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Pacientes com covid-19 em hospital em Santo André
Em Santo André, média de idade de pacientes de covid-19 internados caiu de 65 para 37 anosFoto: Gustavo Basso/DW

O novo perfil de pacientes internados com covid-19: jovens

Gustavo Basso de Santo André
25 de março de 2021

Dados e profissionais revelam que nova onda da covid-19 tem afetado grupo até então menos atingido. Para especialistas, um reflexo da variante P1 e da falta de isolamento social.

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A média de idade de pacientes de covid-19 internados em Santo André, na Grande São Paulo, caiu pela metade entre a primeira e a segunda onda da doença no Brasil. Em julho de 2020, pico da primeira onda no estado de São Paulo, os pacientes internados no hospital tinham, em média, 65 anos. Nos primeiros meses deste ano, a média é de 37 anos – reflexo sobretudo da nova variante P1 e da falta de isolamento social, apontam especialistas.

Após quase ser fechado em novembro de 2020 por causa da baixa demanda, depois de sete meses em funcionamento, o Hospital de Campanha Pedro Dell'Antonia – mais longevo da Grande São Paulo – hoje trabalha com mais de 90% de ocupação, contando quase 200 pacientes. A ala de cuidado intensivo, que funciona como UTI, tem 100% de ocupação, com 20 pacientes intubados, muitos com idades entre 35 e 40 anos.

Uma q​​​​​ueda semelhante é apontada pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Segundo Suzana Lobo, presidente da entidade, profissionais em todo o país vêm observando um grande aumento do número de pacientes mais jovens e graves, algo muito diferente do começo da pandemia, quando os idosos predominam nas UTIs.

Lobo levantou os números do Hospital de Base de São José do Rio Preto, que possui atualmente 300  leitos exclusivos para covid-19, metade deles de UTI, e serve de referência para 104 municípios da região noroeste de São Paulo.

"Estamos realmente observando esta média de idade de 35 a 40 anos entre os pacientes mais recentes, e estamos observando esta tendência desde a primeira quinzena de janeiro", conta a médica intensivista, lembrando a movimentação da população mais jovens durante festas de fim de ano. "Os jovens circularam mais, acabamos tendo muito mais casos e, desse modo, também mais casos graves."

Para ela, a situação ainda deve piorar muito antes de melhorar, com hospitais de todo o país entrando em colapso nas próximas quatro semanas.

Ocupação por tempo maior

Os dados da AMIB também mostram o maior tempo de permanência dos pacientes nas unidades intensivas. "Esse perfil de pacientes mais jovens tende a ocupar por mais tempo o tratamento, de modo que o giro de leitos se torna menor, impactando todo o sistema de saúde; a aderência dos mais jovens aos cuidados e restrições é fundamental, pois o sistema realmente está em colapso", alerta Lobo.

Victor Chiavegato, superintendente responsável pelos hospitais de campanha de Santo André, observa algo semelhante. "Se por um lado o paciente mais jovem tem uma chance de sobrevida maior que os idosos, ele também fica muito mais tempo em UTI do que o paciente mais velho, ocupando um leito por muito mais tempo, causando a superlotação", diz.

Atuando na linha de frente em hospitais da rede pública e privada – onde observa a mesma alteração – desde o começo da pandemia, Ana Carolina Mercê conta que devido ao maior tempo necessário para liberação dos leitos, o número de internações caiu quando comparados o pico da primeira onda e os primeiros 78 dias de 2021. No Hospital Geral de Itapecerica da Serra, onde é gerente executiva, a idade média foi de 65 para 50 anos, com uma paciente de 14 anos intubada na UTI.

Ela alerta para o impacto social desta redução. "Temos agora casos dramáticos, com alta mortalidade, de pessoas com filhos pequenos, provedores e em idade produtiva, que mesmo quando se recuperam, saem muito debilitados", explica. Para ela, a gravidade deste segundo passo da recuperação não é tratado com a devida atenção.

Falta de isolamento social e nova variante

Com o fim do auxílio emergencial em dezembro de 2020 e a necessidade de sair de casa para trabalhar, o número de passageiros nos ônibus paulistanos dobrou entre as duas fases vermelhas decretadas no estado. 

Chiavegato, de Santo André, critica a falta de isolamento social, que considera o maior responsável pela atual crise. "Se tivéssemos ficado em casa, essa variante não teria tomado essa força que tomou. São meninos trabalhando, gente frequentando igrejas, todos os mais jovens se expondo", diz o superintendente.

