Opinião: A perigosa atitude de Trump perante o Irã | Notícias internacionais e análises | DW | 21.05.2019
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Opinião

Opinião: A perigosa atitude de Trump perante o Irã

Retórica de Trump sobre o Irã vai do clamor por negociações à ameaça de aniquilação. Três constantes jogam luz sobre o comportamento errático do presidente americano, opina o correspondente Michael Knigge.

Donald Trump

Trump expressou disposição de negociar com a liderança iraniana. Depois, ameaçou país com a aniquilação total

Donald Trump é um presidente errático, cujas declarações e ações costumam ser caracterizadas por contradições reais ou aparentes. Isso também se aplica à sua forma de lidar com o Irã.

No início, o presidente expressou sua disposição de negociar diretamente com a liderança iraniana para, logo em seguida, ameaçar o país com a aniquilação total.

O fato de as declarações de Trump terem sido feitas após um período de escaramuças verbais e reais, incluindo o envio de um porta-aviões dos EUA para a região, aumentou ainda mais a tensão e a confusão em torno da política do presidente para o regime em Teerã.

Mas existem três constantes básicas que, se não explicam, ao menos jogam uma luz sobre o comportamento de Trump. A primeira constante que permeia seu mandato e molda suas ações é a tendência de criar problemas para depois mostrar que quer resolvê-los.

O embate com o Irã é um exemplo clássico. Assim, Trump – sem qualquer ironia – anunciou no fim de semana que não permitirá que Teerã consiga armas nucleares, embora tenha sido ele quem abandonou um acordo, negociado durante anos com o Irã sob a liderança dos EUA, sem oferecer uma alternativa realista.

Para muitos críticos, e não apenas nos Estados Unidos, o acordo apresenta várias lacunas e é limitado demais, mas comprovadamente pelo menos afastou o perigo que Trump, agora, quer conter: a construção de uma bomba nuclear iraniana.

A segunda constante que esclarece a abordagem de Trump em relação a Teerã é que ele não quer um conflito militar. Essa atitude é baseada no profundo ceticismo do presidente perante as operações militares dos EUA, que ele, surpreendentemente, compartilha com seu antecessor, Barack Obama, tão odiado por ele em outros pontos.

Nesse contexto, acabar com as dispendiosas "guerras eternas", como no Afeganistão, e trazer de volta para casa as tropas americanas foram importantes promessas da campanha eleitoral "America first", de Trump.

Iniciar um conflito militar com o Irã estaria em contradição não só com o descontentamento pessoal de Trump com as operações militares dos EUA, como também quebraria uma promessa eleitoral central em plena campanha presidencial.

Além disso, Trump está seguramente ciente de que, por muitas razões, um conflito com o Irã seria muito mais perigoso e difícil do que a guerra com o Iraque, muito menor, e não contaria, atualmente, com nenhuma anuência da opinião pública americana.

No entanto, a rejeição de Trump a uma ação militar não significa que um conflito militar com o Irã esteja descartado. Pois o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, continua a incitar ao confronto com Teerã e, ao contrário seu chefe, é um grande defensor das operações militares dos EUA no exterior.

Antes de suas atividades atuais, Bolton defendeu o bombardeio do Irã e da Coreia do Norte em artigos no Wall Street Journal. Mas Trump sabe que, com Bolton, tem um linha-dura do seu lado e recentemente observou ser impressionante o fato de ser ele quem modera seu conselheiro de Segurança Nacional.

E de acordo com reportagens da mídia americana, recentemente Trump se queixou em círculos internos que Bolton queria levá-lo a uma guerra. Bolton, portanto, está avisado. Nas negociações com a Coreia do Norte, o papel do linha-dura já foi temporariamente reduzido após queixas de Pyongyang.

Portanto, é bem possível que Trump demita seu assessor de Segurança Nacional se ficar com a impressão de que Bolton quer conduzi-lo a uma guerra contra a vontade presidencial.

No entanto, mais realista do que um deliberado avanço bélico é uma escalada militar involuntária do permanente conflito com o Irã. A política de "pressão máxima" de Trump em relação a Teerã naturalmente elevou o risco de um confronto, que também poderia ser iniciado pelos interesses de muitos outros atores na região.

Caso isso aconteça, por razões políticas internas, Trump dificilmente poderia se esquivar de um conflito militar imposto, segundo sua visão, por Teerã, apesar de sua aversão à intervenção militar.

A terceira constante da atitude de Trump em relação ao Irã é a sua crença de que, através de negociações diretas com a liderança iraniana, ele poderia chegar a um acordo com o Irã melhor do que aquele que ele rescindiu.

Mas existem dois problemas: para possibilitar as negociações, os dois lados devem, ao menos teoricamente, no mínimo estarem dispostos a assumir compromissos. No momento, isso parece praticamente impossível dada a linha dura da administração Trump com o Irã.

Mas mesmo que as negociações diretas desejadas por Trump viessem a se realizar, elas não seriam nenhuma garantia de sucesso. Pelo contrário, mesmo após duas reuniões de cúpula com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, Trump não conseguiu avançar nas negociações nucleares.

A autoavaliação de Trump de que, apenas por meio de suas habilidades pessoais como negociador, poderia anular os interesses de longa data de seus parceiros de negociação contradiz a realidade.

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