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Putin testa os limites do governo alemão

Konstantin Eggert
7 de dezembro de 2019

Berlim expulsou diplomatas russos após assassinato de separatista tchetcheno. Kremlin preza boas relações com a Alemanha, mas Putin tem por princípio jamais mostrar fraqueza, opina Konstantin Eggert.

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Angela Merkel e Vladimir Putin em Sochi
Angela Merkel e Vladimir Putin em Sochi: turbulências sob superfície calma?Foto: picture-alliance/dpa/epa/S. Chirikov

Como o Kremlin reagirá à expulsão de dois diplomatas russos da Alemanha, na última quarta-feira (04/12)? O governo federal alemão tomou esse passo depois de acusar as autoridades russas de cumplicidade no assassinato do separatista tchetcheno Zelimkhan Khangoshvili, fuzilado em agosto por um ciclista em Berlim. Um suspeito, cujo passaporte, ao que tudo indica, é falsificado está preso e se recusa a falar. E o Kremlin nega qualquer participação – o que não é de espantar.

A regra básica nesses casos é Moscou reagir rápida e simetricamente: portanto, se dois russos são expulsos, então dois diplomatas também terão que deixar para sempre o vasto complexo da embaixada da Alemanha na zona oeste de Moscou. No entanto, até agora tal não aconteceu.

Talvez as autoridades russas ainda discutam quem deportar, concretamente, mas a explicação mais plausível é que estejam considerando as consequências de tal escalada. Berlim anunciou que imporá sanções contra a Rússia assim que haja provas de sua participação direta na morte de Khangoshvili. Caso se chegue a isso, a consequência poderá ser a maior crise nas relações bilaterais desde a queda do Muro de Berlim.

Nesse caso, a Alemanha poderá contar com a solidariedade de seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)? Quando Londres acusou Moscou de tentar assassinar, com o gás dos nervos Novichok, o ex-coronel do serviço secreto Sergei Skripal e sua filha na cidade inglesa de Salisbury, os 20 Estados da Otan expulsaram, ao todo mais de 100 diplomatas russos. Desta vez seria improvável uma retaliação de tais proporções.

Em primeiro lugar, o governo alemão hesitou longamente em deportar os diplomatas russos, dando a impressão de não levar, ele próprio, o caso tão a sério. Em segundo lugar, enquanto uma cidadã britânica inocente, Dawn Sturgess, tornou-se vítima acidental do atentado a gás, Khangoshvili era cidadão georgiano com um requerimento de asilo indeferido e sua deportação pendente. E por muito tempo se considerou tratar-se de um ato do crime organizado.

Em terceiro lugar, o Reino Unido beneficiou-se de sua filiação ao grupo Five Eyes, uma aliança de serviços secretos com os Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Quando americanos, britânicos e canadenses investem em frente unida, sua influência na Otan é tão grande que os demais aliados não têm alternativa senão seguir-lhes o exemplo.

Em quarto lugar, apesar da anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, a Alemanha jamais rompeu inteiramente contato com Moscou – embora tenha imposto sanções bem mais pesadas do que muitos outros Estados da União Europeia. O presidente Vladimir Putin sabe que ainda encontra interlocutores em Berlim e Paris, mesmo que os líderes alemães e franceses raramente concordem com ele – e preza esse fato.

Apesar de críticas ferrenhas do governo americano e veementes protestos da Ucrânia, a Alemanha permitiu à monopolista russa de gás Gazprom concluir o projeto Nord Stream 2. Kiev considera o gasoduto uma tentativa de cortar o trânsito do combustível através de seu território, privando assim o país de uma parcela considerável de suas divisas.

Além disso, a chanceler federal Angela Merkel é o principal motor quando se trata de induzir o novo presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, a fazer concessões Putin. Isso se aplica em especial ao momento atual, quando Rússia, Ucrânia, Alemanha e França vão se reunir mais uma vez para um encontro de trabalho no formato do da Normandia, com o fim de encerrar o conflito no Donbas (Ucrânia Oriental).

Diferentes políticos de toda a palheta partidária alemã também reivindicam periodicamente a suspensão das sanções contra Moscou. No geral, a opinião pública na Alemanha é mais favorável em relação à Rússia e sua liderança do que no Reino Unido e EUA.

Tudo isso deveria ser motivo para Putin pensar duas vezes antes de se envolver numa confrontação em grande escala com a Alemanha. Ao contrário de Salisbury, um suspeito logo foi detido em Berlim. Neste ínterim, o Ministério Público assumiu da Polícia o caso, e quanto mais avançar o inquérito, mais desconfortável deve ficar para o governo russo.

O Kremlin já se encontra diante da perspectiva de uma catástrofe de relações públicas, já que um março se realiza o inquérito sobre a queda do avião MH17, da Malaysian Airlines. Os investigadores provarão que a catástrofe de 2014, no Donbas foi causada por um míssil russo. Como Moscou dificilmente se beneficiaria de um escândalo simultâneo na Alemanha, faz sentido tentar resolver o atual caso de Berlim com uma abordagem mais reconciliatória.

Putin, por sua vez, segue o princípio de jamais mostrar fraqueza. Assim, poderia se decidir investir em caráter preventivo, por exemplo, cancelando sua participação nas conversações no formato da Normandia, planejadas para a segunda-feira.

O presidente russo não tem pressa de se encontrar com Zelenski, tampouco quer discutir com Merkel o assassinato de Khangoshvili. Ele conta que o governo alemão considerará o caso independentemente do conflito na Ucrânia, mais uma vez deixando a porta meio aberta para a Rússia.

Konstantin Eggert é um jornalista russo.

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