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Contra a covid-19, Merkel trava sua última batalha

Christoph Strack
10 de dezembro de 2020

Sessão no Bundestag para debater o orçamento deveria servir para a chefe de governo apresentar um balanço dos 15 anos de sua gestão. Mas a pandemia mudou tudo, e Merkel mostrou que está lutando, opina Christoph Strack.

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Angela Merkel durante discurso no Bundestag
Merkel fez no Parlamento alemão um de seus mais emotivos discursos Foto: picture alliance / ASSOCIATED PRESS

Que discurso! Com exigências, súplicas, apelos. A chanceler federal Angela Merkel instou no Bundestag, mais do que nunca, por uma política mais rígida na luta contra a pandemia do coronavírus. Ela quase foi sarcástica: se as pessoas "tiverem contatos demais agora, antes do Natal, e esta vier a se tornar a última celebração com os avós, então certamente teremos errado em algo. Isso é algo que não devemos fazer".

A última festa porque matou os avós, depois que filhos e netos levaram a eles não só presentes e amor, mas também o vírus. Merkel citou o número de mortes por coronavírus oficialmente registrado na Alemanha naquela manhã, 590 em 24 horas, um triste recorde. E ela se posicionou de forma decidida em apoio às recomendações da Academia Nacional de Ciências Leopoldina e de outros especialistas, que aconselharam a implementação de mais restrições na Alemanha antes do Natal e na virada do ano: as escolas devem ser fechadas; deve haver um mínimo possível, de preferência nenhum contato social fora da família; e disciplina, mais disciplina do que até agora.

Clima de despedida

Na verdade, isso é uma extrapolação, já que os governadores são soberanos, e os detalhes das medidas restritivas contra a pandemia são regulados pelos estados federais na Alemanha. Assim luta a outrora tão fria chanceler no Bundestag, com toda sua autoridade, contra a pandemia e por aqueles que são ameaçados por pertencerem a um grupo de risco. Depois, foram ouvidos longos aplausos dos assentos da bancada conservadora. Talvez um ou outro tenha ficado pasmo com a chanceler, que já proferiu centenas de discursos no plenário e agora só deve aparecer mais meia dúzia de vezes para discursar.

Já há algo como um clima de despedida no ar. Como chanceler federal alemã, Angela Merkel explicou, defendeu, promoveu e ajudou a decidir o orçamento federal 16 vezes na sessão plenária do Bundestag. Nesta quarta-feira, ela fez o último desses discursos. Basicamente, apenas os oradores do partido populista de direita AfD abordam este aspecto: cada um deles comemora à sua maneira o fato de Merkel não ser mais responsável pelo orçamento do próximo ano. Mas eles comemoram sozinhos.

Há vários anos, o que importava no orçamento federal era sempre que ele não fosse deficitário. Por muito tempo, Merkel fez que suas várias coalizões trabalhassem nesse sentido e, desde 2014, ela conseguiu anunciar com orgulho: sem novas dívidas, redução do ônus da dívida, margem de manobra em gradual amplificação. Mas isso já era. Esse é, segundo o líder da bancada conservadora, Ralf Brinkhaus, um "orçamento de coronavírus", que sua bancada preferia que fosse diferente.

Presidência do Conselho da UE

E não apenas o orçamento federal está indo em uma direção diferente do que Merkel esperava. Seu tema preferido, a Europa, também está em perigo. A União Europeia (UE) está rachando e quebrando ainda mais hoje em dia do que era de costume. A Alemanha ocupa a presidência do Conselho da UE até o final do ano. E então? Na breve passagem sobre política externa de seu discurso, Merkel abordou a cúpula da UE que ocorre nesta quinta-feira e todos as suas incertezas. "Quase tudo ainda está fluindo", diz ela.

Como funcionará o Brexit, a saída do Reino Unido do mercado interno da UE no final do ano, é algo que ainda está em aberto. Como será o orçamento da UE nos próximos anos, também é algo em aberto, por causa da oposição da Polônia e da Hungria. O conflito ameaça abalar profundamente a UE. Porque a política está se reorganizando globalmente, com a China se tornando cada vez mais forte, com a Rússia como um novamente previsível oponente, com os EUA como um aliado temporariamente imprevisível, com a Turquia como o parceiro alienado da Europa. Nada disso é algo que a presidência alemã do Conselho da UE ainda consegue superar.

Rodada final

Como seria bom para a chefe de governo alemã se a Chancelaria Federal pudesse ter escrito um discurso de uma campanha pré-eleitoral que já começou, com a qual Merkel poderia ter celebrado o superávit do orçamento e a crescente margem de manobra para investimentos e pudesse celebrar um saldo positivo também na presidência do Conselho Europeu. Mas não é assim. Sequer sabemos ainda quem vai liderar o seu partido, a CDU, daqui a pouco mais de um mês.

No entanto, o modo como a líder de 66 anos se apresentou, com empatia, emoção e – quando uma das mulheres da AfD, Beatrix von Storch, gritava de novo num Parlamento agora silencioso –  também com pathos, mostrava que ela está lutando. Merkel está lutando contra a pandemia e simbolicamente pela vida de milhares de idosos. Ela está lutando pelo futuro deste país. Ela luta porque, além da difícil rodada de primeiros-ministros, ela também quer convencer o povo do país que ainda passa na barraca de vinho quente para bater um papo e socializar. Que bela rodada final.

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O texto reflete a opinião pessoal do autor, e não necessariamente da DW.