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Opinião: Ultradireita, o desastre da democracia alemã

Deutsche Welle Pfeifer Hans Portrait
Hans Pfeifer
19 de dezembro de 2021

Os últimos anos mostraram do que a AfD é capaz. E, mesmo assim, os outros partidos parecem não perceber o perigo. Em vez de temer perda de votos, eles deveriam buscar o confronto, opina Hans Pfeifer.

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Deutschland | AfD Parteitag in Dresden
Foto: Jens Schlueter/AFP/Getty Images

O partido A Alternativa para a Alemanha (AfD) foi estabelecido há oito anos, em 2013. Desde o início, com foco em mudar o país através do populismo de direita. Lançada como uma campanha contra a União Europeia e o euro, a legenda sempre esteve associada a agitadores racistas e nacionalistas.

No entanto - ou talvez exatamente por isso - o partido continua a ter sucesso. Hoje, ele tem bancada no Parlamento alemão, em todos os legislativos estaduais e em vários a nível municipal. Nos estados do leste, se tornou uma força política cosiderável.

Seu sucesso lhe rendeu milhões em subsídios públicos concedidos aos partidos políticos, mas, mais importante ainda, trouxe influência política. Na última semana, a legenda teve a chance de concorrer à presidência da Comissão de Assuntos Internos do Parlamento, um comitê-chave. É o órgão responsável por políticas de refúgio e asilo, combate ao extremismo de direita e que supervisiona o trabalho dos serviços de inteligência.

Foto retrato de Hans. Ele veste camisa e blazer azul escuro e olha para a câmera. O fundo é cinza.
Jornalista da DW Hans PfeiferFoto: DW/B. Geilert

O presidente da comissão funciona como o interlocutor do Parlamento com os órgãos de segurança. Custa-se a acreditar que este posto realmente tenha sido oferecido a um legislador de um partido que é descrito como anticonstitucional pelas mesmas agências que supervisionaria. Um partido que ainda tem membros que aderem às ideias de Adolf Hitler. Um partido que abriga vários funcionários eleitos que não podem mais usar uniforme policial ou militar, porque sua lealdade ao Estado está em questão. Grotesco – e tudo, menos a expressão de uma democracia robusta.

Os partidos eleitos têm direitos, independentemente de sua ideologia: essa é uma das regras do jogo da democracia. Ela se estende até à AfD. Mas são os políticos que decidem quem deve ocupar certos cargos. Os partidos maiores no Parlamento poderiam ter escolhido presidir eles mesmos o comitê.

Eles aparentemente nem sequer tentaram fazer isso. No final, 40 legisladores rejeitaram o candidato da AfD para o cargo. Isso também é um direito deles, mas oferecerá ao partido mais munições para se posicionar como vítima.

O sucesso da AfD é o fracasso dos partidos democráticos

Os partidos da coalizão governista - os social-democratas, os verdes e os liberais - assim como os partidos conservadores na oposição aparentemente preferiram se concentrar em outras chefias de comissão. Isso é chocante. O ódio e o incitamento à violência não são novidade na Alemanha.

Nancy Faeser, a nova ministra do Interior, disse com razão que o extremismo de direita é a maior ameaça que o país enfrenta. Assassinatos de extrema direita, centenas de ataques a refugiados, incidentes diários de antissemitismo: as estatísticas são alarmantes. Os protestos cada vez mais radicais da covid-19 mostram como o extremismo político é explosivo. Mas os partidos democráticos da Alemanha estão vacilando e não estão à altura do desafio.

No debate sobre a AfD, frequentemente se acusa quem usa argumentos contra o partido de banalizarem o nazismo. Eles dizem que ser de direita não necessariamente faz de alguém nazista. Mas o partido flerta com a ideologia nacional-socialista, com o nacionalismo de direita e a hostilidade à democracia. Este é um fato, confirmado repetidas vezes por pesquisadores e jornalistas. E pelo próprio partido, surpreendentemente.

É por isso que é tão importante que outros partidos políticos não priorizem suas próprias perspectivas quando lidam com a AfD. Eles não devem ceder ao partido por medo de perder votos. Pelo contrário, eles devem buscar o confronto. Trata-se da sobrevivência da democracia. 

Se um de seus membros acabasse por ser eleito, a AfD sem dúvida se divertiria em mostrar sua posição como presidente da Comissão de Assuntos Internos. Faz parte de sua estratégia mais grandiosa minimizar a extensão de sua radicalidade sob o pretexto de responsabilidade política.

Os sucessos eleitorais do partido já mudaram a Alemanha, particularmente nas regiões orientais, onde muitos pequenos clubes e associações lamentam o fato de que o ódio e o incitamento à violência estão aumentando na vida cotidiana. É difícil ainda avaliar a extensão real dos prejuízos dos últimos oito anos, mas já é claro: esse tempo foi suficiente para lançar as bases para danos enormes.

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O texto reflete a opinião pessoal do autor, e não necessariamente da DW.