Opinião: Sucessor não é diferente de Mugabe | Notícias internacionais e análises | DW | 26.11.2017
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África

Opinião: Sucessor não é diferente de Mugabe

Milhares saúdam na capital Harare o novo presidente do Zimbábue, Emmerson Mnangagwa. Mas "o Crocodilo" não é melhor do que seu antecessor, e está longe de significar mudança, opina o jornalista Ludger Schadomsky.

Apelido do novo presidente do Zimbábue é Crocodilo – totem e tabu em diferentes regiões africanas

Apelido do novo presidente do Zimbábue é "Crocodilo" – totem e tabu em diferentes regiões africanas

No Zimbábue, os coloridos kitenges – vestimenta semelhante ao sarong, típica do Centro e Oeste da África – sempre refletem um pouco a paisagem política do país. Assim, nos últimos 37 anos, seus estampados geralmente traziam o retrato do presidente Robert Mugabe.

Depois de o idoso autocrata ter sido definitivamente varrido do cargo, porém, últimas semanas de novembro já se vê, aqui e ali, o rosto do novo homem forte em Harare: o ex-vice-presidente Emmerson Mnangagwa, de 75 anos. No entanto, por mais sedutor que seja o simbolismo, o novo rosto do Zimbábue está longe de ser um emblema de liberação, e muito menos de reconciliação nacional.

Ludger Schadomsky é jornalista do departamento da DW para a África

Ludger Schadomsky é jornalista do departamento da DW para a África

Não é acaso o apelido de Mnangagwa ser "o Crocodilo". Fiel a Mugabe, ele sempre se encarregou do trabalho sujo para seu mestre; primeiro como seu guarda-costas, nos anos 70, depois como chefe do serviço secreto, e por último como brutal vice. O assassinato de milhares de oposicionistas e ativistas pesa nas costas da suposta nova esperança zimbabuense – da mesma forma que o massacre de fazendeiros brancos.

Não menos importante é o fato de Mnangagwa ser visto como o mandante da sangrenta repressão ao levante do grupo étnico dos ndebele contra Mugabe e seus seguidores shona, matando milhares na década de 80. É difícil imaginar que os ndebele, no empobrecido sul do país, venham a estender a mão conciliatória ao novo presidente.

Mnangagwa é considerado menos ideologicamente armado do que Mugabe, e otimistas esperam que, com ele, uma nova real-política adentre a State House, arrancando o Zimbábue do isolamento e reposicionando-o na comunidade internacional. O novo presidente acenou nessa direção após seu empossamento, na sexta-feira (24/11).

Até esse ponto, é preciso reconhecer que, nestes agitados tempos de revolução, Emmerson Mnangagwa seria o homem certo no lugar certo, pois conhece o funcionamento do sistema como nenhum outro. No entanto quando, por estes dias, se escutam os zimbabuenses bradarem "Chinja!" (mudança), eles não podem estar se referindo ao líder setuagenário, com um currículo na política e no serviço secreto tão intimamente ligado ao velho sistema de Mugabe.

O crocodilo é venerado como totem em algumas regiões africanas, em outras é temido. Da mesma forma, os zimbabuenses se veem divididos entre dois polos, nestas horas e dias. O que é certo é que, o mais tardar na eleição de 2018, o caçador de tocaia Mnangagwa deve abdicar, para dar lugar à verdadeira mudança.

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