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Direitos humanosBrasil

O mito que mata

Ynae Lopes dos Santos
Ynaê Lopes dos Santos
24 de fevereiro de 2022

Mito da democracia racial está por trás de assassinatos bárbaros, como o de Moïse Kabagambe e Durval Teófilo Filho, afirma a colunista.

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Quiosque Tropicália
Quiosque Tropicália, onde Moïse Kabagambe foi assassinado em 24 de janeiroFoto: Fotoarena/imago images

Tentei começar esse texto de inúmeras maneiras. Mas logo entendi que nenhuma delas seria capaz de dar conta de todo o horror que aconteceu com Moïse Kabagambe, há exatamente um mês, no dia 24 de janeiro, num quiosque na praia da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, em plena luz do dia. Barbárie é pouco. Confesso que não tive condições de assistir por completo as imagens que documentam o assassinato. E que acompanhar as investigações da polícia tem sido igualmente abjeto.

São camadas e mais camadas de violência, crueldade, e covardia, apontando que o racismo é como as rochas sedimentares: formado pela decomposição e consequente cimentação do que há de pior em nossa matéria orgânica.

Na camada mais visível estão os homens presos pelo crime, que advogam (em defesa própria) que não tinham a intenção de matar Moïse. Também são taxativos em se defender de qualquer acusação de racismo e xenofobia. O assassinato do jovem congolês teria sido, em tese, o desdobramento de uma raiva extravasada sobre uma pessoa que parecia estar perturbando a paz em Tropicália. Quem acompanhou por alto o assassinato, sabe que o traumatismo de tórax que foi a causa morte de Moïse não foi resultado de um acidente, mas consequência de inúmeras pauladas que ele recebeu enquanto estava preso, absolutamente indefeso.

No entanto, chega a ser perverso e curioso, que esses homens não consigam (ou não queiram) enxergar que a raiva por eles extravasada tenha tido um destino certo. Um homem negro. Um jovem homem negro.

A camada que sustenta essa raiva toda, e principalmente, a possibilidade de extravasá-la é a da desumanização historicamente construída sob a vida de toda e qualquer pessoa negra. Uma camada muito mais antiga, mais solidificada, que, infelizmente faz com que, junto com toda atrocidade, dor e revolta que circundam especificamente morte de Moïse, ela seja mais um HOMEM NEGRO ASSASSINADO.

Quando achei que era possível respirar e lidar com todo o horror que envolve essa história e seus desdobramentos, mais uma notícia: no dia 02 de fevereiro, na região metropolitana do Rio de Janeiro, mas especificamente na cidade de São Gonçalo, outro homem negro foi assassinado. Na volta de mais um dia de trabalho, Durval Teófilo Filho, de 38 anos, foi assassinado com três tiros por seu vizinho, no condomínio onde ambos moravam. Achando que se tratasse de um criminoso, o sargento da Marinha Aurélio Alves Bezerra disparou três tiros contra Durval, que deixou viúva e uma filha pequena.

O que está por trás dos assassinatos bárbaros desses dois homens negros não é uma novidade no Brasil racista. Aqui, a vida das pessoas negras nada vale. Sobretudo, a vida dos homens negros. Contudo, o que me parece mais assustador é que esse mesmo Brasil que assassina homens negros "sem intenção de matar", ou porque supõe que esses homens sejam criminosos (lembrando que aqui a pena de morte não é oficialmente legalizada), é o país sob o qual paira o Mito da Democracia Racial.

É constante ouvirmos de brasileiros (inclusive de homens que estão no poder) que o no Brasil não há racismo. Sobretudo quando comparado com a dinâmica que organiza outros lugares, como os Estados Unidos. Para essas pessoas, o Brasil seria uma espécie de paraíso racial, e a miscigenação da população brasileira seria um dos maiores argumentos utilizados por quem defende esse mito – que vem sendo reinventado nos últimos 180 anos da nossa história.

Isso ficou especialmente evidente no caso de Moïse, quando os assassinos argumentaram que não tinham intenção de matá-lo. Uma desculpa que tem a cara do racismo no Brasil.

Pois bem, o mito da democracia racial é apenas mais uma ferramenta de perpetuação do racismo brasileiro. Uma ferramenta muito eficiente, vale dizer, pois ela cria uma espécie de névoa que dificulta que possamos enxergar que o racismo está construído a partir da crença na supremacia branca.

As mesmas pessoas que acreditam que o Brasil é um paraíso racial – e que os assassinatos de Moïse e Durval são casos isolados –, também acreditam e defendem a superioridade da população branca, utilizando para isso a falaciosa ideologia da meritocracia.

O Brasil não é nem nunca foi uma democracia racial.

Foi a localidade das Américas que mais recebeu africanos escravizados, o último país a abolir a escravidão, uma República que se fundou na marginalização e exclusão sistemática da população negra, um país cuja elite intelectual por muito tempo abraçou e disseminou o racismo científico, impedindo legalmente que imigrantes africanos livres pudessem entrar no Brasil e engrossar a massa de trabalhadores do país.

Todos os fatos descritos acima são exemplos de escolhas feitas pelos dirigentes políticos do país ao longo de nossa história. As mesmas elites que investiram na construção de um mito que escamoteia o tamanho do racismo no Brasil.

A Democracia racial brasileira não existe. E o mito em torno dela segue matando negros e negras.

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Mestre e doutora em História Social pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de História das Américas na UFF. É autora dos livros Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro (Hucitec 2010), História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017) e Juliano Moreira: médico negro na fundação da psiquiatria do Brasil (EDUFF, 2020), e também responsável pelo perfil do Instagram @nossos_passos_vem_de_longe.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.