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ReligiãoOriente Médio

O eterno antissemitismo de muitos muçulmanos

Abderrahamne Ammar
Abderrahmane Ammar
5 de junho de 2021

O ódio de parte do mundo islâmico contra os judeus prescinde de um pretexto atual, ele é transferido há séculos entre as gerações. É hora de uma abordagem crítica dos textos religiosos, opina Abderrahmane Ammar.

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Manifestantes queimam bandeira de Israel em Berlim
Manifestantes queimam bandeira de Israel em BerlimFoto: imago/snapshot/F Boillot

Quase sempre o antissemitismo só recebe atenção quando se torna visível através de manifestações antijudaicas ou de atos terroristas. E no entanto ele é uma prática cultivada diariamente por muitos muçulmanos e não muçulmanos.

Em sua forma subliminar, silenciosa, à primeira vista essa forma de ódio é imperceptível. Entre muçulmanos, ela se alimenta sobretudo das narrativas sobre os judeus, em circulação dentro das famílias, nas mesquitas ou na mídia, principalmente sustentando a ideia do "eterno inimigo".

Muitos muçulmanos usam a palavra yahoudi (judeu) como insulto para ofender outros muçulmanos. Ela carrega sentidos como "usurário", "traidor" ou mesmo "conspirador". Ao lado da linguagem quotidiana, essa imagem também é cultivada em romances, filmes e séries de TV. Nos meios literários e artísticos, quem defende uma posição diferente e se abre ao diálogo com judeus é igualmente logo denominado yahoudi, ou seja, uma "traidor".

Perpetuação do passado

Analisando essa imagem antissemítica no consciente e subconsciente de muitos islâmicos, percebe-se que ela nada tem a ver com experiências atuais no contato com judeus, justificando-se unicamente pelos textos religiosos e acontecimentos históricos.

Todos esses, contudo, remontam à confrontação entre muçulmanos e israelitas na época da formação do islã. Portanto até hoje muitos islâmicos projetam o passado no presente. Assim, afirmam que os atuais judeus são os descendentes dos que lutaram contra o profeta Maomé e os muçulmanos. Isso explica palavras de ordem como "Oh, seus judeus, o Exército de Maomé vai voltar!", também escutadas nas recentes manifestações sobre o conflito da Faixa de Gaza, tanto no mundo islâmico como na Europa.

A lenda da dominação do mundo

No Alcorão há versos instando os fiéis a tratarem os israelitas como irmãos, porém outros trechos incitam a combatê-los. Embora tais passagens façam parte do contexto bem específico das Asbab al-Nuzul ("ocasiões de revelação") e estejam abertas a diversas interpretações, quem quer justificar seu ódio dos judeus afirma que elas são válidas a qualquer hora e lugar.

No decorrer da história islâmica, e ainda séculos antes do Holocausto, houve ocasiões em que judeus foram colocados diante da opção de se converter ao islã ou morrer. No melhor dos casos, passavam a ter que pagar a jizya, um "imposto de proteção", com que naturalmente só os mais bem-sucedidos economicamente podiam arcar.

Entre os fatores que inflamam o antissemitismo desde então, está também a falta de progresso industrial e tecnológico dos países de cunho islâmico. Para explicar esse fracasso, afirma-se que os judeus dominariam a economia mundial.

Assim, o combate ao antissemitismo exige, acima de tudo, uma abordagem frontal dessas narrativas negativas. E os textos religiosos precisam ser finalmente interpretados de forma relativizada, à luz de seu contexto histórico e geográfico.

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Abderrahmane Ammar é jornalista da DW. O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente da DW.