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Os riscos da restrição dos EUA às exportações da Anthropic

Nik Martin
20 de junho de 2026

Governo Trump impõe bloqueio ao acesso estrangeiro aos modelos de IA mais recentes da empresa devido a preocupações com segurança. Especialistas alertam que decisão pode criar um precedente perigoso.

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Logo da Anthropic em tela de smartphone
Restrições de Washington vieram dias depois de a Anthropic apresentar planos para sua entrada no mercado de açõesFoto: Jonathan Raa/NurPhoto/picture alliance

Executivos do Vale do Silício e formuladores de políticas globais estão perplexos com a mais recente repressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à empresa de inteligência artificial (IA) Anthropic, criadora dos poderosos chatbots Claude.

Apenas alguns dias após o lançamento de suas atualizações mais poderosas – o Claude Fable 5, e o ainda mais poderoso Mythos 5 –, o governo Trump decidiu em 12 de junho impor rígidos controles de exportação às ferramentas da Anthropic.

Washington citou riscos à segurança nacional decorrentes do chamado jailbreaking – comandos inteligentes que burlam as salvaguardas de segurança da IA. No entanto, a gigante de tecnologia, sediada em São Francisco, afirmou que esses riscos são menores e exagerados e também estão presentes nas plataformas de IA concorrentes.

Mas com o Departamento de Comércio dos EUA efetivamente proibindo cidadãos estrangeiros em todo o mundo de usar os modelos, incluindo a própria equipe da Anthropic, a empresa não teve muita escolha a não ser suspender completamente o acesso global.

A medida veio dias depois de a Anthropic apresentar seus planos de uma oferta pública inicial (IPO) visando sua entrada no mercado de ações, provavelmente no segundo semestre do ano, na esperança de arrecadar dezenas de bilhões de dólares de investidores.

Especialistas e aliados perplexos com "botão de desligar"

A proibição de exportação atraiu fortes críticas do setor de tecnologia.

Em carta aberta publicada neste domingo (14/06), um grupo de mais de 170 executivos de tecnologia alertou que as restrições "colocavam em risco a liderança americana em IA", privando os defensores da segurança cibernética de suas ferramentas mais poderosas, enquanto as capacidades da China avançam rapidamente.

IA capaz de invadir sistemas acende alerta no setor de TI

Na cúpula dos países do G7 nesta semana em Evian, na França, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, pediu acesso "amplo e inclusivo" aos modelos de IA dos EUA, enquanto o Reino Unido solicitou uma exceção à proibição, que foi rejeitada.

Enquanto isso, alguns legisladores europeus descreveram a capacidade de Washington de bloquear o acesso como um "botão de desligar" que reforçou a necessidade de a União Europeia (UE) garantir sua própria soberania em IA.

"Não compraremos nenhum modelo fabricado por essas empresas se, da noite para o dia, for possível simplesmente desligar o interruptor", alertou o presidente francês, Emmanuel Macron, nesta quarta-feira.

Medidas expõem lacunas regulatórias dos EUA

Risto Uuk, chefe de política e pesquisa europeia do instituto Future of Life, descreveu a medida americana como "precipitada e desinformada" e pediu que Washington estabeleça regulamentações de IA mais claras e rigorosas, semelhantes às que estão sendo implementadas pela UE em agosto.

A segurança da IA "não pode depender da boa vontade de uma única empresa em uma determinada semana", disse Uuk à DW.

Washington normalmente utiliza táticas de guerra jurídica – ferramentas legais como controles de exportação – contra rivais estrangeiros, como China e Rússia.

No entanto, especialistas em tecnologia e formuladores de políticas alertam que visar uma empresa americana como a Anthropic estabelece um novo e perigoso precedente, pois corre o risco de minar a confiança dos investidores no boom da IA, sufocar a inovação e enfraquecer a vantagem tecnológica geral dos EUA.

As medidas também se baseiam em uma disputa de longa data entre a Anthropic e o governo Trump.

