Opinião: Não fazer nada não é uma opção | Notícias internacionais e análises | DW | 25.09.2020

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Opinião

Opinião: Não fazer nada não é uma opção

Primeira greve climática global desde o início da pandemia conclama políticos de todo o mundo a finalmente agirem. Já está mais do que na hora de eles caírem na real, afirma a jornalista Tamsin Walker.

Estudante segura cartaz com ilustração do planeta Terra na palavra S.O.S. durante protesto pelo clima em Cracóvia, Polônia, em 15 de março de 2019.

Paralização é mais uma tentativa de transmitir a simples verdade de que só temos um planeta

Ao passar recentemente pela vitrine de uma loja, uma foto gigantesca de uma jovem com um sorriso hesitante chamou minha atenção. Embaixo dela, em letras garrafais, estavam as palavras "o futuro é brilhante". Uma declaração ousada, em muitos sentidos. No entanto, apesar de todo o alarido da mensagem, a expressão no rosto da modelo parecia sussurrar uma história diferente.

Talvez ela soubesse que estava posando para uma mentira. Para um futuro em que o brilho mais imediato é o do laranja incandescente dos incêndios climáticos, no qual as temperaturas aumentam e as camadas de gelo continuam a derreter enquanto os combustíveis fósseis são extraídos e queimados como se não soubéssemos de nada; por um futuro no qual seca e inundações competem por socorro e furacões atingem regiões costeiras – enquanto políticos dão de ombros, num abandono irresponsável.

Tais realidades, tal dissociação devastadora estão no cerne da greve global desta sexta-feira (25/09). Organizada pelo movimento climático internacional Fridays for Future (FFF), trata-se de mais um apelo por metas e ações ambiciosas, mais uma tentativa de transmitir a simples verdade de que realmente temos apenas um planeta e outro lembrete aos críticos que menosprezam o FFF como uma fase passageira da adolescência de que nada poderia estar mais longe da verdade.

Temperaturas recordes e desmatamento

Mais de dois anos se passaram desde que a fundadora da FFF, Greta Thunberg, embarcou em sua primeira greve solitária em frente ao Parlamento sueco. E um ano se passou desde que o movimento de greves escolares que se expandiu em torno dela mobilizou pelo menos 6 milhões de pessoas em 150 países para exigir ações climáticas.

Muita coisa aconteceu nesse tempo: os mais altos recordes de temperatura já foram quebrados; Sibéria, Austrália e Estados Unidos sofreram incêndios sem precedentes relacionados ao aquecimento global; as geleiras continuaram a recuar; ciclones na África ceifaram mais de mil vidas, e a seca atingiu a agricultura em grande parte do Europa.

Enquanto isso, o desmatamento continua na Amazônia; o presidente dos EUA, Donald Trump, deu luz verde para o desenvolvimento de petróleo e gás no refúgio ártico do Alasca e a Alemanha não planeja largar o carvão até 2038.

Durante todo esse tempo, os ativistas do FFF têm pressionado os líderes mundiais a agirem. Menos visivelmente, é verdade, já que a pandemia os forçou a protestar online em vez de se reunir em massa, mas eles continuaram pressionando.

Só nas últimas semanas e meses, Thunberg teve uma audiência com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com a chanceler federal alemã, Angela Merkel. Antes da pandemia, ela e outros membros do FFF conquistaram a reputação de não terem medo de dizer verdades cruéis a chefes de Estado e da indústria em eventos de alto escalão no mundo todo.

Metas climáticas insuficientes

Tais reuniões e aparições públicas são amplamente apontadas como truques publicitários. Por ambos os lados. No entanto, cidades, governos e até mesmo a UE declararam emergências climáticas, e no início deste mês, Von der Leyen, que apresentou um Green Deal para a Europa no final de 2019, disse que o bloco deve agora ter como meta um corte de 55% nas emissões de carbono até 2030.

E esta semana, a China – a maior emissora de CO₂ ‚do mundo – anunciou planos de atingir seu próprio pico de emissões em 2030 e se tornar neutra em carbono até 2060. Essa data infelizmente está muito longe, e ele não manterá o aumento da temperatura abaixo de 1,5 grau Celsius. Mas está sendo considerada um passo significativo no caminho da ação climática global.

Políticos, claro, dificilmente atribuirão grandes mudanças em suas políticas a um grupo – embora grande – de adolescentes e jovens de 20 e poucos anos. Porém, é difícil imaginar que eles não tenham sido tocados pela influência e tenacidade desse movimento que gerou inúmeros subgrupos e provou ser difícil de ignorar.

A greve global desta sexta-feira será diferente daquele evento eufórico massivo observado nesta mesma época do ano passado, pois será adaptado às restrições impostas pela covid-19 em cada local. Mas não será menos determinada. Como os próprios ativistas do FFF dizem, eles continuarão protestando enquanto a exploração da natureza continuar. Até que a crise climática seja superada.

Isso, é claro, exigirá uma ação ousada e organizada num nível político e regulatório. Isso exigirá que os políticos de todo o mundo sejam tão tenazes em suas ações quanto os adolescentes que convocam a greve. Se nossos chefes de governo, de Estado e da indústria seguissem esse exemplo, o futuro assumiria um brilho totalmente novo. E isso seria algo digno de um sorriso genuíno.

Tamsin Walker é editora de meio ambiente da redação em inglês da DW. O texto reflete a opinião pessoal da autora e não necessariamente da DW.

Adaptação: Isadora Pamplona

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