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Agnelo: decepcionado com os escândalos do governo do PTFoto: Geraldo Hoffmann/DW

Para CNBB, confiança em Lula está abalada

Geraldo Hoffmann
27 de novembro de 2005

Em entrevista à DW-WORLD, o presidente da CNBB, cardeal Geraldo Majella Agnelo, cobra mais empenho do governo para realizar a reforma agrária, gerar empregos e combater a pobreza.

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"A economia brasileira cresce extraordinariamente, mas um terço da população vive na pobreza", denunciou o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, cardeal Geraldo Majella Agnelo, que participou neste domingo (27/11), em Limburg (Hessen), do lançamento de uma campanha de doações da Adveniat para o Brasil.

Em entrevista exclusiva à DW-WORLD, ele falou sobre a situação social no Brasil, os projetos de reforma agrária, o combate à pobreza e a decepção com os escândalos do governo comandado pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

DW-WORLD: O senhor declarou aqui na Alemanha que a economia brasileira cresce, mas não há espaço para a dignidade humana no país. O governo Lula falhou na área social?

Dom Geraldo Majella Agnelo: Ele tem explicado que era preciso fortalecer a economia, para depois fazer reformas sociais. Nós bispos achamos que a prioridade deve ser a realização das reformas sociais. Temos problemas que vêm de longa data, como reforma agrária, que gera tantas dificuldades no campo e nas cidades, que se tornam sempre mais cheias. É urgente a situação das pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza e que representam um terço da população do Brasil.

Repito: a economia vai bem, mas existe a falta de empregos, especialmente no Nordeste, e o salário mínimo ainda é muito pequeno. O governo também pretendeu fazer o Fome Zero, mas eu acho que é urgente que haja emprego, trabalho para todos. O governo Lula deu uma Bolsa Família em torno de 80 reais por mês, mas é preferível que dê emprego. Nós achamos que o emprego está acima de tudo e ele também estimula a própria população.

O que impede o governo Lula de fazer uma reforma agrária mais conseqüente do que seus antecessores?

É a tradicional questão da concentração da propriedade nas mãos de poucas pessoas, que não querem dividir de jeito nenhum com os que não têm nada e ficar apenas com o que é justo para a sua sobrevivência. Temos casos, por exemplo, de terras indígenas em Roraima, que mesmo depois de delimitadas pelo governo e esgotadas as medidas judiciais, são reivindicadas à força pelo homem branco.

Lula teve de fazer concessões aos latifundiários no Congresso e por isso a reforma agrária não avança?

Ele não implementou o plano apresentado pelo Plínio de Arruda Sampaio, um estrategista que já foi chamado por vários países para fazer projetos de reforma agrária. O projeto em execução não está tendo o avanço como nós gostaríamos de ver.

O senhor mencionou o Bolsa Família. Esse tipo de programa e também os projetos filantrópicos que a Igreja ajuda a realizar são uma solução para combater a fome?

Eu penso que não.

E qual é a solução?

É promoção, não assistência. Porque dar uma bolsa a um desempregado é um estímulo para que ele permaneça só recebendo e não fazendo esforço, não trabalhando.

Leia a seguir: Como a CNBB avalia a corrupção no governo Lula.

O Bolsa Família ou Mensalão ainda têm futuro, depois dos escândalos de corrupção?

Olha, a corrupção é muito atraente. É preciso uma constante vigilância, porque por qualquer coisa se paga uma propina, se estimula alguém a não cumprir o seu dever, se compra a dispensa de um imposto, de um pagamento obrigatório. Não é o governo que está dispensando, é o intermediário que está fazendo o que não lhe é devido.

A corrupção no meio político é muito grande. As grandes acusações deste ano atingiram todos os partidos, especialmente o PT do presidente Lula. A grande expectativa e confiança que o povo tinha no governo Lula está abalada. Ele pessoalmente ainda tem uma grande aceitação, mas a eleição só será em outubro do ano que vem. Se vai por este caminho, será difícil também para ele a reeleição.

A CNBB apóia a reeleição de Lula e vai indicá-lo como candidato preferido aos seus fiéis?

Nós não indicamos ninguém. Se no tempo da ditadura no Brasil a CNBB foi muito independente e era a única que falava num período em que não se podia falar, agora, nos governos democráticos ou que estão a caminho da democracia, estamos dispostos a dar todo nosso apoio ao que é bom. Mas o que é contra a moral e a ética, evidentemente não podemos aceitar. Nós discutiremos nossas reivindicações com o presidente Lula e seus ministros, muitos dos quais têm bons contatos conosco.

O senhor chances de Lula ser reeleito?

Se a eleição fosse hoje, eu acredito que ele seria reeleito, mas para daqui a um ano eu não confirmo essa possibilidade.

O senhor acredita que Lula é completamente inocente, que ele realmente não sabia dos casos de corrupção em seu governo?

Eu acredito que ele pessoalmente não é uma pessoa corrupta. Agora, eu acho que ele, como presidente, deveria acompanhar muito de perto e estar sempre atento aos seus ministros, para que não huvesse corrupção no seu governo.

Os escândalos de corrupção e, além disso, a proposta de descriminalização do aborto, abalaram as relações aparentemente amistosas entre a Igreja Católica e o governo Lula ?

Isso tudo complica as relações com o atual governo. Há setores do governo que promovem um tratamento aético, como é o caso da proposta de despenalização do aborto desde a concepção até o último dia de gestação. Nós queremos que o governo Lula cumpra sua promessa de não despenalizar o aborto e que, em vez disso, promova um programa pela vida.

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