Anthropic fez inimigos no Pentágono

No início deste ano, a Anthropic entrou em rota de colisão com o Departamento de Defesa dos EUA após se recusar a suspender restrições de longa data aos seus modelos de IA para vigilância em massa de cidadãos americanos ou sistemas de armas letais totalmente autônomos.

CEO da Anthropic, Dario Amodei, durante reunião do G7
CEO da Anthropic, Dario Amodei, pediu aos líderes do G7 que priorizem a cooperação ao invés de ações unilaterais Foto: Dominique Jacovides-Pool/SIPA/picture alliance

O Pentágono classificou a Anthropic como um "risco para a cadeia de suprimentos" e ameaçou cancelar contratos no valor de centenas de milhões de dólares, o que levou a empresa a entrar com uma ação judicial.

A Anthropic construiu uma reputação de estar entre as empresas mais cautelosas na corrida da IA de ponta, adotando uma abordagem que prioriza a segurança, na qual os modelos são treinados para autocrítica com base em um conjunto de princípios escritos, conhecido como IA Constitucional.

Seria a empresa excessivamente cautelosa?

O pesquisador de IA Pedro Domingos argumenta que a Anthropic, e não o governo Trump, é culpada de um excesso perigoso, com a empresa se colocando como uma autoridade moral autoproclamada.

"Eles realmente acreditam que a IA é um perigo mortal", disse Domingos, professor de ciência da computação da Universidade de Washington, à DW. "Eles também acreditam que deveriam governar o mundo."

"Muitos dos problemas deles com o governo vem do fato de que eles parecem usurpar para si mesmos as funções de um governo", acrescentou.

Nenhuma dessas controvérsias é um bom presságio para os planos ambiciosos da Anthropic de abrir seu capital na bolsa de valores.

Planos de IPO da Anthropic enfrentam dificuldades

Os banqueiros acreditam que a empresa poderia levantar de 30 a 60 bilhões de dólares (entre R$ 154 e R$ 308 bilhões), tornando-se uma das maiores IPOs de todos os tempos. A Anthropic foi recentemente avaliada em quase um trilhão de dólares e gera atualmente uma receita estimada em quase 47 bilhões de dólares por ano.

No entanto, ser alvo da Casa Branca, enfrentar proibições de exportação de seus principais modelos e perder grandes contratos governamentais provavelmente afetarão o humor dos investidores.

Tela de smartphone com ícones dos aplicativos Claude, ChatGPT, Gemini e Grok
Wall Street espera que Anthropic e ChatGPT possam replicar entusiasmo em torno da IPO da SpaceX de Elon Musk Foto: Matteo Della Torre/NurPhoto/picture alliance

Wall Street espera que a Anthropic – juntamente com uma possível listagem da OpenAI, criadora do ChatGPT – possa replicar o entusiasmo extraordinário em torno da IPO da SpaceXde Elon Musk no início deste mês, que arrecadou 75 bilhões de dólares.

De acordo com o especialista em IPOs Jay Ritter, o mercado acredita que as restrições de acesso estrangeiro aos modelos de IA de ponta da Anthropic serão suspensas em breve, o que significa que o impasse atual não afastará os investidores.

Citando a plataforma de previsão Kalshi, o professor da Universidade da Flórida disse que havia 85% de chance de a Anthropic anunciar um IPO antes de 1º de novembro, "uma porcentagem que não mudou muito na última semana".

"Ainda existe um enorme entusiasmo nos mercados público e privado por empresas de IA", disse Ritter à DW. "A Anthropic desenvolveu alguns modelos realmente bons pelos quais os clientes estão dispostos a pagar."

Em uma crítica contundente à repressão dos EUA, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, disse aos líderes esta semana na cúpula do G7 para priorizarem a cooperação internacional na regulamentação da IA em vez de ações unilaterais, instando-os a "resistir à tentação da fragmentação".