Opinião: Os apelos por uma mudança de poder em Belarus não silenciarão | Notícias internacionais e análises | DW | 10.08.2020

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Opinião

Opinião: Os apelos por uma mudança de poder em Belarus não silenciarão

A eleição que reelegeu Alexander Lukashenko foi uma farsa, mas a sociedade civil saiu vencedora em Belarus. Protestos em Minsk indicam que o tempo do ditador pode estar se esgotando.

As pulseiras brancas são a marca distintiva dos apoiadores da candidata da oposição Svetlana Tikhanovskaya

As pulseiras brancas são a marca distintiva dos apoiadores da candidata da oposição Svetlana Tikhanovskaya

As ditaduras vivem de mentiras. Elas censuram a mídia, controlam a comunicação de seus cidadãos e manipulam eleições de forma sistemática e descarada. Quando a trama de mentiras se desmorona, toda a estrutura do regime autocrático começa a cambalear.  

Foi exatamente isso que aconteceu neste domingo (09/08) de eleições em Belarus. Há 26 anos, Alexander Lukashenko está à frente do país que se formou como um jovem Estado-nação depois do colapso da União Soviética. Por quanto tempo Lukashenko continuará liderando o país é uma questão urgente, mesmo que agora ele possa reivindicar novamente uma vitória eleitoral com mais de 80% dos votos. Especialmente em seu próprio país, ninguém jamais acreditou nos resultados eleitorais do longevo ditador. Mas, agora, os cidadãos de Belarus estão se levantando contra a fraude nas eleições e tomando as ruas aos milhares.

O aparelho repressivo funciona: Belarus tem um dos sistemas de controle e repressão mais rigorosos do mundo. É bem possível que o governo de Lukashenko sobreviva à crise imediata após as eleições e que tiros, cassetetes de borracha e a censura da internet façam sua parte para manter, por enquanto, o ditador no palácio presidencial em Minsk.

Mas os apelos por uma mudança de poder em Belarus não silenciarão. E nas estruturas de poder e nos níveis de comando das Forças Armadas, os comandantes entenderam bem que a situação atual dificilmente pode seguir assim. Seu líder supremo perdeu visivelmente o senso de realidade e a sensibilidade política. Lukashenko ficou cada vez mais nervoso e agressivo nesta campanha eleitoral, que coincidiu com o auge da pandemia do novo coronavírus.

É foi exatamente aí que Lukashenko falhou: o ex-diretor de Kolkhoz [fazendas coletivas da ex-União Soviética], que sempre se apresentava como um zelador rigoroso, mas onipresente, de repente passou a não se importar mais. Enquanto em toda a Europa a vida econômica e pública parou, enquanto todos os países vizinhos sofreram com o fechamento de fronteiras para evitar o pior, Lukashenko negou o vírus com uma mistura de ingenuidade e arrogância. A sociedade, acostumada ao domínio paternalista durante décadas, perdeu em pouco tempo – dependendo do ponto de vista – o medo ou o respeito por um imperador que não estava apenas nu, mas que, para piorar a situação, logo foi ele mesmo infectado pelo coronavírus.

No momento, não está totalmente claro como as coisas seguirão em Belarus. Mas já há lições a serem aprendidas: a União Europeia deve reorientar sua política de sanções contra o regime e atingir duramente os responsáveis pelas fraudes e ataques brutais feitos pelo poder estatal. Ao mesmo tempo, ela deve estender a mão à sociedade civil bielorrussa, a essas pessoas profundamente instruídas e orientadas para o Ocidente – de forma ainda mais determinada e enérgica e ainda mais visível do que antes. A quem negocia bem com a China também deve ocorrer algo razoável em relação a Belarus.

A União Europeia está se definindo cada vez mais como um ator "geopolítico". Uma olhada no mapa é suficiente para entender o desafio que isso representa: a Rússia, o poderoso vizinho de Belarus, é economicamente dominante, onipresente em termos de política de segurança e exerce influência política. Até agora, a Rússia tem se saído muito bem com Belarus independente. Lukashenko era um parceiro desconfortável, mas, no fim das contas, administrável para o Kremlin. No espelho distorcido bielorrusso, a Rússia e as relações pareciam comparativamente boas. Mas o que acontece se Lukashenko não for mais um parceiro, se ele estiver em perigo de ser substituído por um governo que levará o país para a região a qual ele pertence – para a Europa?

Em Moscou, os cenários para esse caso provavelmente já estão nas gavetas do Exército e dos serviços secretos. E, portanto, já existe uma trágica ironia no fato de que Lukashenko poderia estar certo em um ponto: o ditador, que durante décadas mentiu e enganou o seu povo, advertiu durante a campanha eleitoral para o perigo de o país ser incorporado pela Rússia e que sua queda também poderia significar o fim da independência de Belarus.

Os cidadãos de Belarus superaram o medo e a apatia, se levantaram contra a opressão e a vigilância. Contra todas as probabilidades, Svetlana Tikhanovskaya e suas aliadas alcançaram algo que parecia completamente impensável há apenas algumas semanas: elas mostraram para Lukashenko e sua estrutura de poder que poderiam ser uma alternativa civil – do centro da sociedade bielorrussa e sem qualquer ajuda ou influência externa.

Esta também é uma das lições aprendidas com o que está acontecendo em Belarus: a agitação política está vindo de dentro. Essa percepção desmente todos aqueles que afirmam que as convulsões democráticas no espaço pós-soviético foram controladas por agentes estrangeiros. Também essa verdade sobre a noite de eleições em Minsk será lida com muito cuidado em Moscou.

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