O infectologista Marcos Boulos, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), atribui a queda na média de idade dos pacientes com covid-19 internados à variante P1 do coronavírus, detectada inicialmente no Amazonas. Segundo estudos, a nova cepa é até dez vezes mais contagiosa que as anteriores, e mais resistente a anticorpos já existentes em pessoas que tiveram a doença previamente.

Hospital de campanha em Santo André
Hospital de campanha em Santo AndréFoto: Gustavo Basso/DW

"Não é possível uma doença mudar tão visível e permanentemente o grupo contagiado sem uma alteração genética no próprio vírus. Ainda estamos compilando os dados do estado, mas é visível esse contágio dos mais jovens", afirma Boulos, membro do comitê de contingência do coronavírus do estado de São Paulo.

O diretor-científico do Hemocentro de Ribeirão Preto (SP), médico Rodrigo Calado, também associa a cepa amazônica ao número crescente de pacientes mais jovens – a média de idade de internados por covid-19 no hospital caiu para 36 anos –, previamente saudáveis e sem sintomas característicos da infecção pelo vírus.

O que se verifica em Santo André e Ribeirão Preto também vale para a capital do estado: os jovens estão sendo bem mais atingidos pela covid-19. Dados da prefeitura paulistana mostram que quase um terço dos doentes têm, nesta segunda onda, entre 18 e 34 anos.

"Cenário de guerra"

Para muitos médicos, a vacinação deveria ter sido indicada pelos adultos jovens, dos 20 aos 50 anos, devido à maior exposição deles ao vírus. Em 2020 a informalidade passou a atingir 38,7% da população, o que representa 33,3 milhões pessoas sem carteira assinada ou sem remuneração.

"É muito mais fácil manter um aposentado em casa do que um trabalhador que sustenta uma família", comenta Daniela Fabiani, diretora da emergência do Hospital Geral Vila Penteado, na zona norte de São Paulo.

A unidade hoje opera com 100% de sua ocupação dos leitos para covid-19, com a emergência atuando muitas vezes como unidade intensiva. "Antigamente intubávamos um paciente a cada cinco dias; hoje são ao menos cinco por dia, e muito graves", conta.

Nesta quarta-feira (24/03), o estado de São Paulo registrou um recorde de pessoas internadas por covid-19, somando 12.588 pacientes em UTIs e 17.771 em enfermarias. Em todo o estado, as taxas de ocupação de UTIs chegaram a 92,3%, e 1.021 pessoas morreram vítimas do covid-19 só na segunda-feira. 

De acordo com Chiavegato, para os profissionais a exaustão é o ponto mais crítico. "Estamos vivendo um cenário de guerra, uma guerra biológica", diz. "Seis meses atrás eu planejava estar trabalhando em outra unidade de saúde, com o hospital de campanha já fechado. Hoje não espero estar em outro lugar pelos próximos seis, 12 meses", comenta o superintendente, que projeta o combate ao coronavírus por até dois anos com a vacinação no ritmo atual.

Uma semana atrás, a cidade de São Paulo registrou a primeira morte de um paciente na fila de espera por um leito de UTI. De um dia para o outro, a fila por leitos de covid-19 passou, então, de 395 pessoas para 475. Para tentar minimizar os danos, a prefeitura da capital paulista anunciou que vai abrir novos leitos em "hospitais de catástrofe", exclusivos para pacientes de covid-19. 

"São muitos bailes, pagodão, baladas clandestinas"

Na semana passada, o motofrestista Cleberson de Oliveira, de 34 anos, ocupava um leito de UTI no já lotado Hospital Geral de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. Ele estava internado há 18 dias, 13 deles na UTI do hospital. Para ele, a situação de contágio entre os jovens seria diferente se houvesse maior consciência.

Cleberson de Oliveira
Para Cleberson de Oliveira, "é mais fácil dialogar com quem está se cuidando"Foto: Gustavo Basso/DW

"É mais fácil dialogar com quem está se cuidando, porque quem não está, sabe bem o que está fazendo. São muitos bailes, pagodão, baladas clandestinas acontecendo por aí", reclama, ainda com usando o cateter de oxigênio. Ele reconheceu que a alta seria apenas o primeiro passo, e que seria impossível levantar e "sair correndo".