Por que levei minha filha para visitar Auschwitz | Colunas semanais da DW Brasil | DW | 17.04.2019
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Coluna Caros brasileiros

Por que levei minha filha para visitar Auschwitz

As testemunhas morrem, a memória do Holocausto está nas mãos de cada visitante. A pesada herança faz parte da identidade de todos os alemães. Não para ser carregada por culpa, mas como uma lição da história.

O campo de concentração de Auschwitz

O campo de concentração de Auschwitz

Caros brasileiros,

O passado da Alemanha é pesado. A cada ano, no dia 8 de maio, dia da capitulação incondicional, o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa e o fim do nazismo são lembrados. Eu cresci com essa memória. E ela foi um dos motivos que me fizeram escolher a faculdade de história contemporânea.

Aprender as lições da história – era isso que eu queria passar também para as minhas filhas. Quando tinham 15 anos, não demonstraram muito interesse. "Nós não temos nada a ver com a história alemã do nazismo”, me disseram. "Além disso: somos brasileiras!"

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Quando as próprias filhas falam isso, mexe com a gente. À primeira vista, parece até sensato. Afinal, o que alguém que nasceu depois da queda do Muro tem a ver com a história do nazismo, do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial? Seja ele brasileiro ou alemão?

A jornalista alemã Astrid Prange

A jornalista alemã Astrid Prange

Mas pensando bem, a pergunta é superficial. Pois a memória de uma pessoa não se baseia somente em experiências individuais, ela é alimentada também por experiências coletivas. A minha mãe, por exemplo, nasceu em 1938. Quando a guerra começou, tinha apenas um ano de idade, então não tinha nenhuma responsabilidade pelos crimes cometidos pelo nazismo. Mas os horrores da guerra ficaram gravados na memória dela até hoje, e ela não se cansa de contá-los para as suas netas.

Ou a minha avó, que nasceu em 1918 e morava perto do campo de concentração de Bergen-Belsen. Ela jurava que não sabia de nada. Será que ela simplesmente queria evitar o assunto, pois a conversa poderia ir longe demais?

A ditadura nazista impôs a lei do silêncio. Ninguém falava dos campos de concentração. Ninguém ousava criticar a perseguição aos judeus. Uma visita ao antigo campo de concentração e extermínio de Auschwitz pode ser uma tentativa de compreender as contradições e dimensões do Holocausto.

Quando visitei o memorial de Auschwitz-Birkenau em 1983 pela primeira vez, fazia faculdade de história. O choque foi grande. Antes de visitar o lugar novamente, vasculhei o meu arquivo de textos para me lembrar dos meus pensamentos na época. Queria contar isso para a minha filha.

Relendo uma matéria minha publicada no dia 5 de junho 1983 num jornal austríaco,  parece que a história se repete: "A cinza dos presos, pequenos grãos cinzas, ainda se mistura com o chão escuro ao lado das ruínas do crematório. E mesmo assim, já aparecem outra vez adeptos do nazismo. A visita de Auschwitz abala. O memorial é um grito para humanidade para nunca mais deixar acontecer um outro Auschwitz nesse mundo, seja onde for".

Será que esse "grito para humanidade" ainda existe?  Depois que eu visitei o memorial com a minha filha, tenho certeza que sim. Não existe nenhum livro de história e nenhum filme que conseguisse palavras para descrever o abismo da humanidade e crueldade que é o Holocausto.

A mensagem da guia de Auschwitz era clara: as testemunhas morrem, a memória do Holocausto está na mão de cada visitante. Essa mensagem tocou o coração da minha filha. Na prática, isso quer dizer: não votar em políticos que prometem "solucionar" todos os problemas, não consentir com racismo e discriminação, não acreditar em propostas populistas ou extremistas.

Depois da visita ao memorial Auschwitz-Birkenau, ficou claro que a herança pesada do Holocausto faz parte da identidade de todas as gerações alemãs. Não no sentido de carregá-la como um sentimento de culpa coletiva eterna. Mas no sentido de aprender as lições da história e combater qualquer forma de racismo, intolerância, antissemitismo e totalitarismo. Olhando para o atual cenário político internacional, isso continua sendo uma tarefa enorme. Nem eu, nem as minhas filhas teuto-brasileiras vão se livrar dela. Pois parece que a história se repete, mas a humanidade nem sempre aprende.

Astrid Prange de Oliveira foi para o Rio de Janeiro solteira. De lá, escreveu por oito anos para o diário taz de Berlim e outros jornais e rádios. Voltou à Alemanha com uma família carioca e, por isso, considera o Rio sua segunda casa. Hoje ela escreve sobre o Brasil e a América Latina para a Deutsche Welle. Siga a jornalista no Twitter @aposylt e no astridprange.de.

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