Plataforma independente que monitora pandemia no Brasil corre risco | Política | DW | 26.11.2020

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Pandemia

Plataforma independente que monitora pandemia no Brasil corre risco

Iniciativa de jovem programador, plataforma voluntária Brasil.IO se tornou base confiável para instituições como Fiocruz e IBGE. Com falta de financiamento, futuro do projeto é incerto.

Não fazia nem um mês que o primeiro caso de covid-19 havia sido registrado no Brasil quando o programador e analista de dados Álvaro Justen, de 33 anos, ficou indignado com o fato de que os dados divulgado por fontes oficiais não apresentavam um consolidado por municípios. Com a experiência de quem programa desde os 14 anos e mantenedor, há dois anos, de uma plataforma de dados abertos — o Brasil.IO —, ele decidiu arregaçar as mangas e convocar voluntários.

A proposta era originalmente imensa: tabular diariamente os registros de covid-19 nos municípios brasileiros de uma forma homogênea, consistente e seguindo uma metodologia padrão. Voluntários de todo o Brasil se juntaram para a tarefa.

"Cada grupo ficou responsável por um estado. E eu dei um jeito de juntar essas planilhas em um determinado padrão. Basicamente o início foi isso. Fizemos o que o Ministério da Saúde em teoria deveria estar fazendo”, conta ele. "Restringir acesso a dados públicos é elitizar a democracia.”

A força-tarefa foi se mantendo firme, de domingo a domingo. Se a pandemia se alastrava pelo país, a plataforma também evoluiu. Aos poucos, mais dados foram inseridos — hoje é possível verificar até os totais de beneficiários da bolsa-auxílio por município, por exemplo. Muitos processos foram automatizados, e a checagem foi aprimorada.

Mas o projeto colaborativo voluntário corre riscos: ao mesmo tempo que a iniciativa foi crescendo, os custos de sua manutenção também aumentaram.

Referência

Os números do site se tornaram referência no meio. Instituição do Ministério da Saúde, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) passou a utilizar essa base de dados. Em 21 de setembro o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou um painel de monitoramento de covid-19 também utilizando o trabalho do Brasil.IO.

Segundo Raphael Saldanha, pesquisador do projeto MonitoraCovid19, da Fiocruz, esses dados são essenciais para os sistema de monitoramento da instituição. "Desde o começo da pandemia, eles têm fornecido dados abertos para toda a comunidade, sendo extremamente importantes em momentos de instabilidade em outras fontes de dados".

O Ministério da Saúde passou a disponibilizar dados municipais desde junho. Entretanto, para especialistas, há problemas de consistência — no próprio mês de junho, houve um apagão na atualização, que chegou a ficar fora do ar. Além disso, o sistema do ministério fragmenta as planilhas, dificultando a análise de dados por especialistas.

Saldanha explica que eles usam os dados do Brasil.IO, além dos próprios do ministério. "Oscilações na continuidade do fornecimento de dados nos fez preferir não depender apenas de uma fonte", ressalta.

Em seu site, o próprio ministério admite problemas. "Os dados disponíveis não apresentam informações de estados e municípios que utilizam sistemas próprios de notificação de casos suspeitos de covid-19 e, portanto, os dados para esses locais podem apresentar informações distintas”, diz o texto. A pasta também diz que, como alguns estados possuem mais de 1.048.576 registros, isso excede a capacidade de abertura do arquivo no formato adotado pelo órgão.

"O que o Brasil.IO faz é importante porque padroniza e coloca em um único repositório o acesso a informações de todos os municípios. Isso permite comparações e avaliação da situação", avalia  o cientista político e economista Manoel Galdino, diretor da organização Transparência Brasil. "Os dados são padronizados e seguem as mesmas regras, tanto em termos de atualização como em termos de metodologia."

Para o advogado Bruno Schimitt Morassutti, da agência de dados Fiquem Sabendo, a iniciativa é útil porque "permite uma visão macro sobre dados na área, algo que até hoje é difícil” e "ao coletar dados de diversos entes municipais, consegue identificar diferenças metodológicas em cada município, tornando possível à sociedade civil encontrar boas práticas e sugerir melhorias”. Ele também ressalta que o fato de o projeto criar e armazenar um banco de dados "de forma independente possibilita à sociedade não ter que ficar ‘à mercê' de mudanças bruscas de entendimentos ou políticas públicas, tornando possível uma autonomia desses dados”.

Projeto em risco

Mas o projeto colaborativo voluntário está ameaçado. Ao mesmo tempo que a iniciativa foi crescendo, os custos também aumentaram. Justen conta que a decisão inicial foi manter o projeto investindo do "próprio bolso". "Fiz as contas e vi que valia a pena porque é algo em que acredito”, lembra ele, citando gastos com servidor e infraestrutura.

Ele lançou uma campanha de financiamento coletivo. Atualmente, arrecada pouco menos de 7 mil reais por mês. Para ficar no azul e ainda poder remunerar as horas de trabalho dos voluntários, estima serem necessários 20 mil. "A vontade é conseguirmos inclusive colocar mais dados lá na plataforma”, diz ele.

Outro problema é que o número de voluntários dispostos a ajudar na tabulação dos dados vem caindo. No auge, chegaram a ser 60 os que efetuavam esse trabalho. Neste mês, são 40 — o idealizador acabou de fazer uma convocação em busca de mais braços.

Devido à falta de mão de obra, alguns estados acabam ficando alguns dias sem os números atualizados — no momento, são os casos de Espírito Santo, Minas Gerais e Mato Grosso. As informações, contudo, não deixam de ser registradas, mas ocorrem com atraso.

A visibilidade do projeto também tem feito com que o site apresente problemas operacionais. Podem ser resultado do grande número de acesso simultâneo aos filtros disponibilizados, ou podem ser ataques nocivos à plataforma. "Tenho vários indícios para crer que foi algo coordenado, abusivo”, diz Justen. Mas é mais uma preocupação que o programador precisa resolver — com horas de trabalho para aprimoramento do sistema.

"Infelizmente, o projeto corre o risco de sair do ar caso não consigamos manter ou aumentar a campanha de financiamento”, comenta. "Gostaria de trabalhar todo o meu tempo e até pagar pessoas para atuar no Brasil.IO, mas como não temos fins lucrativos e tudo fica disponível gratuitamente, enquanto não houver interessados em doar mais ou instituições parceiras, isso não será possível. Temos de ir caminhando mais devagar do que gostaria.”

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