″O mundo tem que pensar no coletivo, a Terra é nossa casa comum″ | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 19.10.2020

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Entrevista

"O mundo tem que pensar no coletivo, a Terra é nossa casa comum"

Após receber apoio do papa, padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo da Rua em São Paulo, fala sobre incertezas trazidas pela pandemia e vê paralelos entre ataques a seu trabalho e o Evangelho.

Padre Júlio Lancellotti

"Não podemos romantizar o caminho de Jesus", diz o padre Júlio Lancellotti

A visibilidade do trabalho realizado pelo padre Júlio Lancellotti durante a pandemia, como coordenador da Pastoral do Povo da Rua em São Paulo, tem atraído ameaças ao sacerdote de 71 anos. Em setembro, ele chegou a registrar um boletim de ocorrência após ser xingado por um motoqueiro durante atendimento no centro de São Paulo.

O pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, localizada na Mooca, Zona Leste de São Paulo, viu triplicar o número de 200 pessoas que vinham tomar café da manhã diariamente no local. Há 35 anos, Lancellotti mantém o compromisso sacerdotal de servir a refeição, conversar e acolher aqueles que o procuram.

É recorrente vê-lo frisar que não trabalha com a população de rua, e sim convive com eles. Foi um dos tópicos que abordou no recente telefonema com o papa Francisco, que, no último dia 10 de outubro, ligou para o padre Júlio com o intuito de manifestar apoio ante os ataques que o religioso sofrendo. A conversa foi citada pelo sumo pontífice em seu discurso dominical do dia seguinte.

Embora reconheça ser afetado pelos ataques, o padre parece lidar de forma resignada com a reação ao seu trabalho. Em entrevista à DW Brasil, Júlio Lancellotti recorre ao Evangelho para lembrar que Jesus Cristo alertava para a perseguição que seus fiéis sofreriam, incentivando que não tivessem medo.

"Não podemos também romantizar. O seguimento de Jesus não é o céu, mas a Terra, como estrada que tem buracos e flores, pedras e sombras. É um caminho de desafios e conflitos. Não podemos temer nada disso. O amor nos impele a caminhar", afirma.

DW: O senhor já tinha falado com o papa Francisco antes do último telefonema?

Padre Júlio Lancellotti: Não, nunca tinha falado com ele. Tinha trocado algumas correspondências, apenas, respondidas sempre pela nunciatura apostólica e a Secretaria de Estado da Santa Sé. Sempre são respostas formais, mesmo que algumas em tom pessoal, assinadas pelos secretários. Desta vez, eu tinha mandado algumas fotos do trabalho na pandemia e informações sobre essa situação que vivemos agora e envolve a população de rua também. Eu desejava muito falar com ele, mas não esperava que ele ligasse. Quando ligou, não reconheci de imediato, porque o número não estava identificado. Ele perguntou: "padre Júlio?" e, quando confirmei, prosseguiu: "parla italiano o habla castellano?" Respondi: "due", e então ele se apresentou, "sono Papa Francesco". Levei um susto, me surpreendi, e disse "Santitá!". Só aí reconheci que era ele.

Como foi a conversa? Quais assuntos foram abordados?

Ele começou dizendo que viu as fotos, além do que eu escrevi, que agradecia muito e que sabe quanto é difícil a nossa missão. Então, perguntou como era o meu dia. Expliquei para ele tudo o que nós fazemos, e que isso é um instrumento cujo objetivo principal é conviver. Ele falou: "É isso mesmo. Faça sempre como Jesus fez, conviva com os pobres. Não desanime, não desista, continue firme." Ele pediu para que eu dissesse aos irmãos de rua que os ama muito, tem muito carinho por eles, e que pedia as suas orações, pois reza por eles todos os dias. Por fim, pediu que eu rezasse por ele e me deu a sua benção.

O senhor acha que a Igreja tem se posicionado à altura das questões sociais que são enfatizadas pelo senhor e também pelo papa Francisco?

As respostas são históricas, e nunca um episódio momentâneo. O papa acaba de publicar uma encíclica muito forte, que é como um apelo de transformação para toda a humanidade. Acredito que o documento represente uma força muito grande na busca por mudanças. Sempre há passos a serem dados. Nós nunca vamos poder dizer que estamos prontos. É um caminho que a gente precisa sempre, de novo, recomeçar. E a Igreja não faz um caminho uniforme. Nós temos que seguir Jesus. Esse seguimento tem que ser exigente, como foi anunciado no Evangelho. Agora, isso é uma coisa que cada um de nós tem que diariamente rever e recomeçar. Nossa missão não termina nunca, também por ser histórica.

