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PolíticaFrança

França encara séria ameaça a sua democracia

Lisa Louis Frankreich Paris Kommentarbild
Lisa Louis
11 de abril de 2022

De um lado, um presidente imperfeito, mas democrata. Do outro, uma extremista de direita declarada. Ao optar entre Macron e Le Pen, franceses precisam se perguntar até que ponto prezam sua democracia, opina Lisa Louis

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Candidatos presidenciais franceses Marine le Pen e Emmanuel Macron
Separados por poucos pontos percentuais, Marine le Pen e Emmanuel Macron se enfrentarão no 2º turnoFoto: Paulo Amorim/IMAGO

Embora o segundo turno da eleição presidencial na França possa parecer uma reedição do pleito de 2017, a situação não é bem a mesma. Cinco anos atrás, se observadores internacionais temiam uma vitória de Marine Le Pen, os analistas do próprio país excluíam essa possibilidade categórica e unanimemente.

Desta vez, entretanto, com ar resignado, os gurus políticos franceses dizem que a candidata de ultradireita tem chances de vencer: as pesquisas de intenção de voto a mostram pau a pau com o presidente Emmanuel Macron.

Como isso pôde acontecer, sobretudo quando meses atrás as pesquisas previam que Macron venceria confortavelmente? Suas taxas de aprovação cresceram ainda mais depois que a Rússia invadiu a Ucrânia e os franceses se reuniram em torno de seu líder em tempos de crise – porém esse efeito se desfez rapidamente.

À medida que o Ocidente impôs sanções contra a Rússia, os preços de energia aumentaram na França, e com eles, a principal preocupação: como custear a vida? Le Pen pareceu abordar essa apreensão: durante meses, ela havia visitado lugarejos, cidades e mercados, representando o papel da candidata próxima ao povo, assegurando a todos que, caso eleita, manteria estáveis os preços dos gêneros essenciais e reduziria os impostos sobre combustível e energia.

Le Pen posa de "extrema direita mais branda"

Por sua vez, aparentemente ocupado em lidar com o presidente russo, Vladimir Putin, Macron esperou até o último momento para entrar na campanha, a qual se limitou a alguns comícios pequenos e um maior. Os eleitores tiveram a impressão que seu chefe de Estado não se importava com suas vidas quotidianas e estava um pouquinho seguro demais da própria vitória.

Além disso, outro político inadvertidamente ajudou Le Pen a ganhar terreno: o jornalista de extrema direita convertido em candidato Eric Zemmour. Baseando sua campanha em slogans ainda mais abertamente racistas, ele pareceu ser ainda mais extremo do que a sua rival no mesmo campo, o que por um tempo o impulsionou nas pesquisas eleitorais, até acima de Le Pen.

Contudo sua cotação acabou por despencar, também por ele ter hesitado em apoiar o acolhimento de refugiados ucranianos e mantido uma atitude ambivalente em relação a Putin, por quem expressara admiração no passado.

Inexplicavelmente, a campanha de Le Pen não fraquejou, apesar de sua proximidade histórica com o chefe do Kremlin e do apoio financeiro que no passado recebeu da Rússia. Pelo contrário, ela até se fortaleceu mais. As declarações crassas de Zemmour lenta, mas seguramente a estabeleceram como a candidata mais "branda" da extrema adireita.

De discriminação legalizada a um "Frexit"

Mas que ninguém se engane: a plataforma da política de 53 anos ainda é bem arraigada no espírito do cofundador do partido, seu pai Jean-Marie Le Pen, condenado diversas vezes por negar o Holocausto e incitar o ódio racial.

Caso eleita, Marine realizaria um referendo para consagrar na Constituição francesa o assim chamado "princípio de preferência nacional": cidadãos de nacionalidade francesa teriam precedência perante estrangeiros no tocante a acesso a empregos, moradia e saúde. A discriminação estaria legalizada.

Como presidente, ela também tornaria punível por lei a ajuda para imigrantes ilegais entrarem e permanecerem na França; limitaria o direito a asilo e não hesitaria em enviar estrangeiros de volta a países onde perseguição ou morte os aguardam.

Embora não mencione mais explicitamente um "Frexit" em seu programa, adotando o vocabulário de "renegociação de tratados", na prática essas reformas resultariam num divórcio em relação à União Europeia, sedimentando a visão antiglobalização de Le Pen e seus planos de reforçar as fronteiras nacionais e incentivar o protecionismo econômico.

Pró-europeu imperfeito x ameaça à democracia

Embora tudo isso contraste fortemente com a postura pró-europeia, integracionista de Macron, o presidente está longe de não ter defeitos. Os franceses o criticam por suas reformas voltadas para o mercado, em favor dos empresários, que lhe valeram o epíteto "presidente dos ricos".

Diz-se que, se reeleito, ele irá ainda mais longe, aumentando a idade mínima de aposentadoria e forçando os receptores de benefícios sociais a trabalharem ou a participarem de programas de treinamento profissional. Grupos ambientalistas também condenam Macron por não enfrentar devidamente a mudança climática; ativistas dos direitos femininos o acusam de não se empenhar o suficiente pela igualdade de gêneros.

No entanto, durante seu mandato presidencial o desemprego caiu e a economia vai relativamente bem, também graças aos bilhões direcionados por Paris para abrandar o impacto da pandemia de covid-19. E, apesar de prometer que limitará a imigração, o político de 44 anos também pretende introduzir leis contra a discriminação de estrangeiros no acesso a empregos e moradia.

Mais do que tudo: as críticas a Emmanuel Macron não se comparam à ameaça que uma vitória de Marine Le Pen representaria para os próprios fundamentos da democracia francesa. O único modo de proteger o país contra o totalitarismo é impedi-la de subir ao poder. Os eleitores franceses precisam se perguntar seriamente que valor dão à sua democracia, antes de darem seu voto, dentro de duas semanas.

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Lisa Louis é correspondente da DW em Paris. O texto reflete a opinião pessoal da autora, não necessariamente da DW.