Opinião: A ″onda azul″ é apenas uma marolinha | Notícias internacionais e análises | DW | 07.11.2018
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Opinião

Opinião: A "onda azul" é apenas uma marolinha

Eleições legislativas nos EUA não levaram a uma ampla rejeição do trumpismo. Pelo contrário: vitória dos democratas na Câmara foi mínimo necessário para assegurar controle. Para Michael Knigge, a "febre Trump" continua.

Em escritório eleitoral do Partido Democrata em Los Angeles, um cartaz de papel colado numa parede diz Democratas lutam pelos imigrantes!. Abaixo, bandeirolas triangulares dos Estados Unidos, com estrelas brancas sobre fundo azul listras vermelhas e brancas embaixo

Cartaz do partido democrata defendendo os direitos dos imigrantes

Neste dia de eleições nos Estados Unidos, dois anos depois de Donald Trump ganhar a Presidência, não houve mais racionalizações. Ninguém mais pôde dizer que o presidente Trump é só papo e nenhuma ação. Ninguém mais pôde afirmar que um Congresso controlado por republicanos, dirigido por legisladores experientes, orientaria e, caso necessário, repreenderia o novato na Casa Branca. E ninguém mais pôde argumentar que o peso do cargo presidencial ou os funcionários do governo – os chamados "adultos na sala" – impediriam Trump de agir de acordo com seus piores ímpetos.

Todas essas racionalizações e justificativas, segundo as quais Trump poderia até ser aceitável, já eram altamente duvidosas em 2016. Hoje são totalmente impensáveis, depois de o mundo vivenciar os primeiros dois anos de Trump na Presidência. Pois, nesse período, ele foi ainda mais tóxico, abominável e feroz do que durante sua campanha eleitoral – uma situação que, há dois anos, era praticamente inimaginável.

O demagogo-chefe, que recentemente declarou ser um nacionalista, alimentou repetidamente o temor perante imigrantes hispânicos, afro-americanos, muçulmanos e outras minorias, frequentemente ao adotar a chamada dog-whistle politics (política do apito canino, em tradução livre) – uma mensagem política que emprega conceitos aparentemente inócuos, mas que têm potencial de controvérsia e cujo significado "correto" é entendido apenas por uma parte específica do público, sendo ignorado pelos demais.

Trump declarou a mídia como "o inimigo do povo" e os democratas opostos a suas políticas como "não-americanos". Fez tudo isso usando uma retórica codificada com informações falsas, teorias da conspiração, meias verdades e mentiras descaradas, utilizadas como arma política com o objetivo de enfraquecer os conceitos de verdade e fato.

Mas Trump também agiu impulsivamente. Reiteradamente, se recusou a condenar claramente a extrema direita, como em Charlottesville. Iniciou uma repressão brutal a imigrantes sem documentação legal e tentou tudo ao seu alcance para impedir vários grupos de não americanos – refugiados, requerentes de asilo, migrantes – de entrar nos Estados Unidos. Partiu para a demolição das relações transatlânticas, retirou o país de acordos e organizações internacionais cruciais e se aproximou de autocratas.

Então, apesar de tudo isso, como é que os americanos não protestaram em massa contra Trump e os republicanos e inverteram as forças do Congresso?

Qualquer um que tenha viajado pelo país e falado com americanos nos últimos meses pôde perceber que os Estados Unidos estão amargamente divididos. Enquanto democratas e o chamado movimento de resistência se mostram profunda e justamente enfurecidos diante da conduta de Trump, os apoiadores do presidente e do Partido Republicano demonstram apoio igualmente profundo, ainda que equivocado, ao presidente – e fúria contra a indignação democrata.

Essa situação, associada a uma divisão de distritos de votação extremamente manipulada, que, em muitos locais, prejudicou favoritos democratas e impulsionou os esforços dos republicanos de eliminar possíveis votos para os adversários, tornou uma vitória democrata mais ampla algo mais difícil.

Por todos esses motivos, as legislativas tiveram o resultado que tiveram. Os democratas conquistaram o mínimo que precisavam e retomaram a Câmara dos Representantes para estabelecer algum tipo de controle de Trump, enquanto os republicanos obtiveram mais cadeiras no Senado. Isso é normal em eleições de meio mandato.

Porém, os democratas perderam a esperança de assumir governos estaduais ou vagas no Senado na Flórida e no Texas que virassem o jogo, talvez até conseguindo uma maioria no Senado. Isso não aconteceu. A esperada e prevista "onda azul" não se materializou. Colocado de forma diferente, Trump e seus apoiadores podem e vão declarar que suas táticas alarmistas foram bem-sucedidas e encolheram a onda azul para uma "marolinha".

Apesar da maioria conquistada pelos democratas na Câmara, o quadro após essas legislativas é extremamente difuso.

A boa notícia para o país e para o mundo é que, agora, Trump deverá finalmente enfrentar sérias resistências a algumas de suas políticas mais absurdas, e que o cenário dos horrores, no qual o Partido Republicano retém o poder nas duas câmaras do Congresso, foi evitado. Ótima notícia dessas eleições de meio mandato é que um número recorde de mulheres foi eleita para o Congresso, incluindo a primeira indígena e a primeira muçulmana – todas do lado democrata.

A má notícia para os Estados Unidos e para o mundo é que esse resultado também sinaliza que o trumpismo se tornou normal, o que certamente será notado pelos vários "mini-Trumps" espalhados pelo planeta. Por causa disso e porque não se pode fingir – como em 2016 – que não se sabe o que é o trumpismo, o resultado dessa eleição, de alguma forma, dói mais do que a vitória de Trump há dois anos.

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