Com a realização do Sínodo da Amazônia no ano passado e a recente manifestação de apoio ao senhor, o Papa demonstra dar uma atenção especial ao Brasil?

Acho que essa atenção é para o mundo todo. O papa tem um olhar muito forte para os refugiados, imigrantes, que têm situação dramática, mas também tem os olhos voltados para a Amazônia. O papa não olha para um ponto só. Na sua missão de pastor da Igreja no mundo inteiro, ele tem que olhar onde estão os fracos. Não só no Brasil. Eles estão aqui na Amazônia, no Pantanal em chamas, mas também no Mediterrâneo, que, como ele mesmo disse, transformou-se num grande cemitério. Ele está olhando para a África que está subindo para a Europa com os refugiados da guerra. O olhar do papa tem que ser atento, como um pai e uma mãe que têm uma família numerosa e devem olhar para todos os filhos.

O gesto do papa Francisco foi um sinal de apoio ao senhor em meio aos ataques que vêm sofrendo. Como essas situações lhe afetam?

Afetam diretamente, na medida em que algumas coisas são muito pesadas, fortes. Outras vezes, afetam indiretamente, mas com muita força, quando agridem os moradores de rua para me atingir. Fazem contra eles o que não podem fazer contra mim. Casos de violência física são recorrentes ao longo do tempo. Já houve situações em que os agressores bateram neles e disseram: vai chamar o padre, diz para ele vir aqui que vai apanhar também. Eu mesmo, pessoalmente, já fui atingido pela Guarda Civil Metropolitana [em setembro de 2018, já na gestão Bruno Covas]. Já tive que enfrentar gás de pimenta, bomba de efeito moral, e convivi muitas vezes com situações críticas, seja em presídios ou manifestações.

Na visão do senhor, há algum paralelo bíblico na perseguição que o senhor tem sofrido ao defender a população de rua?

Acho que o próprio Jesus já disse, e está nos Evangelhos: se me perseguiram, vão perseguir vocês também. Jesus diz: não tenham medo, enfrentem os desafios, caminhem. Este é o caminho, não podemos também romantizar. O seguimento de Jesus não é o céu, mas a Terra, como estrada que tem buracos e flores, pedras e sombras. É um caminho de desafios e conflitos. Não podemos temer  nada disso. O amor nos impele a caminhar.

O sufocamento da teologia da libertação pelo papa João Paulo 2º afastou a Igreja dos mais pobres no Brasil, já que essa corrente tinha força no país?

A ação da Igreja é muito diversificada, não é toda do mesmo jeito. Há muitas comunidades no meio dos indígenas, camponeses, ribeirinhos, das pessoas em palafitas, os sem-terra. Há muitas comunidades, agentes de pastoral. Imagine a Igreja no mundo todo, na África, Moçambique. São muitos os lugares e apelos. A Igreja tem muitas faces. É sempre a de Cristo, mas aculturada a cada lugar e situação, como se vê nas comunidades espalhadas pela Amazônia e o mundo todo.

Qual balanço o senhor faz do trabalho realizado junto à população de rua durante a pandemia?

No começo, foi bastante complicado, porque nossa relação é de convivência. Foi muito desafiador para nós e para eles entender tudo o que estava acontecendo. Naquele início, era difícil até conseguir máscara e álcool em gel suficientes, acesso à água potável, ou meios de higienizar as mãos. No começo, havia inclusive uma ameaça de que a população de rua poderia ser toda dizimada, atingida, então foram abertos abrigos de emergência. Foram momentos muito difíceis, de muita descoberta e aprendizagem. Havia a ação dos consultórios de rua, medindo a temperatura de todos, vendo quem estava com sintomas, respondendo às questões que despertavam medo, como o que significava ficar em casa para quem vive na rua. Foram imensos os desafios. É uma população que aumentou nesse período e teve a situação agravada.

Neste momento, a situação está mais controlada?

A gente ainda não sabe. A sociedade toda está com dificuldade. Todos os dias, tem instabilidade, queda, aumento, a situação é difícil. Você vê a Europa voltando para trás, a situação em Paris, na Espanha, em Portugal. Nós não sabemos ainda o que vai acontecer conosco.

O senhor acredita ainda ser possível construir um mundo mais humanitário?

Isso a gente ainda não sabe. A encíclica do papa diz: ninguém vai se salvar sozinho. Então, o mundo tem que pensar no coletivo, na diversidade, e não na uniformidade, mas numa unidade que leve em conta que a Terra é nossa casa comum. Não terão alguns que se salvarão, e outros não. Todos nós vamos participar dessa mesma aventura.

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