Opinião: Sobre a ainda distante independência da Escócia | Notícias internacionais e análises | DW | 10.05.2021

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Opinião

Opinião: Sobre a ainda distante independência da Escócia

O partido pró-independência escocesa obteve uma sonora vitória eleitoral. E sua líder, Nicola Sturgeon, segue popular. Mas isso ainda não significa que uma separação do Reino Unido acontecerá, opina Elliot Douglas.

A eleição de domingo (09/05) na Escócia transcorreu como o previsto: o Partido Nacional Escocês (SNP) saiu com a maior bancada no Parlamento em Edimburgo e manteve a força que possui desde 2007. A legenda ficou apenas a uma cadeira de obter a maioria absoluta na Casa, num sistema proporcional projetado justamente para evitar maiorias. Mas os verdes, que na Escócia são pró-independência, ganharam oito cadeiras. Ou seja: o Parlamento escocês tem hoje a maioria mais ampla da história a favor da separação do Reino Unido.

Os próximos passos para os nacionalistas pró-independência, porém, continuam obscuros. O resultado ainda não deu luz verde à primeira-ministra Nicola Sturgeon para afirmar que ela tem um mandato para exigir uma Escócia independente.

O partido dela, o SNP, prometeu que fará pressão para um segundo referendo sobre a independência assim que for possível, após a pandemia. A legitimidade de tal referendo continua sendo um ponto de interrogação, especialmente se for realizado sem a aprovação do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson – ele já disse que não dará seu aval, independentemente da circunstância.

E, apesar da vitória do SNP, não há razão para acreditar que tal referendo seguirá seu caminho. As últimas pesquisas mostram um apoio à independência que gira em torno de 50% – uma maioria pouco confortável.

Falta de alternativa

A Escócia, que faz parte do Reino Unido há mais de 300 anos e tem grande parte de sua política econômica e externa decidida em Londres, ganhou um Parlamento descentralizado em 1997 – uma concessão que muitos esperavam que poderia aplacar o sentimento nacionalista. Mas o SNP prosperou em Edimburgo, primeiro sob seu líder de longa data Alex Salmond e depois sob sua antiga aliada Nicola Sturgeon, que lidera o partido e a Escócia desde 2014.

Foi também em 2014 que o partido realizou o primeiro referendo sobre a independência escocesa, com vitória de 55% a 45% para os unionistas – o movimento pró-permanência no Reino Unido. Para muitos adversários da independência, esta é a principal razão pela qual qualquer segundo referendo seria desnecessário: os nacionalistas tiveram sua chance, e a desperdiçaram.

Mas o cenário político britânico viveu algumas mudanças nos últimos sete anos. Desde então, houve três eleições gerais no Reino Unido, onde o SNP teve um desempenho recorde; o Reino Unido deixou a União Europeia, uma decisão a qual a maioria na Escócia se opôs; e, é claro, houve a pandemia do coronavírus, que muitas pessoas – com ou sem razão – sentem que está sendo tratada melhor no norte da Grã-Bretanha.

Através destes anos turbulentos, o SNP – que ainda era relativamente novo no poder quando o último referendo foi realizado – conseguiu encontrar seu nicho como o único partido progressista viável, anti-Brexit e amplamente pragmático na Escócia.

A "rainha Nicola"

Sturgeon tem níveis de popularidade de dar inveja a outros líderes no Reino Unido e em todo o mundo. Boris Johnson, por exemplo, é consciente de sua falta de aprovação na Escócia e sequer fez uma aparição por lá durante a campanha eleitoral.

Nos últimos meses, a imagem de Sturgeon foi abalada por um escândalo envolvendo a forma como lidou com as alegações de assédio sexual contra seu antecessor e aliado de longa data Alex Salmond. Mas a gestão da crise da covid-19 permitiu que ela assumisse um papel mais presidencial na Escócia: ela ganhou uma reputação em todo o espectro político como uma pragmatista.

Sua formação de classe média em Glasgow também a coloca em forte oposição aos homens de educação privada que, em sua maioria, dominam o sul escocês.

Isso ficou claro no dia da eleição, quando a ativista de extrema direita e criminosa convicta Jayda Fransen a confrontou diante das câmeras nas ruas de Glasgow, e Sturgeon, tranquila, chamou Fransen de "fascista" e "racista" e continuou andando. É difícil imaginar outro grande líder do partido britânico falando de forma tão franca.

Mas a questão permanece: o apoio a Sturgeon como indivíduo, especialmente devido às lutas e mudanças frequentes em outras lideranças partidárias escocesas, não é o mesmo que o apoio à independência.

Para muitos eleitores escoceses, havia apenas uma opção neste ano: o SNP. O erro do SNP agora será pensar que isso se traduz diretamente numa maioria de apoio à independência.

Elliot Douglas é jornalista da redação em inglês da DW.