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A falsa alegação da Rússia de que a Ucrânia iniciou a guerra

Kathrin Wesolowski | Michel Penke
3 de março de 2022

Porta-voz do Ministério do Exterior da Rússia alega que seu país não começou a guerra, mas sim a Ucrânia, e faz alusão ao conflito que vem ocorrendo desde 2014 em Donbass. Mostramos por que essa afirmação é falsa.

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Tanques da Rússia avançam na Ucrânia
Tanques russos avançam sobre o território da UcrâniaFoto: Konstantin Mihalchevskiy/SNA/imago images

Alegação: "A Rússia não começou a guerra, mas está terminando", escreveu Maria Zakharova, porta-voz do Ministério do Exterior da Rússia, recentemente numa postagem no Facebook. Ela coloca a invasão russa na Ucrânia em curso no contexto do conflito em Donbass, que já vem acontecendo há anos.

O presidente Vladimir Putin havia argumentado de forma semelhante no início do ataque russo, quando justificou falsamente a ofensiva da Rússia como um caso de defesa nos termos do artigo 51º da Carta das Nações Unidas.

Além disso, Zakharova afirma que a Ucrânia planejou a "aniquilação sistemática da população em Donbass". As alegações de Zakharova também foram divulgadas pela emissora estatal russa RT em alemão (antiga Russia Today).

Captura de tela de postagem no Facebook da porta-voz do Ministério do Exterior russo, Maria Zakharova
A porta-voz do Ministério do Exterior russo espalhou propaganda do Estado em sua conta no Facebook. A tradução em inglês na captura de tela foi criada automaticamente pelo FacebookFoto: facebook.com/maria.zakharova.167

Checagem de fatos pela DW: Errado.

As duas declarações de Zakharova são falsas. O atual conflito armado começou quando as tropas russas invadiram a Ucrânia em 24 de fevereiro, logo após Putin anunciar uma "operação militar especial" na Ucrânia num discurso televisionado.

Assim, a Rússia iniciou as hostilidades no conflito atual e, ao cruzar a fronteira para o território da Ucrânia, desencadeou uma escalada militar que vem acontecendo desde então. A segunda alegação da porta-voz do Ministério do Exterior da Rússia também é falsa: não há qualquer evidência de uma "aniquilação sistemática da população" em Donbass, como mostra uma checagem de fatos da DW.

Russos iniciaram o conflito armado em 2014

De fato, há uma disputa entre a Ucrânia e a Rússia sobre quem provocou o início do conflito em 2014. O ponto de partida foi a revolução Maidan, em 2014, quando o então presidente ucraniano, Viktor Yanukovych, recusou-se a assinar um acordo de adesão à UE. As manifestações pró-Ocidente acabaram forçando Yanukovych a fugir, e um governo interino assumiu.

Ao mesmo tempo, soldados sem emblemas nacionais ocuparam a Crimeia e hastearam bandeiras russas. De acordo com fontes russas, eles não agiram sob ordens do Kremlin, mas observadores ocidentais duvidam fortemente disso.

Após um referendo não reconhecido internacionalmente, a Federação Russa anexou a península. Ao mesmo tempo, a Rússia apoiou movimentos separatistas na região leste de Donbass, na Ucrânia, contra os quais o governo de Kiev agiu militarmente.

Em que ponto o conflito se transformou em guerra é uma questão controversa entre os seus atores e também na comunidade científica. No entanto, o conflito evoluiu para uma guerra entre Estados, o mais tardar quando as tropas russas invadiram a fronteira leste da Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022.

Antes disso, as regiões de Donetsk e Lugansk já haviam se autoproclamado "repúblicas independentes" do governo central em Kiev – e a Rússia reconheceu esse status alguns dias antes da invasão.

Estas imagens não têm nada a ver com a Ucrânia

Não há evidência de genocídio da população ucraniana oriental

Maria Zakharova também se refere explicitamente a uma suposta "destruição planejada da população em Donbass" e que o conflito já teria causado pelo menos 13 mil mortos. No entanto, não há evidências de um extermínio sistemático da população civil. A missão de monitoramento da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que está ativa desde 2014, não registrou assassinatos em massa da população civil em Donbass. E o Ministério do Exterior da Rússia ainda não apresentou nenhuma evidência de um genocídio planejado contra a população do leste da Ucrânia.

Além disso, a ONU acusa ambos os lados de violações de direitos humanos, como tortura e abusos de prisioneiros – especialmente nos primeiros anos do conflito. O cessar-fogo acordado como parte do acordo Minsk II também foi repetidamente quebrado por ambos os lados. É verdade, porém, que pelo menos 13 mil pessoas foram mortas no conflito armado no leste da Ucrânia.

De acordo com os últimos cálculos das Nações Unidas, até 13.200 pessoas haviam morrido no conflito até o início de 2020 – sendo 3.350 civis, 5.650 insurgentes e 4.100 membros das Forças Armadas ucranianas. A porta-voz Zakharova argumenta que as baixas nas fileiras do Exército ucraniano também justificariam a ação militar contra a Ucrânia.

Conclusão: A afirmação de Maria Zakharova de que a Ucrânia começou a guerra é falsa. A Federação Russa anexou ilegalmente a península da Crimeia em 2014, numa ação que não é reconhecida internacionalmente. Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia atacou a Ucrânia ao norte, nordeste e através da península da Crimeia ao sul, iniciando uma guerra entre Rússia e Ucrânia.

Michel Penke DW-Autor