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Foto: picture-alliance/Zuma/Soma/O. Marques
CiênciaGlobal

Pandemia tornou cientistas influenciadores nas redes

18 de dezembro de 2020

Levantamento mostra quais foram os principais divulgadores científicos do Twitter em 2020 no Brasil. Eles relatam desgaste e desafio de lidar com negacionismo e ataques.

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Com 1,1 milhão de seguidores no Twitter, quase 1 milhão no Instagram, 1,31 milhão de inscritos no canal do YouTube que leva seu nome e mais de 3 milhões em outro que ele também comanda, Atila Iamarino é uma celebridade.

Mas ele não é ator, não é jogador de futebol. Biólogo, doutor em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP) e com dois pós-doutorados, um deles pela Universidade Yale, nos Estados Unidos, ele se tornou famoso como divulgador científico.

Iamarino encabeça um ranking dos principais influenciadores brasileiros sobre a covid-19, de acordo com levantamento divulgado nesta semana como resultado de análise desenvolvida pelo monitor Science Pulse e pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD).

O relatório, produzido depois de estudo a partir da rede de interações de cada influenciador, foi feito graças a uma base de dados com 213.469 postagens entre os meses de junho de outubro escritas por 1,2 mil cientistas, formadores de opinião, especialistas e organizações científicas sobre a pandemia do coronavírus. Autoridade, articulação e popularidade foram avaliadas.

O fenômeno Atila

O biólogo tem experiência nos meios digitais. Ele começou um blog de divulgação científica em 2007, mas conta que a visibilidade aumentou neste ano.

"Isso está ficando ainda mais importante porque o governo brasileiro é pautado por redes sociais, políticos têm sido cada vez mais eleitos por redes sociais, o presidente faz lives o tempo todo", diz.

"Hoje em dia, pelo menos dentro da mentalidade brasileira atual, se um assunto não é importante em redes sociais, ele não é importante e ponto. Deixou de ser só educação do público. Estar em redes sociais passou a ser questão de sobrevivência", complementa.

A segunda posição do ranking é ocupada pela jornalista Luiza Caires, editora de ciências do Jornal da USP.

Caires avalia o trabalho nas redes sociais como "uma ferramenta extremamente relevante", e algo "profissional de comunicação, embora muitos tenham se dado naturalmente bem na tentativa e erro, e todos tenhamos aprendido com isso".

"Para ter ‘existência' na vida das pessoas, a ciência tem de se fazer existir. Isto é, estar presente. Inclusive, e cada vez mais, nas redes sociais”, afirma.

O efeito covid

O atípico ano de 2020, com a pandemia, impulsionou a voz dos divulgadores científicos. Coordenador do Science Pulse, o jornalista Sérgio Spagnuolo acredita que foi "a necessidade de ter mais informações científicas" que contribuiu para a valorização desse trabalho nas redes sociais.

"Especialmente no Twitter, que é uma rede menor, mas que costuma pautar a imprensa, os políticos e também os debates em outras redes", observa.

Outro listado entre os mais importantes influenciadores, o médico Marcio Bittencourt, professor da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, conta que começou a fazer divulgação científica por acaso.

"Eu usava o Twitter para discussão científica com colegas de fora do Brasil”, recorda. "Com o tamanho que a pandemia tomou, acabei me envolvendo em algumas análises epidemiológicas e comecei a comentar aspectos científicos que podiam ter impacto maior na sociedade. É um extra que eu faço, uma coisa adicional que faço para auxiliar na divulgação dos dados.”

Foi semelhante ao que aconteceu com o médico Otavio Ranzani, pesquisador do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) e da USP, também entre os mais relevantes do ranking.

"Muitas vezes a ciência está longe da população”, comenta. "Temas de saúde pública e epidemiologia são obrigatórios, na minha opinião. Daí que com a pandemia, me senti propulsionado a compartilhar meu conhecimento e entendimento de algo que estudei muito e com o qual trabalho no dia a dia.”

Polarização e negacionismo

Mas nem toda experiência é positiva. No entendimento dos influenciadores, na mesma medida que a pandemia deu visibilidade à divulgação científica, aumentou também o coro dos negacionistas. E a polarização da sociedade brasileira acaba resvalando no trabalho de quem só quer publicar fatos científicos.

"Cientista nenhum é treinado para enfrentar negacionismo, mentalidade de grupo, politização e partidarização. Isso é muito complicado", desabafa Iamarino.

Outra influenciadora de destaque, a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise Covid-19, avalia que "muitas pessoas acabaram tomando a ciência como resposta a um desses polos da sociedade."

"Para a ciência, a partidarização não faz sentido nenhum. A ciência é apartidária”, enfatiza ela. "Mas não é apolítica. Pelo contrário. Precisamos de uma política baseada em evidências.”

Vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas, nos Estados Unidos, a médica Denise Garrett conta que sofreu várias vezes retaliação e assédio por parte de usuários das redes sociais. "Inclusive por outros médicos, como o Osmar Terra [deputado federal e ex-ministro da Cidadania do governo Bolsonaro] e um grupo denominado ‘Médicos pela Liberdade'”, relata.

Iamarino diz que muitas vezes esses ataques são "claramente organizados” e executados por "redes de robôs”. Em geral, ele afirma que prefere não rebater esse tipo de discurso, para não promover ainda mais a onda negacionista.

"Em certos momentos da pandemia, os ataques on-line foram muito intensos. Já recebi coisas completamente fora de contexto, outros com palavrões, seja de humanos ou robôs”, completa, por sua vez, o médico Ranzani.

Os influenciadores notam que essas ondas de assédio virtual são sempre fortalecidas após episódios pontuais no decorrer da crise. Por exemplo: uma boa notícia relacionada à vacina Coronavac, desenvolvida pela China e frequentemente desacreditada pelo alto escalão do governo federal brasileiro, costuma desencadear reações com argumentos antivacina. Posts comentando estudos científicos que demonstram a ineficácia do medicamento hidroxicloroquina no tratamento de covid-19, ao contrário do que defende o presidente Bolsonaro, também são exemplos de gatilhos para essas retaliações.

Para Spagnuolo, ainda é preciso frisar que informação científica é diferente de posicionamento político. "Claro, há negacionistas e pessoas que tentam levar a ciência para o campo político, mas em geral a sociedade consegue enxergar o valor da ciência para nossas vidas, especialmente agora que precisamos sair dessa pandemia o quanto antes”, pontua.

"Nesse sentido, os divulgadores de ciência e influenciadores científicos assumiram um papel muito importante de traduzir estudos densos e mensagens cifradas da ciência para uma forma na qual a maioria de nós consegue compreender”, conclui.