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Estado de DireitoNicarágua

Nicarágua testemunha falência moral de um revolucionário

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Sandra Weiss
10 de junho de 2021

Nos anos 80, Daniel Ortega conquistou simpatias pelo mundo ao combater uma ditadura de direita. Agora, ele encabeça um regime autoritário. É hora de as democracias voltarem a se mobilizar, opina Sandra Weiss.

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Retrato de Daniel Ortega com pichação
"Nicaraguenses jamais perdoarão Ortega, sobretudo os mais idosos"Foto: picture-alliance/AP Photo/E. Felix

Há muito não se via uma caça às bruxas assim na América Latina: em poucos dias, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega¸ mandou prender quatro críticos de seu regime. Se antes a repressão visava sobretudo os estudantes que levavam às ruas o protesto contra o clã familiar autoritário, agora quem está na mira são os possíveis adversários eleitorais.

Assim, Ortega deixa claro que o pleito presidencial de novembro é mera formalidade, que não quer correr o menor risco de ter que entregar o cetro. Quem acreditasse que ainda havia espaço para negociar sobre eleições justas com o regime sandinista de Manágua, deve ter agora finalmente aberto os olhos.

Ortega se alinha com o clube dos regimes autoritários, de Cuba à China, da Rússia à Turquia. Ele está pronto a representar o papel do pária, sua imagem internacional lhe é menos importante do que a manutenção do poder.

Ocaso de um revolucionário

A escalada de repressão era previsível, e foi preparada com longa antecedência. Com a lei das ONGs – apelidada pelo povo de "lei de Putin" – o regime sandinista obrigou cidadãos e instituições que recebam apoio financeiro do exterior a se registrarem como "agentes estrangeiros". Isso forçou numerosas ONGs a fecharem ou a operar numa zona cinzenta jurídica.

A medida é complementada pela lei antiterrorismo, formulada de maneira tão vaga, que todo manifestante deve contar com a possibilidade de ser encarcerado durante anos como terrorista. Aí, alguns dias atrás, uma das duas alianças oposicionistas foi excluída da eleição; a segunda está perdendo todos os seus candidatos, enviados para a prisão. O espaço para críticos e dissidentes encolheu como um balão furado.

Contudo, isso também tem um preço para Ortega. Antes, ele era figura de proa da revolução sandinista, combatendo o ditador Anastasio Somoza, que contava com o respaldo dos Estados Unidos. Era Davi lutando contra Golias, uma população castigada contra um clã sanguinário. Isso rendeu aos sandinistas simpatia internacional e muito apoio.

Caricatura de Somoza

Agora o ex-dissidente se transformou numa caricatura de Somoza, mandando espancar aposentados a cassetete e atiçando atiradores profissionais contra jovens manifestantes: é a declaração de falência moral de um revolucionário.

Os nicaraguenses jamais o perdoarão por isso, sobretudo os mais idosos. Mas também a juventude sonha com um país democrático, pluralista, não mais governado de modo autoritário e patriarcal, como uma fazenda de família. Ortega obrigou muitos deles ao exílio.

A maioria dos antigos companheiros do governante já se afastou dele, mas seu clã conta vencer pelo cansaço: alguma hora, esperam, os críticos perderão a vontade e a energia; alguma hora, graças à lavagem cerebral estatal, as gerações vindouras não conseguirão imaginar nada além do domínio unipartidário de um clã de família.

O que a comunidade internacional pode fazer contra? Sobretudo apoiar ao máximo aqueles que, contrariando todas as adversidades, continuam mantendo erguida a tocha da liberdade e da democracia.

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Sandra Weiss é correspondente da DW para a América Central. O texto reflete a opinião pessoal da autora, não necessariamente da DW.

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