniversário da liberação de Bucha teve homenagem de civis e autoridades Foto: Evgeniy Maloletka/AP Photo/picture alliance

Em Bucha, um subúrbio de Kiev, as memórias do massacre de 2022 permanecem vivas. Os moradores relatam, em meio a lágrimas, terem vivido um "inferno na Terra" durante cerca de um mês de ocupação russa, ainda no início da guerra na Ucrânia.

A libertação pelo Exército ucraniano completa quatro anos nesta terça-feira (31/03). Para marcar o aniversário, líderes da União Europeia (UE) prestaram uma homenagem em Bucha às vítimas de atrocidades russas.

Presente no local, a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, afirmou que, nas regiões ocupadas, ocorrem assassinatos, torturas e repressão cultural. O governo russo nega que que soldados russos tenham assassinado civis.

"Quem diz que basta ceder território não entende que não se trata apenas de terra, mas de pessoas", afirmou ela, se referindo aos pedidos dos EUA para que a Ucrânia aceite compromissos territoriais em negociações de paz.

Cenário de horror

Naquele 31 de março, veio à tona um cenário de horror em Bucha. Numa das ruas do subúrbio, galhos de árvores carbonizadas pendiam pedaços de roupas e, ao que tudo indicava, também membros humanos. Quase todas as casas estavam destruídas. Equipamentos militares russos destroçados jaziam na beira da calçada.

Já no porão de um acampamento infantil, foram encontrados os corpos de sete homens torturados. Agentes de segurança os colocavam em sacos pretos.

Médicos legistas encontraram, perto dali, uma fogueira apagada perto de uma casa. Eles encontraram restos mortais de uma mulher, um homem e uma criança. Segundo eles, essas pessoas foram mortas por soldados russos e depois queimadas.

Alguns moradores estavam na beira da rua. Em seus rostos viam-se medo e pavor, mas também alegria e alívio. Todos — mulheres e homens — choravam.

Tremores de terra

A invasão de Bucha começara em 27 de fevereiro. Por volta das 8h da manhã, paraquedistas russos marcharam pela rua, seguidos por uma coluna de veículos militares. 

Uma hora e meia depois, a coluna recuou e parou perto da casa de Wassyl Moltschan, fotógrafo amador que capturou a ocupação com um celular e uma filmadora. 

As gravações mostram um soldado russo olhando longamente para o monitor e dando uma ordem a um atirador de elite. A bala voa diretamente na direção da câmera que Moltschan havia instalado no parapeito de uma janela, no segundo andar de sua casa.

"Eu não estava do lado da câmera. Eu a controlava pelo celular a partir do porão. Não faço ideia de como a notaram", contou ele à DW.

Segundo ele, "a terra tremia com as explosões" durante muito tempo. Quando saiu do porão, não reconheceu sua rua. "Tudo estava queimado e destruído. Foi um milagre não termos morrido."

Corpo de civil assassinado em Bucha, na Ucrânia, em 2022
Corpo de civil assassinado em Bucha, na Ucrânia, em 2022Foto: Vojtech Darvik Maca/CTK/dpa/picture alliance

"Mandar jovens para a morte"

A unidade russa que deveria tomar Kiev"em três dias", como anunciava a propaganda russa, foi destruída por drones Bayraktar. 

Nos seus vídeos, Moltaschan caminha com o celular ao lado dos equipamentos queimados. Para ao lado de um veículo blindado. No teto, há um paraquedista morto.

Ele sobe no blindado e vê ali os corpos de outros dois soldados. No peito de um deles está um passaporte russo.

Ele o abre e filma: Aleksandr Kaschin, nascido em 2002, da região de Sverdlovsk. "O mundo enlouqueceu. Não sei quem eles escutam na Rússia para mandarem jovens tão novos para a morte."

As imagens também mostram documentos de um dos comandantes, bem como uma lista completa dos soldados com endereços e telefones de seus familiares e informações sobre sua formação. 

Os comandantes tinham ensino superior. Os soldados, no máximo, formação técnica.

Eram homens entre 20 e 37 anos das regiões russas de Pskov, Tver, Briansk e Leningrado. "Eles achavam que chegariam como heróis para fazer o bem. Mas trouxeram a morte e morreram", diz Moltschan.

Quatro anos depois, ele admite que não tinha consciência de quanto arriscava a própria vida e a da sua família ao filmar em Bucha e enviar o material para amigos em Kiev.

