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Sanções europeias não são real ameaça ao poder de Putin

Roman Goncharenko (md)
28 de julho de 2014

Quem acha que as medidas a serem adotadas pela UE levarão a elite russa a se voltar contra o presidente Vladimir Putin é ingênuo, opina o jornalista ucraniano Roman Goncharenko, da redação russa da DW.

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Cinco meses. Esse foi o tempo que a União Europeia (UE) precisou para transformar palavras em ação. Finalmente a Europa reage às ações da Rússia na Ucrânia com sanções econômicas duras, que deverão ser impostas nos próximos dias.

GMF Foto Roman Goncharenko
Roman Goncharenko, da redação russa da DWFoto: GMF/Roman Goncharenko

Não foi a anexação da península da Crimeia nem a mal disfarçada guerra no leste da Ucrânia, causadora de centenas de mortos, que levaram Bruxelas a dar esse passo – o motivo é a derrubada de um avião de passageiros com cerca de 300 pessoas a bordo, cuja evidente responsabilidade é dos separatistas pró-Rússia e de seu aliado, a Rússia.

O confronto entre o Ocidente e a Rússia chegou a um ponto crítico. Até agora, os políticos russos apenas ridicularizavam as sanções ocidentais, tais como bloqueios de contas e proibição de viagens. Nada mais que uma picada de mosquito, diziam. Agora, a Europa saca armas de grosso calibre para tentar obrigar Moscou, através de sanções contra empresas russas, a deixar a Ucrânia em paz.

Segundo o semanário alemão Der Spiegel, o Departamento Federal de Informações (BND), o serviço secreto alemão, afirma que começou uma disputa entre políticos linha-dura e elites econômicas para tentar influenciar o presidente russo, Vladimir Putin. Os poderosos oligarcas russos estariam com medo que as medidas atingissem seus negócios, suas casas de veraneio na Côte d'Azur e seus bilhões depositados em contas bancárias ocidentais.

Será que agora os oligarcas levarão Putin a recuar em sua política? Será que eles derrubariam o líder do Kremlin com um golpe de Estado – da mesma forma que, em 1964, o líder do Partido Comunista Nikita Khrushchev foi removido do poder? Quem acredita nisso é ingênuo.

Putin construiu seu sistema de governo ao longo de mais de dez anos. Colocou sua gente em postos-chave, também no setor econômico. Políticos e oligarcas sabem que arriscam suas vidas ao se rebelarem contra o chefe de Estado e suas pessoas de confiança.

Muito antes da anexação da Crimeia, o chefe do Kremlin já se preparava para um confronto com o Ocidente. Funcionários estatais foram proibidos, entre outras coisas, de adquirirem propriedades no exterior. Dessa forma, Putin se tornou menos vulnerável a sanções ocidentais.

Será que Putin mudará sozinho de rumo na Ucrânia? Certamente isso também não vai acontecer. O líder russo quebrou todas as pontes atrás de si, ele não pode mais voltar atrás. Sua máquina de propaganda trabalha a pleno vapor: a Rússia quer manter sua influência sobre a Ucrânia a qualquer custo, mesmo que isso signifique guerra e isolamento do resto do mundo.

O confronto com o Ocidente é alardeado como uma batalha apocalíptica entre o bem e o mal. Se Putin ceder à pressão das sanções, pode ser considerado um fraco. Isso seria suicídio político, no ponto de vista dele.

Nos próximos dias e semanas, Putin deve, portanto, contra-atacar. Ele vai tentar ferir o Ocidente para provocar muita, muita dor. Por exemplo, com sanções a empresas europeias e americanas na Rússia ou com um corte no fornecimento de petróleo e gás. E vai também expandir sua ajuda aos separatistas na Ucrânia: mais mercenários, mais armas. Também uma invasão pode ter se tornado iminente, disfarçada de missão de paz.

A União Europeia não queria provocar tudo isso e, por isso, hesitou em decretar sanções mais duras. Mas a derrubada do Boeing da Malaysia Airlines não deixou outra opção. Enquanto Putin estiver no poder, ele vai continuar sua campanha contra a Ucrânia. A Europa e o mundo precisam finalmente entender isso. Sanções são a medida certa para obrigar a Rússia a recuar. Mas isso deverá levar anos.