1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW
CiênciaEspanha

Pessoas já usavam droga na Espanha há 3 mil anos, diz estudo

7 de abril de 2023

Pesquisadores detectam substâncias alcaloides procedentes de plantas em fios de cabelo datados da Idade do Bronze. Cientistas acreditam ser evidência direta mais antiga do uso de drogas alucinógenas na Europa.

https://p.dw.com/p/4PosK
Fios de cabelo datados de 3 mil anos atrás
Foto: Asome-Universitat Autonoma De Ba/PA/dpa/picture alliance

Os humanos já estavam usando drogas alucinógenas na Espanha há cerca de 3.000 anos, revelou uma nova pesquisa publicada na revista científica Scientific Reports nesta quinta-feira (06/04).

Uma simples mecha de cabelo foi suficiente para fornecer o que se acredita ser a primeira evidência direta do uso de drogas na Europa, ainda no final da Idade do Bronze.

Um grupo de pesquisadores espanhóis e chilenos analisou os fios de cabelo e detectou neles substâncias alcaloides procedentes de plantas. O estudo, liderado por Elisa Guerra, da Universidade de Valladolid, na Espanha, aponta que essas drogas poderiam ter sido usadas como parte de cerimônias rituais.

O cabelo estava escondido na caverna de Es Càrritx, na ilha espanhola de Menorca. Descoberta em 1995, a caverna abrigava uma câmara usada como espaço funerário, onde foram encontrados pequenos recipientes cilíndricos de madeira com cabelos que datam de cerca de 2.900 anos.

O estudo analisou apenas alguns dos fios disponíveis, alguns com até 13 centímetros de comprimento. Encontrar cabelos preservados daquela época no Mediterrâneo ocidental é "extremamente raro", afirmam os pesquisadores.

As substâncias encontradas

Análises químicas do cabelo detectaram a presença de atropina, escopolamina e efedrina, alcaloides que permanecem fixados em pelos e que podem corresponder ao consumo de plantas como mandrágora, meimendro ou erva daninha, diz o estudo.

A atropina e a escopolamina se encontram de forma natural na família das solanáceas e podem causar delírios e alucinações. Já a efedrina é um estimulante derivado de certas espécies de arbustos e pinheiros.

A equipe de pesquisadores não acredita que essas substâncias tenham sido usadas para aliviar a dor, embora "exista uma linha muito tênue sobre até que ponto algo é para uso medicinal, mágico ou divinatório", afirma uma das autoras do estudo, Cristina Rihuete, da Universidade Autônoma de Barcelona, em entrevista à agência de notícias Efe.

A escopolamina e a atropina juntas são substâncias que induzem à sedação, mas sua manipulação é muito arriscada, devido à alta toxicidade – algo que leva a crer mais no consumo para fins alucinógenos do que terapêuticos, aponta Rihuete.

O crescimento do cabelo vai deixando ainda um registro das substâncias, e "a surpresa é que foi possível demonstrar que o consumo [das drogas] ocorreu por pelo menos um ano", diz a pesquisadora. Não há, porém, indicações de como elas foram consumidas.

Quem vivia na região

A caverna de Es Càrritx conta também a história dos moradores de Menorca durante o fim da Idade do Bronze: sociedades "muito interessantes", densamente povoadas, que souberam viver pacificamente e nas quais o pastoreio teve um peso importante, relata Rihuete.

Em uma de suas câmaras, era realizado um ritual fúnebre em que os cabelos eram tingidos de vermelho, penteados e cortados em mechas, que eram colocadas em tubos cilíndricos de madeira com tampa. Pesquisas anteriores sugerem que cerca de 210 pessoas foram enterradas no local, mas apenas algumas foram submetidas a esse ritual.

"É provável que fossem certas pessoas da cronologia final da necrópole que talvez tivessem aqueles atributos de adivinhação xamânica aos quais está ligada a ingestão de drogas", diz Rihuete.

Seis desses tubos estavam escondidos em uma cova cavada e selada em uma área remota da caverna – o que ajudou a preservar o cabelo –, junto com recipientes de chifre, espátulas, vasos e um pente de madeira e alguns objetos de bronze.

Na Europa já se tinha indícios indiretos, mas não diretos, do uso de alucinógenos naquela época, como a descoberta de alcalóides do ópio em recipientes ou restos de plantas narcóticas em contextos rituais. No mundo, a evidência direta mais antiga tem cerca de 3.000 anos no Chile.

ek (Efe, ots)