Destroços empilhados, com fogo ao fundo, em Bucha, na Ucrânia
Ocupação russa provocou destruição e mortes em Bucha , um subúrbio de Kiev, a capital da UcrâniaFoto: Wasyl Moltschan/DW

Celulares em mãos

Outros moradores também documentaram as atrocidades e relataram ao Exército e à polícia o que acontecia, lembra Kostjantyn Schwedtschykow, chefe da Promotoria do distrito de Bucha.

"As pessoas arriscavam a vida e documentavam os crimes com seus celulares da melhor forma possível", diz Schwedtschykow.

Durante a ocupação, morreram 458 pessoas, de acordo com dados oficiais. Ativistas locais e representantes da igreja estimam, entretanto, cerca de 560 civis mortos no período.

"Muitas pessoas simplesmente jaziam na rua", lembra o padre da Igreja de Santo André, Andrij Galawin. "Várias foram levadas ao necrotério, que, contudo, estava inacessível por falta de eletricidade. Também não era possível chegar aos cemitérios."

Corpos de vítimas ucranianas, algumas com mãos atadas, encontrados em Bucha, após forças russas deixarem o local
Corpos de vítimas ucranianas, algumas com mãos atadas, encontrados em Bucha, após forças russas deixarem o localFoto: Vadim Ghirda/AP/picture alliance

Mil soldados investigados

Galawin mostra evidências de assassinatos em massa — um vídeo gravado em 10 de março de 2022, perto de sua igreja, durante o enterro de mortos. Os trabalhadores municipais e o diretor do hospital local, que documentavam enquanto enterravam civis em uma vala comum, sabiam que também poderiam ser mortos a qualquer momento.

"Aqueles que conseguiram fugir só publicaram o vídeo no dia seguinte", diz o padre.

A identificação dos civis assassinados e de seus assassinos começou logo após a libertação da cidade, diz o promotor Schwedtschykow. Investigadores de várias regiões trabalharam em Bucha, coletando depoimentos e analisando gravações de todas as câmeras de segurança.

Os soldados russos circulavam sem máscaras e relatavam abertamente nas redes sociais seus atos de violência. Alguns foram identificados por reconhecimento facial. "Nós fizemos contato, e eles confirmaram e até se gabaram de ter atirado em civis", diz o promotor.

Árvores queimadas e casas parcialmente destruídas, com nuvem de fumaça, em Bucha
Estimativas dão conta de aproximadamente cinco centenas de mortos durante um mês de ocupação em Bucha Foto: Wasyl Moltschan/DW

Mais de mil soldados russos estão sendo investigados. "Os principais crimes foram cometidos por paraquedistas da Divisão de Pskov e pela Guarda Nacional russa. Há cerca de 120 processos especificamente sobre os crimes em Bucha. Vinte ocupantes foram condenados — alguns à prisão perpétua, outros a 15, 13, 12 ou 10 anos."

Segundo a promotoria, tratou-se de ato de agressão da Rússia contra o povo ucraniano e da imposição de condições desumanas durante a ocupação: em março de 2022, não havia eletricidade, aquecimento, gás ou comunicação. As pessoas não tinham comida nem acesso a cuidados médicos. "Muitos não conseguiam deixar os porões, e fazia muito frio. Pessoas morreram de hipotermia e fome", prossegue Schwedtschykow.

Fuga e retorno

A vida normal desapareceu rapidamente em Bucha. Os vídeos de Moltschan mostram refugiados correndo para os pontos de evacuação. Nas primeiras imagens, passam pessoas com bagagens e roupas de inverno. Depois, outras sem malas, com roupas sujas.

Em um dos vídeos, uma mulher aparece com uma jaqueta curta; em sua cintura, amarrada, está uma grande manta, na qual uma criança pequena se agarra. A criança usa uma jaqueta, uma saia adulta longa e botas grandes demais.

Moltschan eventualmente também deixou sua casa. "Já não era possível ter uma vida civilizada em Bucha", lembra. Ele voltaria em julho de 2022. Hoje, a sua casa e a dos seus vizinhos estão restauradas. 

Nesta terça-feira, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, reafirmou o compromisso contínuo de apoio à Ucrânia. Já o chanceler ucraniano, Andrij Sybiha, disse que um processo de negociação eficaz para o fim da guerra deve ter participação europeia. 

(com dpa)

Irmãs ucranianas na linha de frente