O que a Rússia quer na África? | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 08.03.2018
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Mundo

O que a Rússia quer na África?

Na esteira de velhos laços soviéticos, ministro russo do Exterior faz um tour pelo continente africano. Moscou está de olho sobretudo na expansão de relações comerciais. E em matérias-primas.

Serguei Lavrov (esq.) ao lado do presidente da Namíbia, Hage Geingob

Serguei Lavrov (esq.) ao lado do presidente da Namíbia, Hage Geingob

A primeira viagem do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, à África começou no início da semana em Angola. Nesta quinta-feira (08/03), o diplomata visitou o Zimbábue, e o roteiro do ministro pelo continente também inclui Namíbia, Moçambique e Etiópia.

Depois de conversar na segunda-feira com o presidente de Angola, João Lourenço, e seu colega de pasta angolano, Manuel Domingos Augusto, Lavrov enfatizou em coletiva de imprensa a longa relação entre os dois países. O ministro russo disse esperar que os laços se tornem ainda mais estreitos – em áreas como educação, energia e cooperação militar.

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"Nós acreditamos que os problemas africanos precisam de soluções africanas", disse o diplomata russo na capital angolana. "A comunidade internacional deve respeitar a decisão dos africanos sobre como se deve pôr fim a um conflito e proporcionar-lhes apoio moral, político e financeiro para o treinamento de pessoal de missões de paz. A Rússia tem participado ativamente desse esforço", acrescentou.

Assim, Lavrov deu o tom de sua viagem. Trata-se de um retorno da Rússia ao continente africano, afirma Evgeny Korendyasov, ex-embaixador soviético em Burkina Faso e ex-representante russo no Mali. Hoje, ele dirige o Centro de Pesquisa das Relações Russo-Africanas na Academia de Ciências de Moscou.

"A importância política e econômica da África vem aumentando", diz Korendyasov, apontando que diante de mudanças no equilíbrio global de forças surge uma disputa por novos parceiros no continente.

"Sem a África não é possível encontrar uma resposta para os problemas urgentes do novo século, como as mudanças climáticas, o terrorismo e a criminalidade transnacional", afirma.

Caminhos conhecidos

Angola | russischer Außenminister Lawrow besucht Gedenkstätte (imago/ITAR-TASS/A. Shcherbak)

Em Angola, ministro russo lembrou os laços entre os dois países

Em particular, a Rússia está interessada na expansão das relações comerciais e econômicas com a África. Nesse contexto, os recursos naturais desempenham um papel importante.

A Rússia não consegue suprir a própria demanda por matérias-primas com o que produz, aponta Korendyasov, sendo que o manganês, por exemplo, precisa ser completamente importado, assim como 80% do cromo. Os russos também não conseguem atender à sua demanda de urânio com as próprias reservas.

Portanto, não é coincidência que Lavrov esteja justamente visitando quatro países africanos ricos em matérias-primas. A Namíbia, por exemplo, está a caminho de se tornar o terceiro maior produtor de urânio do mundo. Em Moçambique, a petrolífera russa Rosneft pretende participar da exploração de petróleo offshore.

Mas a escolha dos países também segue outro padrão: Lavrov persegue caminhos conhecidos. Durante a Guerra Fria, Moscou foi um importante parceiro de muitos jovens Estados africanos. A União Soviética apoiou muitos movimentos de independência. Entre eles, a Organização dos Povos da África do Sudoeste (Swapo) na Namíbia, que é hoje o partido governista.

Durante suas visitas nesta semana, o ministro russo do Exterior não se cansa de invocar esses antigos pontos comuns. Condizente com isso – como na terça-feira na Namíbia – está o seu apoio às exigências da União Africana de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

"As conquistas da era soviética não podem ser menosprezadas", afirmou Korendyazov, explicando que as experiências dessa época devem servir como base de novos desenvolvimentos. Angola, Namíbia, Moçambique, Zimbábue, Etiópia: para o especialista russo em assuntos africanos, estes são os "cinco grandes" do continente.

Namibia Wahlen Ministerpräsident Hage Geingob Wahlkampf in Windhoek (picture-alliance/AP Photo/Themba Hadebe)

Hoje no poder, Swapo recebeu apoio dos soviéticos no movimento de independência da Namíbia

No fim da semana, a última estação da viagem de Lavrov será a Etiópia. O país é o parceiro mais antigo da Rússia na África. As relações diplomáticas entre os dois Estados perduram há 120 anos.

Ambos os países estão celebrando esse jubileu com uma série de eventos e visitas mútuas. Cerca de 20 mil etíopes estudaram na antiga União Soviética e na Federação Russa, estima Grum Abay, embaixador da Etiópia em Moscou. Ele disse ter muitas expectativas em torno da visita de Lavrov. Entre outros, ele espera que sejam implementados voos diretos entre os dois países

"Acreditamos que as negociações sobre o tráfego aéreo entre a Etiópia e a Rússia sejam concluídas em pouco tempo", disse o embaixador em entrevista à DW. "Então poderemos expandir o comércio de flores em grande estilo. Não somente flores, mas colocaremos no mercado russo todos os artigos de exportação etíopes."

Visita de homólogos

Desde o início, vinha causando sensação a perspectiva de uma reunião de Lavrov com seu homólogo americano, Rex Tillerson, que chegou à Etiópia nesta quarta-feira e segue para Djibouti, Quênia, Chade e Nigéria. No entanto, um encontro entre os dois diplomatas ainda não aconteceu.

Durante a sua visita à Etiópia, Tillerson alertou os países africanos para terem cuidado com as condições dos investimentos chineses no continente, chamando atenção para os termos dos acordos.

"No que diz respeito à China, como já disse em outras partes do mundo, não estamos de forma alguma tentando expulsar os investimentos chineses da África, porque são necessários", disse o secretário de Estado. "Cremos, no entanto, que é importante que os países africanos considerem com cuidado os termos desses investimentos e não renunciem à sua soberania."

No Zimbábue, Lavrov disse que não seria apropriado que Tillerson criticasse as relações entre a China e os países africanos. "Não foi apropriado criticar as relações de seus anfitriões – na condição de um convidado – com outro país."

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