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Não à edição genética de humanos

27 de novembro de 2018

Consequências são imprevisíveis, tanto para as relações sociais como na saúde das futuras gerações. Quebra de tabu anunciada por pesquisador chinês envia sinal perturbador e não deve ser tolerada, opina Fabian Schmidt.

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Foto de uma aplicação da ferramenta CRISPR/Cas9
Ferramenta CRISPR/Cas9 não pode ser cura para todos os males, diz Fabian SchmidtFoto: picture-alliance/dpa/Max-Delbrück-Centrum für Molekulare Medizin

Soa tão confiável quanto assustadora a alegação do pesquisador chinês He Jiankui de que ele ajudou a criar os primeiros bebês geneticamente editados do mundoe cujos DNAs foram alterados com a nova e poderosa ferramenta CRISPR/Cas9.

O pesquisador mencionou dois documentos para provar o fato – um pedido de solicitação enviado ao comitê de ética da clínica ginecológica HarMoniCare, onde ele afirma que a fertilização foi realizada; e um documento informando os pacientes afetados detalhadamente sobre os procedimentos envolvidos.

Uma investigação está agora em andamento para constatar se os documentos fornecidos são genuínos e se o comitê de ética realmente aprovou os experimentos. A clínica em questão já negou que a fertilização e o nascimento dos bebês tenham ocorrido em suas instalações.

Independentemente dos resultados da investigação, o caso mostra a urgência com que médicos e biólogos precisam estabelecer padrões e mecanismos vinculativos para evitar que experimentos semelhantes sejam realizados.

É preciso ficar claro que os pesquisadores envolvidos em tais experimentos devem enfrentar penalidades severas. Além disso, as instituições de pesquisa devem suspender sua cooperação com universidades e clínicas que apoiem esses esforços.

Caso contrário, que tipo de sinal estamos enviando? O ser humano não deve brincar de Deus. Desejamos realmente que bebês projetados nasçam para atender às nossas ideias de como eles deveriam ser?

Ou – como no romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley – queremos uma sociedade em que os seres humanos sejam produzidos para tarefas específicas e provavelmente projetados para satisfazer as características das diferentes classes sociais?

Isso iria desequilibrar o princípio da igualdade de todas as pessoas. E como isso mudaria nossa atitude em relação àqueles com doenças e deficiências? Eles seriam apenas experimentos médicos que deram errado? Tal pensamento evoca as piores lembranças da primeira metade do século 20.

Há muito mais a ser dito contra esses experimentos, também do ponto de vista médico. A alteração da linha germinal sempre pode ter consequências imprevisíveis, mesmo muitas gerações após o nascimento. Evidências científicas mostraram no início deste ano que o uso da ferramenta CRISPR/Cas9 para a edição do DNA pode levar a mutações indesejadas.

Então, quem será responsabilizado se, digamos, daqui a 60 anos, crianças nascerem com sérios defeitos congênitos?

E vamos ser francos: o uso da ferramenta CRISPR/Cas9 é totalmente desnecessário nesse contexto. He Jiankui disse que tentou conferir uma característica que poucas pessoas possuem naturalmente – a capacidade de resistir à infecção pelo HIV, o vírus da aids.

Mas já dispomos de eficazes medicamentos antirretrovirais que impedem que recém-nascidos sejam infectados por seus pais. Mais tarde, a Aids pode ser evitada através do investimento na educação sobre o sexo seguro e outras medidas.

E quanto a outras doenças congênitas? Não, CRISPR/Cas9 não pode ser a cura para todos os males. Pais com defeitos genéticos que desejam dar à luz uma criança saudável podem recorrer à inseminação artificial. Devemos ser suficientemente emancipados para conviver com o fato de que a criança não carregará os genes de ambos os pais.

Afinal, a inseminação artificial deve ter precedência sobre um bebê geneticamente modificado que possa ter defeitos graves.

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Fabian Schmidt
Fabian Schmidt Jornalista especializado em Ciência, com foco em tecnologia e invenções.
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