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PolíticaGlobal

O Ocidente está perdendo a influência sobre o Sul Global?

1 de março de 2023

Ocidente e potências emergentes têm adotado posições divergentes em relação à guerra de agressão da Rússia na Ucrânia. Seria o início de uma nova ordem mundial?

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Luiz Inácio Lula da Silva e Olaf Scholz durante encontro em Brasília
Em encontro com o chanceler federal alemão, Olaf Scholz, Lula negou pedido para exportar munições à UcrâniaFoto: Ueslei Marcelino/REUTERS

Quando o chanceler federal alemão, Olaf Scholz, esteve recentemente em Brasília, ouviu do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que o Brasil não iria enviar munição para a Ucrânia. Lula até reconheceu que a Rússia cometeu um erro ao invadir o país vizinho, mas disse acreditar que "quando um não quer, dois não brigam", atribuindo parte da culpa pelo conflito a Kiev.

Semanas depois, no que o governo brasileiro supõe ter sido uma retaliação, a Alemanha vetou a exportação de 28 blindados fabricados no Brasil para as Filipinas, apontou a imprensa brasileira. A Alemanha pode embargar a transação porque têm direitos sobre os componentes alemães usados nos tanques. 

Se foi ou não retaliação, é pura especulação, mas o episódio ilustra um fenômeno que tem chamado a atenção de muitos analistas internacionais: as posições divergentes entre o Ocidente e o chamado Sul Global em relação à guerra de agressão iniciada pela Rússia com a invasão da Ucrânia.

"Estou impressionado com como nós perdemos a confiança do Sul Global", declarou o presidente da França, Emmanuel Macron, durante a recente Conferência de Segurança de Munique, um fórum onde líderes mundiais debatem temas relacionados à segurança global.

Condenação à guerra

Em fevereiro de 2023, um ano depois do início da guerra, 141 dos 193 Estados-membros das Nações Unidas aprovaram uma resolução que condena a invasão da Ucrânia pela Rússia. O texto exige que Moscou ponha fim à ofensiva e "retire imediata e incondicionalmente as suas tropas" do país vizinho.

A condenação à Rússia foi ampla sobretudo entre os países ocidentais, como os Estados Unidos, a Alemanha, o Reino Unido, o Canadá, a França e a Nova Zelândia. Chamou sobretudo atenção a postura do Brasil, que votou a favor da resolução depois de semanas tentando se equilibrar numa posição de neutralidade.

Os que votaram contra o texto, além da própria Rússia, são apenas seis: Belarus, Síria, Coreia do Norte, Eritreia, Mali e Nicarágua. Mas é entre as abstenções que estão três pesos-pesados: China, Índia e África do Sul, ao lado de Angola, Moçambique, Cuba e Vietnã, entre outros.

Entre negativas e abstenções, os países que não votaram a favor do texto, apesar de serem minoria, reúnem mais de 50% da população mundial.

Nova ordem mundial

Há anos que os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, reclamam de uma ordem mundial que eles percebem como excessivamente dominada pelo Ocidente. Nesse sentido, a invasão da Ucrânia seria o início de uma "ruptura radical", nas palavras de Putin, e de uma transição para uma nova ordem mundial, "multipolar" e "pós-ocidental".

"Os atuais acontecimentos no mundo são menos sobre a Ucrânia e mais sobre uma tentativa de moldar uma nova ordem internacional", disse recentemente o ministro russo do Exterior, Serguei Lavrov.

Nesse sentido, China e Rússia insuflam uma divisão entre "the West and the Rest" (O Ocidente e os demais), apresentando-se como os líderes naturais do Sul Global numa era pós-ocidental.

O que fica em aberto é como seria essa nova era defendida pelas lideranças desses dois regimes autocráticos e com um histórico de desrespeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais. Especialistas afirmam que ela seria sobretudo mais tolerante para com regimes autoritários.

Afinal, há indícios de que há anos Moscou trabalha para subverter – por exemplo por meio de propaganda, fake news e intromissão em eleições livres de outros países – as democracias liberais.

A invasão da Ucrânia deu uma nova dimensão a essa postura, naquilo que o chanceler federal alemão chamou de Zeitenwende, ou seja, um ponto de virada.

"Estamos vivendo um ponto de virada. E isso significa: o mundo depois não é mais o mesmo que o mundo de antes. Em seu cerne está a questão de saber se o poder pode quebrar a lei, se permitiremos que Putin volte os relógios aos dias das grandes potências do século 19 ou se reuniremos forças para impor limites a fomentadores da guerra, como Putin", declarou Scholz perante o Bundestag.

Ou seja, não se trataria de uma competição entre o Ocidente e os demais, como querem Putin e Xi, mas entre a moderna democracia liberal e as autocracias, como sugerem Scholz e também Macron.

"Alguns querem que acreditemos que haveria, de um lado, o Ocidente defendendo valores ultrapassados a serviço de seus interesses e, do outro lado, o resto do mundo, que tanto sofreu e que busca cooperar apoiando a guerra ou desviando o olhar. Rejeito essa divisão", declarou o líder francês perante a Assembleia-Geral da ONU.

