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Foto: Teatro Colón

Tetralogia em Buenos Aires, versão compacta

28 de novembro de 2012

Projeto abandonado por Katharina Wagner, "Anel do Nibelungo" encurtado de 16 para 7 horas e com referências ao passado ditatorial da Argentina perturba a plateia no tradicional Teatro Colón, mas convence musicalmente.

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É... um bebê! As Filhas do Reno cantam o tesouro dos Nibelungos. Mas aqui ele não é de ouro, e sim de carne e osso. Esta é a primeira alusão às muitas crianças desaparecidas durante a ditadura militar argentina, nas décadas de 1970 e 1980, arrancadas de seus genitores, geralmente oposicionistas, e entregues a famílias fiéis ao regime.

Esse é um tema que até hoje move e ocupa a sociedade argentina. No palco do Teatro Colón, é uma ideia ousada, com que a diretora de cena Valentina Carrasco provoca o público logo na primeira parte de O anel do Nibelungo, o prólogo O ouro do Reno.

E não só provoca, mas perturba de forma duradoura: "É estranho, muito estranho", comenta uma jovem durante a primeira pausa. "Eu gosto, mas às vezes é difícil de suportar." Um outro espectador opina: "Está muito abstrato, falta um pouquinho de grandezza. O toque argentino comove, a algumas pessoas ele irrita, para outras é doloroso".

Colon Ring Buenos Aires Rheintöchter und Alberich
Célebre "Cavalgada das Valquírias" traduzida em reminiscências da ditadura e das MalvinasFoto: Teatro Colón

Sete horas, nada mais

A tetralogia O anel do Nibelungo, de Richard Wagner (1813-1883), é composta por quatro óperas – ou "dramas musicais", como o compositor e libretista preferia denominá-los: O ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried e Crepúsculo dos deuses.

No total, a obra dura cerca de 16 horas, sendo normalmente apresentada em quatro noites. Há quem afirme ser este um esforço de concentração quase impossível para o público de hoje. Deste modo, e celebrando o bicentenário do mestre em 2013, o célebre Teatro Colón de Buenos Aires encomendou esta versão – condensada, mas, ainda assim, com alentadas sete horas de duração.

Entre os parceiros do gigantesco projeto está a Deutsche Welle, que registrou num filme documentário os estágios da encenação, desde a concepção até a estreia.

Militar, em vez de mítico

A "argentinização" da homérica obra wagneriana marca toda a apresentação. E atinge um sinistro apogeu na segunda parte, A Valquíria, quando as beligerantes filhas de Wotan, o líder dos deuses, se encontram no Monte das Valquírias para reunir os heróis caídos em batalha.

Por toda parte há cadáveres e cabeças empaladas, cobertas com elmos; entre os despojos, desfilam as Valquírias, de uniforme verde e espada desembainhada. Para o público, uma alusão mais do que óbvia à ditadura militar e à Guerra das Malvinas, os maiores traumas argentinos das últimas décadas.

E a argentina Carrasco leva sua concepção até a última consequência, trocando sistematicamente a pompa, a grandiloquência e os mitos wagnerianos por reminiscências da história recente da Argentina. O cenário despojado, originalmente concebido pelo alemão Frank Schlössmann, a apoia nessa tarefa: escadas de metal, torres, barracas, falésias pontiagudas. E um obelisco, como o da Avenida 9 de Julho, o bulevar de luxo da capital.

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Argentina Valentina Carrasco assumiu a direção na última horaFoto: picture-alliance/picturedesk

Inevitavelmente, o tesouro retorna no fim. Mas não como o ouro dos Nibelungos, subtraído ao Rio Reno, e sim na forma das crianças sequestradas, que invadem o palco, numa cena que por pouco não descamba para o teatro de agitação. E o resultado são as vaias encolerizadas da plateia, na tradicional casa de ópera.

O sumiço da bisneta

Valentina Carrasco teve que trabalhar sob enorme pressão de tempo. Afinal, só entrou no projeto seis semanas antes da estreia, depois que a diretora original, a bisneta de Wagner Katharina, abandonou inesperadamente a montagem.

"Comecei do zero", explica Carrasco, "sem a menor ideia do que havia sido planejado anteriormente. Eu só tinha recebido esboços da cenografia de Frank Schlössmann, que, com a permissão dele, pude utilizar e modificar. Não cheguei para dar seguimento a nada".

A diretora defende com veemência a ideia, tão ferrenhamente criticada, de reduzir o Anel a uma versão compacta. "Desse modo, Wagner ficará acessível a mais gente. Assim é mais fácil descobri-lo. Ele está mais aberto, livre de repetições."

Colon Ring Buenos Aires Brünnhilde und Wotan
Linda Watson (dir) foi grande sensação como Brünnhilde, aqui ao lado de Wotan (Jukka Rasilainen)Foto: Teatro Colón

Vitória da música

As reações do público lhe dão razão – pelo menos no que concerne à música. Quase não se comentou os cortes da obra, mas se falou muito sobre o desempenho dos cantores. As duas orquestras do Colón foram reunidas em dois "conjuntos Wagner", que dividiram com bravura a noite, sob a regência do maestro Roberto Paternostro.

Os solistas, todos aclamados intérpretes wagnerianos, levaram o público ao delírio. Como a Valquíria Brünnhilde, Linda Watson foi aplaudida de pé durante vários minutos. Nas pausas, entre um champanhe e um canapé, a soprano era o tema constante. "Uma maravilha! Um luxo que me enche o coração!", entusiasmava-se uma espectadora. "Que nível! É impressionante!"

Rostos pensativos, pouco antes da meia-noite, após um longo dia operístico, que começara de tarde, no calor do início de verão. A concepção da diretora? No mínimo, ousada. A música de Richard Wagner? Sem a menor dúvida, fantástica!

Há muitos anos os fãs portenhos não tinham oportunidade de assistir a uma encenação wagneriana. Agora, o compositor da Tetralogia está de volta a Buenos Aires. Desse ponto de vista, o Anel compacto não deixou de ser o tão anunciado "evento teatral do ano".

Autoria: Marc Koch (Buenos Aires) / Augusto Valente
Revisão: Alexandre Schossler

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