Polêmico crítico literário alemão Marcel Reich-Ranicki completa 90 anos | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 02.06.2010
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Cultura

Polêmico crítico literário alemão Marcel Reich-Ranicki completa 90 anos

O mais popular crítico literário alemão se diz advogado dos leitores, e não dos autores. A voz penetrante, levemente rouca e seu dedo em riste são sua marca registrada.

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Marcel Reich-Ranicki

"Monótono!" é o adjetivo mais negativo que Marcel Reich-Ranicki costuma usar ao criticar um livro. E essa qualificação feriu profundamente não só o escritor alemão Martin Walser, que até hoje é inimigo do crítico. É longa a lista dos grandes autores que estão com as relações rompidas com Reich-Ranicki.

Certa vez, Rolf-Dieter Brinkmann falou abertamente que preferiria executar o crítico. Enquanto Alfred Andersch chegou a compará-lo a Stalin, em um desenho de Friedrich Dürrenmatt o crítico está sentado no cume de uma montanha de cabeças de autores decepadas.

Perseguição nazista

Marcel Reich-Ranicki nasceu em 2 de junho de 1920 em Wloclawek, hoje Polônia. Em 1929, sua família mudou-se para Berlim, onde Reich-Ranicki concluiu o nível médio, sem ter obtido a permissão para cursar a universidade devido à sua origem judia.

Deportado para a Polônia em 1938, conseguiu fugir cinco anos mais tarde do Gueto de Varsóvia com a esposa, Teofila (Tosia). Seus pais e sogros foram mortos nos campos nazistas de extermínio. Em 1958, retornou à Alemanha, onde passou a se dedicar ao idioma alemão e sua literatura.

Marcel Reich-Ranicki bei der Festveranstaltung im Jüdischen Museum Frankfurt Flash

Cerimônia no Museu Judaico de Frankfurt com Raphael Gross, chefe do museu, o crítico Hellmuth Karasek, e o casal Reich-Ranicki

Insubornável e perspicaz em seus juízos, ele foi o crítico literário que mais atingiu o público leitor de massa na Alemanha. Reich-Ranicki profere sentenças sem escrúpulos, o que nem sempre foi recebido com simpatia pelos escritores.

Há muito, sua autoridade é incontestável, o que lhe permite inclusive tomar decisões radicais, como negar-se a receber um prêmio televisivo em 2008. Mais do que isso, ele criticou o que chamou de "a péssima qualidade dos programas da televisão alemã".

Em 1958, começou a trabalhar como crítico literário no jornal Die Zeit, de Hamburgo. Nos anos 1970, consagrou-se como editor de literatura do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung. Mas foi na televisão que se tornou conhecido em amplas camadas da sociedade, com o programa Literarisches Quartett, transmitido por uma emissora de direito público de 1988 a 2001. Muitas das 400 obras apresentadas no programa de Reich-Ranicki chegaram a tornar-se best seller.

Crítica com autenticidade

O início de sua carreira ele descreve assim: "Quando cheguei à Alemanha em 1958 e vi o que se escrevia sobre literatura no FAZ, Süddeutsche, Die Welt [jornais alemães], eu disse à minha esposa: Vou fazer uma experiência. As pessoas escrevem de forma tão arrogante, tão complexa. Ah!, esta crítica não me agrada. Vou dizer de forma bem clara o que acho dos livros. Isso é arriscado, e há duas possibilidades: ou ficarei bem embaixo na hierarquia dos críticos, ou bem em cima. Mas quero fazer essa tentativa".

Sua interpretação antiacadêmica e popular de literatura deve-se provavelmente à sua biografia como judeu perseguido que sobreviveu à deportação como por milagre. Um tipógrafo polonês escondeu o casal Reich-Ranicki dos nazistas. Em troca, o amante da literatura entreteve seu anfitrião contando histórias de Shakespeare, Goethe e Schiller.

Buchcover: Wittstock - Marcel Reich-Ranicki

Biografia de Marcel Reich-Ranicki, de Uwe Wittstock

Em 1999, foi lançada uma biografia sua, que, diferentemente das da maioria dos demais críticos, tornou-se um best seller com quase 1,5 milhão de exemplares vendidos.

Hoje, 98% dos alemães dizem já terem ouvido, ao menos uma vez, o nome Marcel Reich-Ranicki. Sua voz penetrante, levemente rouca e seu dedo em riste são sua marca registrada.

Desde 2006, quando sofreu um problema cardíaco, está proibido de viajar de avião. Isso o deixa muito triste, não só por não poder mais visitar Tel Aviv, onde uma fundação que leva seu nome criou uma cátedra de literatura alemã. Mas também porque gostaria muito de voltar a viajar à América.

RW/dw/dpa

Revisão: Simone Lopes

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