"Não se trata de escolher um lado entre Ocidente e Oriente, entre Norte e Sul, trata-se da responsabilidade de todos os que estão comprometidos com o nosso bem mais precioso: a paz", completou Macron, também acusando a Rússia de tentar retornar à época do imperialismo e do colonialismo.

Desrespeito à Carta da ONU

Na sua guerra de agressão, Putin simplesmente deixou de lado princípios fundamentais da Carta das Nações Unidas, como o respeito à integridade territorial e o princípio da não agressão, e adotou narrativas que parecem vindas do século 19, como a ideia de que nações menores vizinhas à Rússia fariam parte da esfera de influência de Moscou, pouco importando o que as populações locais pensem disso.

É algo semelhante à posição que o regime em Pequim tem em relação a Hong Kong e sobretudo Taiwan. O aumento da atividade militar chinesa no Estreito de Taiwan nos últimos anos elevou os temores de que o regime em Pequim decida invadir o país vizinho em busca da desejada "reunificação".

Apesar de a invasão russa da Ucrânia desrespeitar claramente a Carta das Nações Unidas, potências emergentes do Sul Global, como o Brasil, a Índia e a África do Sul, tem hesitado ou mesmo se negado a adotar uma postura dura contra Moscou. Nenhum país da África ou da América Latina impôs sanções à Rússia, e mesmo um membro da Otan, a Turquia, se negou a fazê-lo.

A violação da Carta das Nações Unidas e do direito internacional pela Rússia foi reiteradamente destacada pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que a chamou de "flagrante".

Descontentamento com o Ocidente

O discurso da nova ordem mundial "multipolar" e "pós-ocidental" encontra facilmente eco em países da Ásia, da África e da América Latina, onde a frustração com a ordem mundial liderada pelo Ocidente é grande, e não sem motivos, como demonstra o interesse secundário dos países ocidentais pelos problemas que o próprio conflito causou nos países pobres, como inflação e crise alimentar – algo semelhante ao que já havia acontecido durante a pandemia de covid-19.

A guerra na Ucrânia "agiu como um catalisador de quase todas as outras questões que incomodam países no Sul Global com a Europa e os Estados Unidos", comentou a especialista Elizabeth Sidiropoulos, do South African Institute of International Affairs, numa entrevista à DW.

Segundo ela, muitos países estão insatisfeitos com a maneira como os EUA fazem valer o seu poder e influência no mundo. Também o passado colonial da Europa desempenha um fator, avaliou, assim como a controversa intervenção da Otan na Líbia, em 2011. Para ela, a Rússia está sabendo tirar proveito desses sentimentos antiamericanos e dos ressentimentos em relação ao Ocidente.

"A Europa deve se livrar da mentalidade de que os problemas da Europa são os problemas do mundo, mas que os problemas do mundo não são os problemas da Europa", resumiu o ministro do Exterior da Índia, Subrahmanyam Jaishankar.

E há ainda os aspectos econômicos. A Rússia é um importante player no mercado internacional de vários produtos, especialmente no mercado energético. O Brasil, por exemplo, depende dos fertilizantes russos para a sua agricultura. Já a Índia aproveitou os descontos que lhe foram oferecidos por Moscou, após o início da guerra, para multiplicar suas importações de petróleo russo.

Em países como a Índia, não menos importantes são os laços históricos. A Rússia e a Índia têm uma relação de proximidade que já dura décadas. "A Rússia foi uma amiga da Índia nos anos de pobreza, nas décadas de 1950 e 1960, quando nos deu acesso a tecnologias que, em alguns casos, o Ocidente nos negou", comentou o analista Ashok Malik, da empresa de consultoria The Asia Group e ex-conselheiro do Ministério do Exterior da Índia, à DW.

Ele diz que a sociedade indiana não é antiocidental ou pró-Rússia devido a laços muito fortes com a Europa e os Estados Unidos, mas ressalva que a Rússia jamais deixará de ser levada em conta na política externa da Índia.

Desavenças no G20

Fóruns internacionais, como o G20, têm explicitado a divisão. O recente encontro dos ministros das Finanças do G20, em Nova Déli, terminou sem consenso no documento final quanto à guerra na Ucrânia.

O ministro alemão das Finanças, Christian Lindner, disse que qualquer formulação mais moderada contra a Rússia seria inaceitável para a Alemanha. "Trata-se de uma guerra que tem uma única causa, que é a Rússia e Putin", afirmou. "Isso deve ser dito claramente nesta reunião." Ele recebeu o apoio do ministro francês, Bruno Le Maire.

A China, além da própria Rússia, tentou atenuar a linguagem sobre a guerra no documento final. E também a posição da Índia, anfitriã do encontro, foi vista pelos participantes como um grande impedimento para a adoção unânime de uma declaração. Sem usar a palavra guerra e sem mencionar a Rússia, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, disse que, "desde o início dos acontecimentos na Ucrânia, a Índia tem insistido em resolver essa disputa através do diálogo e da diplomacia".