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Ásia impõe medidas drásticas contra escassez de combustíveis

7 de abril de 2026

Em meio aos efeitos do bloqueio de Ormuz, vários países da Ásia vêm reduzindo expediente, estimulando trabalho remoto e até criando recessos extras e impondo restrições a eventos sociais para reduzir consumo de energia.

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Pessoas fazem filas com botijões de gás na Índia
Dependentes de importação de combustíveis do Oriente Médio, países asiáticos como a Índia passam por crise de abastecimentoFoto: Sunil Ghosh/Hindustan Times/IMAGO

Vários países asiáticos vêm impondo medidas drásticas para contornar os efeitos da crise global de energia provocada pela guerra no Oriente Médio, como redução da jornada de trabalho em escritórios e centros comerciais, estímulo ao home office, restrições a eventos sociais e até a decretação de feriados extras e tarifo zero no transporte público.

O objetivo é reduzir o consumo de combustíveis, de residências até companhias aéreas.

Boa parte das medidas está relacionada ao fechamento do Estreito de Ormuz. Cerca de 80% do petróleo e 90% do gás natural exportados pela via marítima vão para a Ásia, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), tornando a região particularmente vulnerável a choques ligados ao fornecimento de combustíveis fósseis.

Economia de casa ao trabalho 

Na Índia, medidas emergenciais foram acionadas para desviar suprimentos de gás de setores não prioritários para usuários essenciais, enquanto refinarias foram orientadas a aumentar a produção de gás liquefeito de petróleo. 

O governo também reduziu impostos especiais sobre a gasolina e o diesel e impôs taxas extraordinárias sobre o combustível de aviação e as exportações de diesel. 

Já no Paquistão, mercados e shoppings agora fecham mais cedo, enquanto casamentos estão proibidos depois das 22h. O governo anunciou tarifa zero no transporte público durante um mês, diante do aumento do preço dos combustíveis e do risco de escassez.

Também foi reduzida para quatro dias a semana de trabalho dos órgãos governamentais, enquanto todos os escritórios devem operar com apenas 50% do quadro de funcionários presencialmente. Jogos do popular críquete acontecem, por sua vez, sem público. 

De forma similar, escritórios, bancos, repartições públicas e shoppings de Bangladesh devem reduzir o consumo de energia com horários de funcionamento reduzidos. No Nepal, há um racionamento de gás de cozinha em vigor, e o governo coloca em prática esforços para converter veículos movidos a gasolina e diesel em elétricos.

Redução de consumo

O Japão também depende fortemente da importação de combustíveis, em particular vindos do Oriente Médio. Em março, o país liberou reservas de petróleo para amenizar preocupações com o abastecimento intensificadas pela guerra no Irã. 

A última medida semelhante acontecera em 2022, quando a Rússia iniciou a invasão em grande escala da Ucrânia

Segundo a imprensa japonesa, o governo estuda medidas, que poderão incluir um pedido para que a população reduza o consumo de energia. 

O governo da Tailândia já tem adotado essa estratégia, e o primeiro-ministro do país pediu publicamente que a população trabalhe de casa, prefira o transporte público ou compartilhe carros.

O governo tailandês também pediu a redução do uso de aparalhos de ar-condicionado e afirmou considerar o fechamento dos postos de gasolina das 22h às 5h, para garantir abastecimento interno suficiente. "Um centro de monitoramento acompanhará a situação no Oriente Médio e gerenciará o uso de combustível," disse o gabinete do primeiro-ministro, Anutin Charnvirakul.

Recessos extras

No Sri Lanka, outro país que depende fortemente da importação e petróleo e que já enfrentava uma crise política e econômica antes da guerra, o governo impôs uma série de medidas para conter o consumo de energia, incluindo a declaração de recesso no serviço publico em todas as quartas-feiras.

"Devemos nos preparar para o pior, mas esperar pelo melhor", disse o presidente Anura Kumara Dissanayake ao anunciar a medida.

O Nepal também adotou medida similar, extendendo o período de fim de semana para dois dias, passando a incluir também o domingo, que até então era um dia de trabalho.

Restrições para aviação

As companhias aéreas, enquanto isso, enfrentam dificuldades crescentes com o abastecimento irregular de querosene de aviação. 

Em países dependentes de importações, como Vietnã, Mianmar e Paquistão, as empresas já operam em modo de crise, inclusive cancelando voos, embarcando combustível extra ou realizando paradas técnicas para reabastecimento devido à oferta limitada de combustível.

"Nas minhas conversas com companhias aéreas, percebo que elas estão muito preocupadas com o futuro", disse Shukor Yusof, fundador da consultoria de aviação Endau Analytics, à agência de notícias Reuters. "Porque não sabemos quando a guerra vai terminar nem quando a cadeia de suprimentos será restabelecida." 

China e Tailândia já suspenderam exportações de querosene, enquanto a Coreia do Sul limitou os volumes. Também há restrições em Mianmar, no Paquistão e no Taiti. Pilotos estão sendo instruídos a trazer do exterior a quantidade máxima possível de combustível.

A companhia aérea de baixo custo AirAsia X, por exemplo, está embarcando combustível adicional na Malásia antes de voar para aeroportos no Vietnã, segundo o CEO Bo Lingam. Já a Vietnam Airlines cancelou 23 voos domésticos por semana para economizar combustível, segundo a autoridade de aviação do país. A Batik Air Malaysia reduziu sua capacidade doméstica em 36%. 

Especialistas do setor estimam que os cancelamentos de voos reduzam a demanda na Ásia em abril em apenas cerca de 50 mil a 100 mil barris por dia. Mas, segundo cálculos da Reuters, o gargalo de petróleo bruto no Oriente Médio reduz a produção de querosene na região Ásia-Pacífico em pelo menos 400 mil barris por dia.

Pressão sobre agricultura

Agricultores das Filipinas como Romeo Wagayan ficaram praticamente sem opção a não ser deixar seus vegetais estragarem no campo, em vez de vendê-los com prejuízo. A alta dos preços do petróleo eleva os custos de colheita, mão de obra e transporte.

"Não há nada que possamos fazer", disse Wagayan, agricultor de hortaliças de 57 anos, na província montanhosa de Benguet, no norte das Filipinas.

"Se colhêssemos, nossas perdas só aumentariam por causa dos custos com mão de obra, transporte e embalagem. Não ganhamos nada com isso. Por isso decidimos simplesmente não colher."

A experiência de Wagayan reflete as dificuldades enfrentadas por muitos agricultores das regiões montanhosas, segundo Agot Balanoy, assessor do centro de comercialização de vegetais de La Trinidad. Ele afirmou que diversos produtores estão interrompendo as colheitas à medida que compradores recuam diante da demanda fraca e dos custos elevados.

Alguns compradores estão cancelando ou limitando aquisições, o que reflete uma mudança no comportamento do consumidor, segundo Balanoy. Famílias pressionadas pela inflação em alta reduzem o consumo de vegetais e optam por alternativas mais baratas, como macarrão instantâneo.

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