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Foto: picture alliance / Hinrich Bäsemann

Esquilo cinzento é condenado à morte na Escócia

Brigitte Osterath/Clarissa Neher
3 de abril de 2014

Espécies exóticas podem destruir ecossistemas naturais. Esse é o caso do esquilo cinzento na Escócia, que está acabando com o esquilo vermelho. No Brasil, há mais de 500 espécies trazidas de outras regiões.

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Laura MacPherson não se lembra de ter visto um esquilo vermelho pessoalmente. "Talvez na Ilha de Skye quando eu era criança, mas não me lembro", afirma a dona de um pequeno hotel em Stirling, na Escócia.

Em vez dos esquilos vermelhos nativos da região, os esquilos cinzentos, uma espécie exótica – ou seja, fora de seu habitat natural – correm em seu jardim. "Eles incomodam um pouco. Eles roem os contêineres de plástico mais duros, entram no lixo e destroem coisas", conta MacPherson.

Mas esse é apenas um pequeno aspecto do potencial de destruição dessa espécie. Ela está provocando a extinção dos esquilos vermelhos. Os animais cinzentos têm mais filhotes, são maiores e comem mais, roubam até a comida que os vermelhos estocam para o inverno.

A estimativa é de que apenas 160 mil esquilos vermelhos ainda habitam o Reino Unido. Entretanto, a população dos cinzentos é composta por mais de três milhões de animais, segundo a organização Red Squirrels in South Scotland.

Acredita-se que os primeiros esquilos cinzentos tenham sido trazidos dos Estados Unidos para a Inglaterra no século 19 por um banqueiro chamado Thomas Brocklehurst. A espécie deveria embelezar o jardim de sua casa de campo.

"Eu gostaria de ter uma máquina do tempo para voltar e dizer a Thomas Brocklehurst que não foi uma boa ideia", diz o ambientalista Ken Neil, que trabalha no projeto do governo escocês Saving Scotland´s Red Squerrels. A grande maioria dos animais nativos restantes no Reino Unido, ou seja 75% deles, vivem na Escócia.

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Esquilos vermelhos não conseguem competir com cinzentosFoto: picture-alliance/dpa

Erradicar o invasor

Ambientalistas se propuseram a livrar a Escócia da espécie cinzenta, para que a vermelha possa repovoar o habitat de onde fora expulsa. Neil e sua equipe espalham armadilhas pelas florestas e cidades do país.

Quando um esquilo vermelho é pego, ele é solto. Mas se um cinzento é capturado, ele é morto. "Não há alternativa. Eles não têm para onde ir e nós não podemos enviá-los de volta para os Estados Unidos", justifica Neil. A organização treina seus caçadores para matar os animais com apenas um tiro.

Mesmo se recusando admitir, Neil parece ter pena dos animais. Ele não quer demonizar os esquilos cinzentos, "mas a questão é essa: os homens criaram o problema e agora têm que consertá-lo", afirma, completando que a única a solução é erradicar a espécie exótica.

"Proteger espécies nativas é essencial, porque elas compõem a biodiversidade específica e única de um país ", argumenta.

Todos os anos, durante a primavera, Neil recolhe a amostras de pelos de esquilos das florestas escocesas para descobrir quais espécies habitam a região. Para colher o material, Neil cola uma fita adesiva dupla na entrada de caixas cheias de amendoim. Conforme o resultado da amostragem, ele decide onde colocar as armadilhas na próxima temporada.

O último levantamento feito pela organização revelou que houve uma queda na população de esquilos cinzentos em 2013 em relação a 2011. No mesmo período, os vermelhos foram encontrados em regiões onde não estavam antes. "Acreditamos que nossa estratégia está funcionando", argumenta Neil.

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Esquilos são atraídos com comidaFoto: DW/B. Osterath

Predadores

Os seres humanos não são os únicos predadores do esquilo cinzento. Para a marta-do-pinheiro-europeia, eles são uma ótima refeição. Essa espécie de mamífero carnívoro que viva nas Ilhas Britânicas foi extinta em várias regiões. Mas agora, sua população está se recuperando na Escócia e na Irlanda.

Há alguns anos, os ambientalistas discutem o efeito da marta-do-pinheiro-europeia sobre as populações de esquilo vermelho ou cinzento. Esses animais se alimentam dos vermelhos, mas parecem preferir os cinzentos, que são maiores.

Um estudo recente dos pesquisadores Emma Sheehy e Colin Lawton da Universidade Nacional da Irlanda, em Galway, confirmou essa teoria. Eles descobriram que em regiões irlandesas onde havia a presença da marta-do-pinheiro-europeia, a população de esquilos vermelhos prosperava, enquanto a de cinzentos era mais rara.

"A abundância da marta-do-pinheiro-europeia pode ser um fator fundamental para o sucesso ou fracasso do esquilo cinzento como espécie invasora", escrevem Sheehy e Lawton.

Mas o esquilo cinzento não é a única espécie que incomoda ambientalistas. No início do século 20, o vison norte-americano foi importado para o Reino Unido, para a criação de peles. Ele escapou do cativeiro e se espalhou pelas Ilhas Britânicas. Outras espécies exóticas invasoras são o lagostim norte-americano e o mexilhão zebra. Essas espécies também estão sendo caçadas para serem erradicadas.

Espécies invasoras no Brasil

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Marta-do-pinheiro-europeia se alimenta de esquilosFoto: picture-alliance/dpa

O problema de animais introduzido em ecossistemas diferentes que ameaçam o equilíbrio natural também ocorre no Brasil. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, já foram catalogadas no país mais de 500 espécies exóticas.

Algumas delas são consideradas pragas e prejudicam também a economia, como o mexilhão dourado. Esse molusco foi introduzido no Brasil na década de 1990, vindo em navios mercantes. No país, a espécie se proliferou rapidamente e entope tubulações de abastecimento de águas e filtros das usinas hidrelétricas.

Outro exemplo é a tilápia-do-nilo que chegou ao Brasil no século 20. Por se alimentar de plantas e animais, esse peixe causa a extinção de outras espécies. Até mesmo a jaca que se adaptou bem ao clima brasileiro é uma espécie exótica invasora.

A planta, originária da Índia e de outras regiões, foi trazida na época colonial e se dispersou pelo país. Em regiões de floresta onde há grande quantidade de jaqueiras, foi constatado o desaparecimento de mamíferos e insetos nativos.