Saída de Ricardo Teixeira da CBF favorece organização da Copa de 2014 | Siga a cobertura dos principais eventos esportivos mundiais | DW | 13.03.2012
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Esporte

Saída de Ricardo Teixeira da CBF favorece organização da Copa de 2014

Especialistas ouvidos pela DW Brasil avaliam que negociações entre governo brasileiro, Fifa e comitê organizador da Copa serão facilitadas. As mudanças no futebol brasileiro, porém, deverão ser lentas.

O efeito imediato da saída de Ricardo Teixeira do comando da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), anunciada nesta segunda-feira (12/03), é a melhora nas relações entre o governo brasileiro e seus interlocutores na Fifa e no Comitê Organizador Local da Copa de 2014 (COL). Em meio à votação da Lei Geral da Copa – que ainda vai ser votada na Câmara dos Deputados antes de ir para o Senado – as negociações devem fluir com mais facilidade.

O jornalista Juca Kfouri, colunista do jornal Folha de S. Paulo e da ESPN e apresentador de programa esportivo na rede de rádios CBN, conversou com a DW Brasil sobre as consequências da saída de Teixeira. Segundo ele, a notícia “é boa porque a saída dele remove um obstáculo no relacionamento do governo brasileiro com o Comitê Organizador da Copa e também da Fifa com o Comitê Organizador”.

Devido às desavenças com a presidente Dilma Rousseff e com o presidente da Fifa, Joseph Blatter, Teixeira era considerado um obstáculo importante, que atrapalhava as negociações. No governo brasileiro, Teixeira era visto como um incômodo por causa das inúmeras denúncias de corrupção. Dilma e Teixeira nem mesmo se falavam mais em eventos públicos.

Kfouri avalia, entretanto, que o afastamento veio com atraso. “Certamente foi tarde demais e só se deu porque ele estava asfixiado, com portas fechadas em Brasília e na Fifa, objeto de muitas denúncias”, declarou. Kfouri se refere a uma série de reportagens publicadas pela mídia brasileira com acusações de participação de Teixeira em esquemas de recebimento de propina em convênios para transmissão de jogos, além de remessa ilegal e lavagem de dinheiro.

A mudança na chefia da CBF abre espaço para uma gestão mais transparente no futebol brasileiro e também na organização da Copa de 2014, avalia Kfouri. “É o que se espera, na medida em que a marca registrada da gestão Ricardo Teixeira era exatamente a falta de transparência”, disse.

Essa também é a avaliação do jornalista esportivo alemão Thomas Kistner. “Considerando todos os escândalos da era Teixeira, pode-se dizer: pior a coisa não pode ficar, só tem a melhorar.”

Members of the Brazilian delegation with Brazil's CBF President Ricardo Terra Teixeira, right, during the bid presentation for the FIFA 2014 World Cup presentation at the FIFA headquarters in Zurich, Switzerland, Tuesday, Oct. 30, 2007. (AP Photo/Anja Niedringhaus)

Teixeira era considerado obstáculo nas negociações para Copa

Nesta terça-feira, a Fifa divulgou nota afirmando que Teixeira continua a fazer parte do Comitê Executivo da entidade, na posição de representante da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol). No lugar dele na CBF, assumiu José Maria Marin, um dos cinco vice-presidentes da confederação. Marin já estava no comando da entidade desde a última quinta-feira, quando Teixeira pediu afastamento alegando motivos de saúde.

Alívio nas negociações

A nova Lei Geral da Copa está no centro dos debates entre os gestores do evento. O texto deverá ser votado nesta quarta-feira no plenário da Câmara dos Deputados. Para o relator, deputado Vicente Candido, “há competências do COL que estão muito atrasadas. Nós estamos preocupados com isso. Essa Copa é uma parceria. Há muitas coisas que são do governo e muitas coisas que são da Fifa, e o braço operacional da Fifa aqui é o Comitê Local. Nesse aspecto eu acho que ajuda a deslanchar bastante [as negociações]", disse o relator, em entrevista à Agência Câmara de Notícias.

As negociações, segundo Kfouri, ficarão mais fáceis para a votação da Lei. “O caminho está mais livre”, avaliou. 

A última versão do texto incluía propostas polêmicas, como a liberação da venda de bebida alcoólica nos estádios – exigência da Fifa e que enfrenta resistências no Brasil – e a venda de meia-entrada para alguns grupos, como idosos e participantes de programas de assistência – exigência do governo. Há ainda entraves na aprovação do texto que define a responsabilização do governo brasileiro por danos ou acidentes durante o evento.

Depois da saída de Teixeira, o ministro brasileiro dos Esportes, Aldo Rebelo, divulgou carta em que reafirma a determinação de continuar cooperando com o Comitê Organizador Local. “Seguiremos trabalhando em harmonia para o êxito das tarefas comuns necessárias ao sucesso do evento”, dizia a carta.

Kistner avalia, entretanto, que resultados mais concretos só serão percebidos com o tempo. “É certamente uma boa notícia para o governo brasileiro. Quanto ao sucessor, certamente o governo não vai partir para o confronto, vai primeiro esperar algumas semanas ou meses. Mas certamente não se trata de uma solução duradoura para o governo brasileiro”, declarou à DW Brasil.

Futebol brasileiro

The new president of the Brazilian Football Confederation (CBF) Jose Maria Marin talks during a press conference in Rio de Janeiro, Brazil, Monday March 12, 2012. Ricardo Teixeira stepped down from his posts as head of the CBF and the 2014 World Cup organizing committee on Monday, ending a contentious 23-year stint in charge of Brazilian football. The announcement came in a letter of resignation read by the new federation and organizing committee president, former Sao Paulo Governor Jose Maria Marin. (Foto:AP/dapd)

Marin não deve trazer grandes mudanças para o futebol brasileiro

Apesar de a saída de Teixeira apresentar alguns avanços para a organização da Copa de 2014, a organização do futebol Brasileiro não deve ser beneficiada de imediato. Para Kfouri, o futebol nacional enfrenta “um problema estrutural e a estrutura não foi mexida. Agora, abre a perspectiva, se tiverem vontade política, de eles [os clubes] ocuparem esse vácuo de poder que está criado, para mudar a governança do futebol brasileiro”.

O principal problema, para ele, é a estrutura falha de eleição do dirigente. “Hoje votam, para eleger o presidente da CBF, apenas 27 federações estaduais – que não representam quase nada – e 20 clubes da primeira divisão”, lembrou. “É preciso mudar o sistema eleitoral de modo a democratizá-lo e permitir que haja mais eleitores”, completou.

Sobre o que a troca pode representar para o futebol nacional, Thomas Kistner avalia que “as estruturas criadas em quase um quarto de século não podem ser alteradas da noite para o dia. Basta ver que o sucessor tem quase 80 anos e faz parte desse sistema. Aí fica claro que as mudanças não podem acontecer rapidamente, são necessários mais fatores”.

Autora: Ericka de Sá, de Brasília
Revisão: Francis França