Opinião: Sociedade civil desafia o Kremlin | Notícias internacionais e análises | DW | 11.08.2019
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Opinião

Opinião: Sociedade civil desafia o Kremlin

Com economia estagnada, preços subindo e reforma da Previdência irritando milhões de russos, reação violenta a protestos em Moscou mostra que governo está cada vez mais longe da população, opina Miodrag Soric.

Russland Moskau Verhaftung bei Protesten (picture-alliance/dpa/TASS/S. Savostyanov)

Polícia deteve vários manifestantes na capital russa

Eles não se deixam intimidar, não por ameaças, não por bastões da polícia, não por prisões. Dezenas de milhares compareceram à manifestação no centro de Moscou neste sábado (10/08) e exigiram eleições locais justas, liberdade para os presos políticos e a renúncia do presidente Vladimir Putin. Foi a maior manifestação em anos – no meio do período de férias, quando muitos russos passam seu tempo livre em sua dacha. A sociedade civil russa desafia o Kremlin.

Superficialmente, trata-se de eleições locais comparativamente insignificantes. Na realidade, há uma grande insatisfação com toda a liderança estatal. Isso também é comprovado por pesquisas, que apontam que a confiança no chefe de Estado atingiu uma baixa histórica.

Por muitas razões: a economia está estagnada, os preços sobem, a corrupção atingiu proporções alarmantes, a reforma da Previdência irrita milhões de pessoas. Mais e mais russos estão insatisfeitos – mas o governo se recusa a aceitar uma alternativa política. Nem mesmo em nível local.

Isso leva dezenas de milhares de pessoas para a rua. Elas são destemidas. E isso assusta o poder, que reage de forma desesperada. Reiteradamente, o presidente e o primeiro-ministro prometem melhorias, mais dinheiro, salários mais altos. Na realidade, no entanto, o padrão de vida dos russos vem caindo há cinco anos. Todo mundo sabe disso, eles sentem isso em seus bolsos.

No final, o que está em jogo é mais do que apenas bens materiais. Muitos russos comuns se sentem deixados para trás, não mais compreendidos, não mais percebidos ou até mesmo não mais representados pelo governo. Isso também ficou claro na manifestação.

Ela aconteceu num trecho de rua isolada por prédios de escritórios e forças de segurança, longe dos edifícios governamentais, longe da vida vibrante do centro. Por isso, uma parcela dos manifestantes marchou, após a parte oficial dos protestos, em  direção à administração presidencial no centro da cidade. Lá, eles foram abordados por centenas de forças de segurança, que prenderam muitos daqueles que protestavam.

Entre os manifestantes estavam muitos jovens de mentalidade liberal que querem mais liberdade e democracia no estilo ocidental; mas também moscovitas mais velhos. Eles carregavam bandeiras comunistas. Eles ainda choram de nostalgia pela era soviética, quando – segundo a sensação deles – o Estado cuidava dos interesses da população.

Antigos comunistas ou jovens democratas – ambos estão ligados pela certeza de não serem mais levados a sério por esse governo.

Quanto mais tempo o presidente Putin continuar no cargo, maior será a distância entre o governo e os governados. O Kremlin usará cada vez mais policiais, controlará cada vez mais a imprensa e perseguirá cada vez mais os dissidentes para permanecer no poder.

Perspectivas tristes.

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