O novo rosto do movimento antiarmas nos EUA | Notícias internacionais e análises | DW | 21.02.2018
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Estados Unidos

O novo rosto do movimento antiarmas nos EUA

Após massacre em escola da Flórida, estudantes assumem liderança do ativismo contra as armas e exigem mudanças na legislação. Especialistas avaliam que estratégica de focar no lobby armamentista é acertada.

Manifestação por controle de armas em frente à Casa Branca após massacre da escola na Flórida

Manifestação por controle de armas em frente à Casa Branca após massacre em escola na Flórida

Sempre que um massacre ocorre nos EUA, o mesmo ciclo se repete: os legisladores republicanos dedicam seus pensamentos e orações às vítimas, mas alertam que essa não é a melhor hora para se discutir leis mais severas. Já a Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês), o poderoso lobby das armas do país, permanece em silêncio. Depois de alguns dias, ou algumas semanas, no máximo, o tema controle de armas vai desaparecendo da pauta, dando lugar a outros assuntos, sem que alguma ação significativa tenha sido tomada para evitar a próxima chacina.

Leia mais: Opinião: Já era hora de alguém questionar a insanidade das armas nos EUA

Mas, para muitas pessoas que ouviram as poderosas e eloquentes palavras dos adolescentes que sobreviveram ao massacre que deixou 17 mortos na escola secundária Marjory Stoneman Douglas, em Parkland, na Flórida, a impressão é de que agora pode mesmo ser diferente.

A visível determinação desses jovens de não aceitar o status quo, as acusações de inação e cumplicidade feitas aos políticos e às gerações mais velhas e a simplicidade contundente do argumento principal deles, de que eles deveriam ser protegidos, tudo isso atingiu a televisão e as redes sociais, tornando impossível que não fossem ouvidos.

Adolescentes na liderança

"O que é diferente desta vez é que os adolescentes que sobreviveram ao ataque colocaram uma face humana nele, e eles estão abordando o assunto com a superioridade moral e a energia típicas dos jovens", avalia David Meyer, que estuda movimentos sociais na Universidade da Califórnia, em Irvine.

"Depois do massacre em Newtown, em 2012, organizações tradicionais estavam à frente dos protestos. Desta vez, elas estão apenas dando apoio aos jovens", diz Meyer. No massacre de Newtown de 2012, 20 alunos do primeiro ano e seis funcionários foram mortos na escola fundamental Sandy Hook.

Presidente americano, Donald Trump

Presidente americano, Donald Trump: republicano sempre foi um defensor do direitos de posse de armas

"Depois de cada massacre, pessoas que querem o fim da violência se unem a grupos de ativismo", afirma Kathleen Roming, militante do grupo Moms Demand Action for Gun Sense in America (mães reivindicam ações pelo uso sensato de armas na América). "Mas este massacre é diferente, pois nunca vimos tamanha onda de entusiasmo entre jovens e estudantes que exigem mudanças", acrescenta.

Resposta cuidadosa da Casa Branca

E, menos de uma semana após o massacre, o protesto dos estudantes parece ter tido algum impacto na Casa Branca, que emitiu uma declaração, embora muito vaga, dizendo que o presidente apoia esforços para melhorar o controle de antecedentes na venda de armas, seguida de um memorando para que o procurador-geral proponha regulamentações que proíbam todos os dispositivos que transformam armas legais em metralhadoras.

Essas medidas podem ser interpretadas como um sinal positivo vindo da Casa Branca, mas é importante observar que o presidente Donald Trump sempre foi um defensor firme e aberto do direito de posse de armas. Quaisquer esforços sérios realizados pela Casa Branca – ou pelos republicanos – para tornar a legislação de armas mais severa seriam uma reviravolta para estes presidente e legisladores conservadores.

NRA como alvo

"É por isso que a estratégia dos estudantes da escola na Flórida é tão inteligente", diz Meyer. "Ela não foca numa agenda legislativa limitada ou entra numa discussão sobre detalhes técnicos de armas, mas foca no geral – e na NRA –, pedindo aos políticos que repudiem qualquer apoio financeiro do grupo."

"Acho que é realmente um grande objetivo, porque quer dizer que eles não vão se perder em debates sobre se armas de assalto são realmente responsáveis por muitas mortes ou se o controle de antecedentes na venda de armas é mesmo eficaz. Em vez disso, eles estão partindo da premissa de que a NRA significa acesso livre a armas e que isso é ruim para a política."

Isso certamente não fará a NRA mudar de posição, mas tornará mais difícil para candidatos republicanos explicar por que aceitam dinheiro de um grupo que trabalha para que armas sejam acessíveis. Meyer também prevê que o movimento ganhará força com o apoio dos muitos novos grupos que se formaram depois de um ano de excepcional resistência política ao Partido Republicano e a Trump.

Estudantes do Stoneman Douglas visitam gabinete de senador democrata: adolescentes tomaram dianteira da campanha contra armas

Sobreviventes do massacre visitam senador democrata: adolescentes tomaram dianteira da campanha contra armas

Um geração de massacres

"E eu acrescentaria que Trump tem pouco talento para acalmar ou reconfortar descontentes", diz Meyer. "Para um presidente, consolar pessoas depois de uma tragédia é parte do trabalho, e alguns democratas são bons nisso e alguns republicanos são bons nisso, mas Trump é realmente muito ruim nisso. Toda vez que ele aparece, ele deixa as pessoas ainda mais irritadas. Isso pode ajudar a dinamizar a mobilização."

Roming também tem esperança de que os estudantes da escola na Flórida consigam impulsionar mudanças duradouras. "Esta é realmente uma geração de massacres", diz, explicando que a atual geração cresceu com os treinamentos regulares para situações de tiroteio nas escolas. "Eles basicamente ensaiam o próprio massacre em suas escolas, como parte do cotidiano escolar", ressalta.

"E, depois desse último massacre, eles não só estão dizendo que estão fartos desse ciclo de violência e pedindo mudanças, mas exigindo mudanças", afirma a ativista Katy Klein, do grupo Aliance for Guns Responsibility (Aliança pela responsabilidade com as armas), sediado no estado de Washington.

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